Opinião

A era do interesse negativo

Uma diferenças entre a língua portuguesa e praticamente todas as línguas da Europa ocidental é que para nós a palavra “interesse” tem um sentido quase exclusivamente deleitoso e não proveitoso. Claro que falamos de uma pessoa “interesseira” para nos referirmos a quem se rege exclusivamente pelo interesse próprio, mas para nós o uso principal da palavra interesse é como raiz do adjetivo “interessante”.

Nas outras línguas nossas vizinhas — e pelo menos em espanhol, italiano, francês e inglês — a palavra interesse serve para duas coisas: para se referir ao juro bancário e (como nós) a um estado de curiosidade atenta. Só para nós o “juro” é uma palavra separada: para os ingleses as taxas de juro são interest rates e para os franceses taux d’intérêt. O juro e o interesse são a mesma coisa. Um importante economista do pós-guerra, Albert O. Hirschman, estudou como os conceitos em torno do interesse (tanto financeiro como cognitivo) fizeram nascer o capitalismo moderno. Logo a seguir nasceu a esfera pública e o “interesse cultural”, que por sua vez geraram outro tipo de capitalismo no século XIX e no século XX — aquele que se baseia nos consumos culturais, na publicidade, no cinema e na televisão, que competem pelo nosso interesse (cognitivo) para gerarem o seu interesse (lucrativo).

Hoje, é sabido, estamos a viver uma grande mutação na nossa esfera pública, por causa das redes sociais, da internet, e da enorme disseminação de informação que elas permitem. Há algo que não corre propriamente como estávamos à espera: mais informação não gerou imediatamente um debate mais civilizado, nem mais deliberação democrática, nem mais possibilidades de em pluralismo podermos separar o certo do errado. Pelo contrário, deu-se uma massificação da opinião, uma enorme polarização social e política e, mais recentemente, uma dispersão tão grande da nossa atenção que se tornou muito mais fácil fazer passar notícias falsas pelo meio das verdadeiras.

Chamo a esta transformação a era do interesse negativo. E não terá escapado à vossa atenção a coincidência de ela se dar num momento em que as nossas economias vivem também numa fase de juros negativos. Não me sinto preparado para defender que esta coincidência entre os juros negativos na economia e o “interesse negativo” na esfera cultural seja mais do que uma coincidência. Mas é uma coincidência interessante. Tal como os juros negativos tornaram a economia mais imprevisível, há também alguns efeitos bizarros de uma comunicação em rede que nos dá a possibilidade de estarmos sempre ligados, sempre a dar opinião, sempre indignados, sempre em tensão — mas quase nunca com atenção. Um desses efeitos seria uma espécie de deflação informativa: há cada vez mais informação, mas cada vez lhe atribuímos menos valor.

Parte disto pode estar relacionado com a perda da memória coletiva em relação aos grandes atos fundadores como as guerras mundiais e as ditaduras totalitárias. Pergunto-me se o facto de haver cada vez menos gente que tenha vivido as guerras mundiais não facilita a aparente negligência com que as pessoas se aproximam hoje do boletim de voto em eleições e referendos, como se nada de mal pudesse acontecer ao repetirmos os erros do passado.

De todo o modo, só podemos ter uma certeza em relação a estas “transformações estruturais da esfera pública”, como lhes chamou um dia o filósofo Jürgen Habermas: elas têm consequências políticas, más ou boas ou depende. Uma transformação estrutural da esfera pública partiu a Europa em duas metades — católica e protestante — e levou a uma geração de guerras medonhas. Outra dessas transformações levou às revoluções em dois continentes, a Europa e a América.

Onde nos levará a era do interesse negativo? Não sei. Este não é um texto de opinião, nem de indignação. É só um texto de um tipo a pensar em coisas, sem destino marcado nem objetivo escolhido. Se calhar, até sem interesse. Talvez isso valha um pouco mais agora.