Crónica

“Não tenham medo”

Em Berlim, o luto está muito presente. Mas a rejeição do medo também.

Desde há algum tempo, e especialmente desde os atentados de Paris de Novembro de 2015, que havia a noção de que uma cidade alemã poderia ser alvo de um ataque. Os mercados de Natal sempre foram um alvo mencionado. Berlim, a cidade multicultural, aberta e tolerante, também.

Vivi o ano passado em Berlim, e esta era uma sensação ora difusa, ora abordada de modo breve e prático.

Uma das coisas que me impressionaram foi quando, a seguir aos atentados de Paris, um académico especialista em terrorismo da Universidade Humboldt de Berlim falava em prime time na televisão pública e repetia que o terrorismo era agora parte normal da vida, que devia ser encarado como um fenómeno inevitável e natural, que não devia ser demasiado valorizado. Mais: que não existia segurança absoluta e quem quer que saia de casa se arrisca – um acidente de automóvel, por exemplo, que, como ele sublinhou, continua a matar mais do que o terrorismo – e que não podemos deixar-nos paralisar pelo medo ou mudar a nossa vida.

O professor defendia que se devia tratar os atentados com o máximo de indiferença, não mostrar imagens sangrentas, não marcar o evento com luto. Que se devia tratar os atentados como se tratam outros incidentes trágicos, seja uma catástrofe natural ou um acidente de viação; não dar aos terroristas a publicidade que eles querem.

Confesso que não estava à espera de um discurso tão pragmático, na altura pareceu-me frio.

No atentado de Berlim desta semana, houve reacções mistas. Houve reuniões de luto e junto à igreja semidestruída na II Guerra ao lado da praça onde houve o atentado cantaram-se músicas de Natal como Stille Nacht (Noite Feliz) e afirmou-se a unidade, rejeitando o ódio.

O luto está muito presente. Mas o lado de rejeição do medo também. A primeira página do jornal Berliner Morgenpost desta quarta-feira – quando não se sabia onde estava o atacante – mostra esta ideia na perfeição. Negra, com uma bandeira alemã projectada na porta de Brandeburgo, o símbolo da cidade, e o título principal: “Não tenham medo.”