Crítica

Uma viagem pelos mares de Chagas Rosa

Sob o signo do elemento água Mares é demonstrativo da maturidade criativa de António Chagas Rosa e da constante capacidade de renovação do Drumming.

A 3 de Fevereiro de 2017, o Drumming irá apresentar o disco em concerto no Teatro do Campo Alegre no Porto
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A 3 de Fevereiro de 2017, o Drumming irá apresentar o disco em concerto no Teatro do Campo Alegre no Porto

A colaboração do Drumming Grupo de Percussão com compositores contemporâneos é corroborada não só pelas diversas encomendas e estreias que o grupo tem realizado ao longo dos seus 17 anos de actividade, mas também por um interessante portefólio discográfico no qual se destacam três discos monográficos. O primeiro, Pocket Paradise (2009), foi dedicado à música do compositor espanhol Jesús Rueda. Seguiu-se em 2013 Step by step, com música de António Pinho Vargas. Em 2016 foi lançado Mares, com música de António Chagas Rosa, um disco que contraria as dificuldades de edição musical inerentes ao deficiente apoio financeiro que a música erudita tem sofrido em Portugal nos últimos anos (apesar disso já está no prelo um novo disco do Drumming, dedicado à obra do madrileno José Manuel López López, que será brevemente disponibilizado pela editora catalã Neu Records)!

Mares é um disco que expõe a variedade de recursos criativos e expressivos de António Chagas Rosa e que simultaneamente demonstra a maturidade interpretativa e a constante capacidade de renovação que o Drumming Grupo de Percussão mantém desde a sua formação em 1999.

A obra que empresta o título ao disco foi composta em 2009 e dedicada ao Drumming Grupo de Percussão. Para seis percussionistas Mares é um tríptico constituído por três quadros de inspiração marítima — Falésias, Cavalos Marinhos e Ilha de Moçambique — que descrevem a viagem de um golfinho desde a costa portuguesa à ilha de Moçambique. A intenção de Chagas Rosa em traduzir diferentes “impressões sonoras aquáticas através de instrumentos de percussão” foi concretizada através de opções composicionais demonstrativas da maturidade criativa deste compositor. Destaca-se o controlo primoroso das texturas e da densidade sonora, assim como a diversidade de recursos tímbricos, tudo isto devidamente enquadrado por uma cuidadosa organização formal. O resultado é um discurso musical fluido e persuasivo, que se transforma progressivamente, criando uma surpreendente sensação de revelação, de descoberta! Esta viagem sonora de quase trinta minutos é conduzida de forma notável pelo Drumming, que interpreta com forte sentido expressivo a partitura de Chagas Rosa.

Em Yemaya’s Song — para o original quarteto de duas kalimbas, piano de brinquedo e dois bongós — o compositor idealizou uma dança lenta e contemplativa que simboliza as águas primordiais associadas a Yemaya (divindade relacionada com a fertilidade e a origem da vida). A singeleza das melodias e a persistente repetição de um rudimentar acompanhamento rítmico são características que aproximam esta composição a uma improvisação. Também a espontaneidade interpretativa do Drumming sublinha natureza aparentemente naive desta peça.

O discurso musical de Deep water music, para quatro percussionistas, baseia-se em elementos retirados da canção Yellow submarine dos Beatles. Sendo praticamente indecifráveis na primeira parte da peça (destinada a quatro tímpanos) estes elementos assumem gradualmente contornos melódicos inteligíveis, sobretudo na secção central tocada pelos crótalos e por um imprevisível brinquedo musical. Com excepção desta secção a peça consiste predominantemente na exteriorização de energia sonora, objectivo que o Drumming concretiza de forma vigorosa e com rigor interpretativo.

A última composição do disco, o conjunto de quatro miniaturas para marimba preparada intitulado Four Cartoons, manifesta uma faceta diferente de Chagas Rosa, como compositor de peças breves, sobre material musical reduzido e de grande concentração expressiva. Também neste género a sua música se revela coerente e imaginativa. A interpretação, neste caso por Nuno Aroso, sublinha o “espírito de invenção e humor” solicitado pela partitura, confirmando mais uma vez as excepcionais qualidades técnicas e expressivas dos percussionistas que integram o Drumming. 

No dia 3 de Fevereiro de 2017, pelas 21h30, o Drumming Grupo de Percussão irá realizar um concerto no Teatro Municipal do Campo Alegre no Porto, precisamente intitulado Mares, no qual será apresentada parte deste disco. Trata-se de uma rara oportunidade para escutar ao vivo as peças Mares e Yemaya’s song!