As ruínas de Satie dão um cenário belíssimo

Em ano de comemoração do aniversário de Erik Satie, Joana Gama, Luís Fernandes e Ricardo Jacinto criam um deslumbramento sonoro com vista desafogada para a obra do compositor francês.

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Para o projecto original a partir da música de Satie, Joana Gama chamou Luís Fernandes - dos Peixe:Avião - e Ricardo Jacinto

Devido à sua escassez de meios para poder custear a interpretação de Socrate, peça de Erik Satie para orquestra e voz, o coreógrafo Merce Cunningham pediu a John Cage que adaptasse a música para um formato comportável. Cage fez então uma transcrição para dois pianos do primeiro movimento da obra, material que se tornou o acompanhamento musical do solo do coreógrafo e bailarino norte-americano Idyllic Song, em 1947. Confesso apaixonado pela obra de Satie, Cage propôs-se mais tarde completar a transcrição de Socrate, desafiando Cunningham para ampliar igualmente a sua partitura coreográfica. Passados 20 anos sobre Idyllic Song, a notoriedade alcançada por ambos já não lhes permitia fintar com a mesma destreza o publisher de Satie. E Cage viu-se obrigado a trocar a transcrição por uma composição própria que mantinha a linha vocal e citava a melodia orquestral de Socrate, sobre a qual se espraiavam os gestos de Second Hand (1968), de Cunningham. A essa música, assumindo o movimento de fancaria, Cage chamou Cheap Imitation.

Joana Gama nomeia Cheap Imitation como exemplo de “toda uma história de apropriação do Satie” prévia ao projecto Harmonies, lançado esta quarta-feira. A pianista dedicou 2016 a uma série de concertos e conferências por todo o país em que visitou e reinterpretou a obra do compositor francês numa comemoração distendida dos 150 anos do seu nascimento, sob o título Uma celebração em forma de guarda-chuva. Foi levantando essa óbvia ponta do véu que Pedro Santos, programador de música do Teatro Maria Matos, instigou Joana a construir um projecto original a partir da música de Satie, deixando-a livre para escolher os seus cúmplices. Mais uma vez com a bênção de John Cage, a pianista chamou Luís Fernandes – dos Peixe:Avião, com quem mantém o duo de piano e electrónica Quest – e Ricardo Jacinto, músicos com quem se cruzara no programa de aniversário 100.Cage que o mesmo teatro lisboeta organizara para celebrar o legado do compositor.

“O John Cage está sempre connosco”, ri-se Joana, num reconhecimento de que se tornou uma figura central na sua vida criativa recente. Mas em Harmonies, que não restem dúvidas, a figura de proa é apenas Satie. Ou, talvez seja mais justo dizê-lo, o seu fantasma. Joana, Luís e Ricardo seguem pistas propositadamente vagas, descontextualizadas ou sobrepostas, tentando encontrar-se com a obra do compositor a partir de fragmentos das suas peças retrabalhados em conjunto até quase se esvaírem. Daí que não haja no disco e no concerto do trio qualquer intenção de fazer vénias diante das peças de Satie repetidas uma e outra vez com fins publicitários ou para introduzir sentimentalismo em quaisquer imagens televisivas. “A ideia era não ir de encontro àquilo que seria mais expectável; quisemos evitar os temas mais famosos, que são conhecidos pelas melodias – belíssimas e que se colam na cabeça”, reconhece Luís. “Pensámos em trabalhar sobre um conjunto de peças menos conhecidas chamado Harmonies.”

Satie é, portanto, uma (boa) desculpa. É um ponto inicial que não condiciona o caminho; é um tiro de partida com meta em lugar incerto. “Nalguns casos usamos melodias de peças, mas tão estendidas no tempo que a própria relação melódica é difícil de identificar”, descreve Joana Gama. E recuperando novamente os ensinamentos de John Cage, a pianista fala da procura “do som pelo som”, em que os compassos de uma composição podem ser samplados e levados a colidir com elementos de outra obra, desvirtuando a sua intenção melódica e tornando-os um campo minado dedicado ao confronto. Mesmo quando Joana toca notas mais agarradas às partituras, “a electrónica e o violoncelo acrescentam camadas a essa base a que chamamos as ruínas da música do Satie”. Oiça-se Piège, por exemplo, em que as notas do piano são seguidas por um rasto espectral, como se desprendessem do teclado e ficassem a planar, devedoras tanto de uma beleza transcendente quanto de um desconforto fúnebre.

Ao pensarem na forma de “colocar a obra de Satie nos nossos dias” e nas abordagens criativas naturais a cada um, Harmonies havia de ir tomando forma nesta ideia de “rasurar, destruir ou reconstruir o material”, segundo Ricardo Jacinto. E que se percebe logo na introdução, em que os holofotes se viram para a electrónica, esboçada por Luís Fernandes numa residência partilhada com Joana Gama no festival Tremor, nos Açores, quando se fecharam no hotel a “cortar acorde a acorde uma das peças que a Joana tocou lá, Ogives”. “Depois montei um sistema em que os acordes iam sendo disparados de forma aleatória, mas como eram quase sempre consonantes em termos harmónicos iam criando um trecho musical a partir do Satie”, conta Luís. Se a ideia de samplar Satie para originar novas composições é natural em quem tem estes recursos como inatos, a pianista nota que “o próprio Satie usava excertos de músicas de outros compositores nas suas peças”. “Fez isso com Chopin, por exemplo, e era mesmo descarado – inseria dois ou três compassos de outro compositor e continuava a sua música. Esta ideia de colagem também é uma referência a essa atitude descomplexada.”

Satie está nos detalhes

Se a ligação musical de Joana Gama a Luís Fernandes o tornava uma escolha óbvia para o desenvolvimento de Harmonies, Ricardo Jacinto apareceu à pianista como alguém ideal para a construção de um disco e espectáculo a partir de Satie devido a “esta vida dupla que ele tem de músico e de artista plástico”, justifica. Quando Ricardo fala de um procedimento em que se propunham “fazer uma espécie de respigar em torno da obra de Satie”, refere-se igualmente à adopção desse tipo de lógica à obra do compositor para além da música. “Houve um processo de descoberta”, recorda o violoncelista, “em que fomos criando relações com os textos dele, alguns desenhos e com a própria caligrafia. E acabou por ser central o cenário do bailado Relâche, do Picadia, e para o qual o Satie compôs a música. Tudo isso foram pequenos apontamentos que fomos samplando e colando. A cenografia do espectáculo deu continuidade a este trabalho.”

Quer isto dizer que no palco de Harmonies (depois da apresentação em Lisboa o concerto passará por Coimbra, Porto e Braga, em Janeiro e Fevereiro) o cenário incluirá um conjunto de reflectores em fundo a que Ricardo chama “um quarto instrumento”.

Aquilo que acontece em Harmonies, e de onde resulta uma música tão obsessiva e bela quanto esquiva e intrigante, é uma construção musical a três em que Satie se descobre como por detrás de uma cortina de fumo ou de uma chuva intensa, como um vulto sempre presente e para o qual a atenção é por vezes desviada, mas suficientemente desfocado para que nunca ocupe o centro da acção. Mesmo quando Ricardo Jacinto assume no contrabaixo o baixo completo de Vexations ou Joana Gama segue à risca as notas imaginadas pelo compositor, a música nunca se fecha num único ponto de interesse e as atmosferas são cenários sonoros armadilhados previamente com uma obra alheia, mas em que seguem sempre os seus próprios instintos e se negam a adoptar um livro de estilo cuja autoria não lhes pertence ou a tentar habitar uma outra cabeça.

“O Satie gostava da microescala e da microestrutura”, compara Joana Gama. “Nunca foi essa a nossa ideia. Quisemos pegar no material harmónico e em determinadas secções ou características e mudá-las.” Tanto assim que, à excepção de Piège – “em que há um toquezinho de viragem de século à la Satie”, concede a pianista –, quase se diria que Harmonies existe em permanente negação do seu rastilho inicial. Não porque haja uma intenção de nos enganar quanto à origem do projecto, mas porque os temas se inscrevem num outro território, menos ancorado em linhas melódicas persistentes do que entregue a paisagens desprendidas, às quais uma pequena melodia pode fugazmente colar-se mas logo sai de órbita e desaparece na imensidão do espaço. A isto, Ricardo Jacinto chama “uma certa informalidade na presença de Satie”.

Tal como o diabo, também Satie está nos detalhes – que em Harmonies são um deslumbramento constante.