“A música é tão fundamental como o oxigénio para a vida”

De regresso à Gulbenkian, com o programa No tenors allowed, Thomas Hampson promete reafirmar a versatilidade e os encantos da voz de barítono na companhia do igualmente talentoso Luca Pisaroni.

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Thomas Hampson regressa esta quarta-feira à noite (às 21h) à Gulbenkian Kristin Hoebermann

Depois de um concerto dedicado ao ciclo Des Knaben Wunderhorn, de Mahler, no passado mês de Setembro, o carismático barítono norte-americano Thomas Hampson regressa esta quarta-feira à noite (às 21h) à Gulbenkian para apresentar um programa de grande sucesso. Intitulado No tenors allowed, ou seja, “os tenores não são permitidos”, é uma espécie de glorificação da voz de barítono e da sua versatilidade ao mesmo tempo que põe em causa, em tom de brincadeira, a primazia que desde o século XIX os tenores foram adquirindo nos palcos operáticos como heróis e também como estrelas da vida musical. Uma primazia que é só aparente se pensarmos que ao barítono cabem também personagens tão emblemáticas e sedutoras como o Don Giovanni de Mozart, por sinal um dos grandes papéis da carreira de Hampson.

Tendo gravado em 1999 um CD com Samuel Ramey intitulado No tenors allowed dedicado a duetos para baixo e barítono, Hampson retomou nos últimos anos a mesma ideia, agora com um repertório mais diversificado em géneros e estilos e na companhia de um talentoso baixo-barítono da nova geração: o italiano Luca Pisaroni, com quem tem dividido também outros êxitos, principalmente no âmbito das óperas de Mozart. Em conjunto com o pianista austríaco Christian Koch, Thomas Hampson e Luca Pisaroni trazem à Gulbenkian um programa que promete agradar a várias sensibilidades e que inclui árias e duetos de ópera, opereta e canções do teatro musical da Broadway da autoria de compositores como Mozart, Leoncavallo, Verdi, Rossini, Bellini, Lehár, Kálmán, Bernstein e Rodgers/Hammerstein.

Com uma carreira extraordinária no campo da ópera e da canção de câmara e um número impressionante de prémios e distinções, Thomas Hampson é também uma personalidade atenta ao lugar da música na sociedade e na educação e à difusão da cultura, conforme demonstrou na conversa telefónica que teve com o PÚBLICO, a partir de Barcelona.

O programa No tenors allowed é uma forma de chamar a atenção para a voz de barítono em contraposição com a tradicional proeminência dos tenores na vida musical?

Tem sido entendido assim, mas não há nenhuma mensagem escondida, não temos nenhum problema com os nossos colegas tenores! [risos] Trata-se apenas de dar a entender ao público que o repertório para vozes graves possui imensas peças de grande interesse e qualidade, que há todo um mundo para além dos trechos que ouvimos habitualmente em programas centrados nos duetos de soprano e tenor ou em selecções de árias para as vozes mais agudas. Por outro lado, em paralelo com a ópera há um repertório marcante para vozes graves no campo da opereta e dos musicais norte-americanos, no qual os barítonos são frequentemente protagonistas.

Aos  longo dos anos fiz vários programas de duetos com diferentes colegas, incluindo um par de gravações nos anos 90, uma delas com Jerry Hadley e outra com Samuel Ramey. No primeiro caso apresentávamo-nos como ‘Tom e Jerry’, remetendo para os famosos desenhos animados, o que era muito engraçado. Com Samuel Ramey intitulámos o programa No Tenors Allowed. Também neste caso era apenas uma nota humorística.

Depois de Samuel Ramey, retomou este projecto com Luca Pisaroni, uma parceria que tem sido também muito frutuosa nas óperas de Mozart. Como surgiu esta colaboração?

Luca Pisaroni era o meu Masetto na produção do Don Giovanni de 2002 no Festival Salzburgo, dirigida pelo Nikolaus Harmoncourt. Foi um momento marcante do início da sua extraordinária carreira. Ficamos amigos e ele entretanto tornou-se parte da família, pois é meu genro [casou com Cate, filha de Thomas Hampson]. Divertimo-nos muito a fazer este tipo de concertos. O primeiro foi em Heidelberg e foi um enorme sucesso. Digamos que é uma bonita história, também ao nível familiar, mas que em palco passa sobretudo pela afinidade artística. Em Março faremos de novo o Don Giovanni juntos, agora no Teatro alla Scala, de Milão [com Pisaroni como Leporello e Hampson no papel titular] e a nossa gravação de As Bodas de Fígaro, de Mozart, na Deutsche Grammophon foi nomeada para um Grammy.

O programa No Tenor Allowed é bastante versátil. Costumam manter um alinhamento fixo ou variam o repertório conforme as ocasiões?

Mudamos sempre uma peça ou outra, principalmente na secção mais ligeira, mas os duetos são basicamente os mesmos como no caso do Don Carlo e do Macbeth de Verdi. No entanto, em Lisboa, já que é Natal, fazemos um programa mais festivo com os duetos “Eh via, buffone” do Don Giovanni e “Il rival salvar... Suoni la tromba” de I Puritani de Bellini. Haverá uma primeira parte com Mozart, depois algumas árias de Rossini, Verdi e outros compositores e na segunda parte uma dose reforçada de excertos de operetas e musicais, incluindo um medley com música de Robert Wright, George Forrest e Irving Berlin.

Neste tipo de programa fazem uma preparação especial da vertente teatral?

Conversamos sobre o que queremos fazer e depois improvisamos um pouco em palco, mas é um processo muito simples. O Luca Pisaroni conhece muito bem as suas personagens e eu as minhas, trata-se sobretudo de contarmos a história juntos.

Considera que os desafios e expectativas no âmbito da carreira de um tenor são diferentes das de um barítono?

Em geral, o público da música clássica tem expectativas muito elevadas pelo que nesse ponto os desafios são similares. No entanto, é certo que os tenores sentem uma grande responsabilidade. Há muita pressão sobre eles já que são os heróis. Só que muitas das expectativas são injustas pois têm a ver com uma série de clichés (certo tipo de emissão vocal, o famoso dó de peito...), que se foram associando ao longo do tempo a este tipo de voz e até de personalidade. Hoje há cantores maravilhosos mas corresponder a esses ideais pré-concebidos pode ser muito difícil. Talvez nesse sentido os tenores tenham a vida mais dificultada, mas o verdadeiro ponto é que para um cantor lírico as expectativas são sempre muito altas. Fazemos o que devemos e apreciamos o desafio, mas temos de estar preparados para isso.

Quais são os aspectos fundamentais dessa preparação? Nessa perspectiva, que conselhos procura transmitir aos jovens cantores que recebem a sua orientação?

Não dou aulas regulares, apenas lecciono em regime de masterclasses. Não é uma questão de dicas e truques. É uma alegria poder participar no amadurecimento artístico de um jovem cantor mas o essencial é dar-lhe bases técnicas que lhe possam servir para toda a vida. Hoje há muita pressão sobre os cantores e a atracção pela gratificação imediata é grande, não lhes deixando tempo para amadurecer. É importante proteger os colegas mais novos e aprecio muito a confiança que depositam em mim. Estive recentemente duas semanas na Academia de Heldelberg, com jovens profissionais de alto nível. Não há falta de talentos como por vezes se diz, só que a pressão para arranjar trabalho é tão elevada, que por vezes se negligenciam os elementos básicos da preparação física. Como está a voz a funcionar? Como está a ressoar? Preocupo-me mais com estas questões do que com o modo como entendem uma canção de Schubert ou uma ária de Verdi. Claro que é maravilhoso trabalhar a interpretação, mas se fisicamente alguém não é capaz de cantar o que está na sua mente isso não é bom. É esse o grande desafio.

Tem cuidados especiais com a voz?

Preocupo-me com a técnica do ponto de vista físico e com o balanço dos repertórios. Faço muito repertório de concerto e canções e tento não ir muito longe no papéis operáticos mais pesados que possam de algum modo limitar o lado mais natural da minha voz.

Cada vez que tem de repetir uma personagem há uma redescoberta ou uma continuidade?

Não se trata de reinventar um papel mas há sempre algo novo. Fiz mais de nove vezes Os Contos de Hoffmann [de Offenbach] no Covent Garden, de Londres, e cada noite havia algo diferente ainda que fosse a mesma produção. Não pode ser apenas rotina, para isso ficamos em casa. Claro que encenações diferentes podem influenciar o modo como encaramos o papel, mas a minha primeira responsabilidade é para com o compositor. Quando canto Scarpia, penso no Scarpia [da Tosca] de Puccini e não necessariamente no que alguém pensa que ele deveria ser. Também gosto muito de aprender novos papéis e sei que há duas ou três óperas a ser escritas para mim, mas não posso revelar os compositores antes da divulgação oficial.

Quais são os papéis operáticos que ainda gostaria de fazer?

Como barítono gostaria de vir a fazer o Falstaff, adoro a personagem e a ópera de Verdi é uma obra-prima. Talvez um dia tenha essa sorte!

Continua a falar-se da crise da música clássica e dos seus públicos. Como vê essa questão?

Os concertos, em especial os de música clássica, não são apenas uma distracção de alto nível, há razões para ouvir esta música e as suas histórias e para compreender as suas conexões, assim como a relação da música com as palavras. Claro que pode ser um bom entretenimento, mas ir a concertos deve obedecer a uma motivação mais profunda. Diferentes comunidades em diferentes países têm diferentes tipos de públicos. É importante conhecer o local e o perfil da assistência, ver como as nossas propostas se encaixam na programação geral. O diálogo é muito importante. É verdade que o público da música clássica está a envelhecer, por isso encorajar as jovens gerações deve ser mais forte do que nunca. É nossa responsabilidade como músicos ajudar as novos públicos a compreenderem como é simples e proveitoso terem a música clássica como parte da vida. Contamos hoje com meios tecnológicos fantásticos para pôr ao serviço da educação, mas é também muito importante dar a conhecer a música clássica em concertos ao vivo. Não é uma questão de engenharia social. Também gosto de concertos de rock e, especialmente, de jazz. Uma coisa não invalida a outra, pelo contrário é uma forma de enriquecimento. Um dos erros dos nossos dias é não ensinar ou não deixar as crianças serem ensinadas a entenderem a música como uma linguagem. Por isso me tenho envolvido em programas educativos, que permitem às pessoas aprenderem como a música funciona. A música é tão fundamental para perceber a nossa natureza como o oxigénio para a vida.