Turquia à procura do homem e do motivo do ataque em Istambul

Erdogan diz que o atentado pode estar ligado à participação do país na guerra ao Daesh. Há quem levanta a hipótese de ter sido um fundamentalista turco contra festividades não islâmicas como o Natal e a passagem do ano.

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Funeral de Ayhan Arik, uma das vítimas do ataque na discoteca Reina Reuters/OSMAN ORSAL

Istambul começou o ano com um ataque numa discoteca na margem do Bósforo quando um homem saiu de um táxi, retirou uma arma da mala do carro e disparou – primeiro contra o polícia e a segurança que estavam à porta, e depois dentro do local, matando pelo menos 39 pessoas e deixando 65 feridas, quatro deles em estado crítico.

O atacante largou então a arma e conseguiu fugir: no dia 1 de Janeiro a polícia turca levava a cabo uma caça ao homem. Testemunhos de pessoas que estiveram na discoteca falavam de vários atacantes, mas as autoridades dizem que foi obra de uma só pessoa.

O Presidente turco, Recep Rayyip Erdogan, pediu aos cidadãos para manterem a calma e unidade, e não deixarem que “façam jogos sujos” com os turcos. Os ataques não foram “independentes dos desenvolvimentos na região”, acrescentou, tendo acontecido depois de a Turquia apoiar um acordo de cessar-fogo na Síria. Os ataques pretenderam “criar o caos, desmoralizar o nosso povo, e desestabilizar o nosso país”, disse Erdogan.

O primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, disse que não havia ainda informação de quem estava por trás do ataque. Analistas apontam para a possibilidade de envolvimento dos jihadistas do Daesh, que já levou a cabo outros ataques no ano passado na Turquia, incluindo um no aeroporto de Istambul que deixou 45 mortos (embora não o tenha reivindicado - em países de maioria sunita como a Turquia, o Daesh evita reivindicar atentados com vítimas civis). O PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) recusou responsabilidade; o grupo, que também realizou vários ataques no ano passado, tem normalmente como alvo forças de segurança, embora como no ataque ao estádio de futebol do Besiktas por vezes morram também civis.

A discoteca Reina, alvo do ataque do fim de ano, é conhecida por receber estrelas turcas, com jogadores de futebol ou actores de novelas, e é também popular entre estrangeiros. No local estariam cerca de 800 pessoas quando o atacante disparou contra a multidão à 1h45 (hora local). Todos os mortos foram atingidos com tiros de Kalashnikov, segundo as autoridades hospitalares citadas pelo diário britânico The Guardian. Testemunhos falam de pessoas a desmaiar, outras a correr sobre corpos para tentar ficar a salvo, e ainda outras a atirar-se às águas do Bósforo.

Muitas vítimas eram estrangeiras. Ao final da tarde de domingo havia informação contraditória: o ministro do Interior falava de 15 mortos estrangeiros e uma deputada da oposição em 24.

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Pelo menos cinco sauditas, três jordanos, três libaneses, uma israelita, uma francesa também com cidadania tunisina morreram, de acordo com informação dos países de origem ou as famílias. Também havia vítimas de origem marroquina, líbia e com dupla cidadania turca e belga.

A Turquia tinha já medidas de segurança excepcionais em vigor para o final do ano: vários locais públicos estavam com acessos condicionados, várias ruas centrais foram fechadas ao trânsito e não foi permitida a entrada a camiões nas grandes cidades. Houve ainda um destacamento especial de polícias.

O facto de ainda assim ter acontecido um ataque está a levar muitos a questionar a capacidade da polícia. O diário Hurriyet diz que o polícia morto à porta da discoteca tinha 21 anos e estava no seu 10.º mês de serviço. O afastamento de muitos responsáveis por se temer ligações com o líder religioso Fetullah Güllen, que o Presidente turco culpa pelo golpe falhado de Julho, pode ter deixado a polícia com problemas, especula o jornal, lembrando ainda que o homem que matou o embaixador russo em Ancara a 19 de Dezembro era agente da polícia.

O jornal, e responsáveis políticos da posição, apontaram ainda outra questão: a campanha conservadora em curso na Turquia que vinha a declarar como não islâmicas e desprezíveis as celebrações como o Natal ou a passagem do ano.

O líder religioso Mehmet Görmez foi rápido a condenar o ataque e a dizer que não havia diferença entre um atentado num local de diversão ou num local religioso. Mas, lembra o Hurriyet, o mesmo líder tinha dito há dias que estas celebrações eram “ilegítimas”. Por isso há também quem especule que o ataque pode ter sido levado a cabo por um turco fundamentalista ou radicalizado, e não necessariamente pelo Daesh.