Crónica

Os bichos do mato

Os bichos do mato têm antenas que detectam a aproximação de todos os bichos menos um: o bicho do mato. É por isso que, quando se encontram, fazem uma grande festa. Gostam de se ver e de confirmar que não são os únicos bichos do mato do mundo. Gostam de falar dos horrores dos convívios forçados e das perseguições que lhes são movidas pelas criaturas gregárias, que só conseguem sobreviver em grupo, ruminando de festa em festa como uma permanente multidão em movimento.

Os bichos do mato nunca fazem mal uns aos outros. Nunca se convidam para almoçar, nunca se desafiam para fazer nada, nunca usam verbos no futuro e nunca usam expressões ameaçadoras como “um dia destes vou lá a tua casa fazer-te uma visita”.

É fácil identificá-los porque, quando os bichos do mato falam uns com os outros, pôem se sempre de pé. Nunca se sentam juntos. É proibido.

Faz parte do pacto original que assinaram quando se tornaram bichos do mato. Eles sabem muito bem que tudo o que há para dizer, de importante e carinhoso, pode ser dito em dois ou três minutos, enquanto se está em pé.

Os bichos do mato conseguem almoçar em grandes restaurantes sem se dar por eles. Os mais nobres entram pelas traseiras, sentam-se de costas para o maralhal e enfardam à vontade, com as antenas a zumbir para registar qualquer tentativa de contacto humano.

Os bichos do mato, quando têm a alegria de se encontrarem, não dizem “olá”. Dizem “bem, não vos vou chatear mais”. E riem-se. E depois vão-se embora e deixam-se em paz.