Torne-se perito Entrevista

Bora para onde, Norberto? Não sei, vamos

Parte foi gravada em residência no gnration, em Braga. Outra foi sendo gravada, aqui e ali, conforme o tempo e a inspiração. O resultado é o misterioso Muxama, novo álbum do indispensável Norberto Lobo.

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O fingerpicker de excepção, o viajante pelo espírito de Paredes e pelas novas formas de Fahey, referências dos primeiros tempos, mergulhou em algo mais essencial: como se não fosse agora necessário mais mundo que aquele que descobre em si mesmo

Muxama tem como capa uma fotografia de António Júlio Duarte, o mesmo fotógrafo que dera rosto a Fornalha, o volume anterior da discografia a solo de Norberto Lobo. Nele, um homem apresentava à câmara a grande envergadura de asas de um morcego gigante. Agora, o mesmo preto-e-branco mostra uma misteriosa estátua negra de formas humanas, erguida num cenário semelhante – ambiente natural, vegetação frondosa. Logo ali, sugere-se uma continuidade que a música confirma.

Norberto Lobo, o guitarrista da sensibilidade ímpar e da imaginação generosa que descobrimos em 2007, com Mudar de Bina, move-se de forma subtil. Álbum após álbum, foi alargando e deslocando o seu universo musical até chegarmos ao momento, em Fornalha, em que o som extraído directamente das seis cordas da guitarra se tornou tão importante quanto a manipulação dos seus ecos. A familiaridade é inevitável – já o conhecemos há muito e a marca autoral está lá -, mas adensa-se o mistério. O fingerpicker de excepção, o viajante pelo espírito de Paredes e pelas novas formas de Fahey, referências dos primeiros tempos, mergulhou em algo mais essencial: como se não fosse agora necessário mais mundo que aquele que descobre em si mesmo para criar a música que cria.

Chegado de Ílhavo, onde cumprira mais uma data da digressão de apresentação de Muxama (esta sexta toca no Hostel 1878, em Faro; dia 7 no Teatro de Vila Real; dia 8 no Auditório do Conservatório de Música de Bragança; dia 9 no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto; e dia 10 no Salão Brazil, em Coimbra), encontrámo-lo numa tarde outonal no Jardim da Estrela, em Lisboa. “Acho que houve necessidade de procurar algo mais, mas não temos todos essa necessidade, de certa forma?”, dirá com a conversa já a meio.

A palavra Muxama, reunida à fotografia da capa, sugere florestas húmidas e frondosas, cenários exóticos a olhos europeus. Mas muxama é, na verdade, um prato algarvio feito com atum seco, que o Norberto conhece bem através do seu pai. O que a palavra nos sugere e o que significa na realidade acabam por ser uma boa representação desta música. O desejo de algo familiar, íntimo, e, ao mesmo tempo, a procura do desconhecido, de algo novo.
Não sei o que veio primeiro, se o título, se a capa, mas acho bonita essa relação que fez. Não tenho a certeza de ter pensado nela dessa forma, mas há uma coisa em que sei que pensei, que Muxama é uma palavra misteriosa, e que esse mistério se perde um bocado quando se descobre do que se trata. Porque, antes, pode ser uma civilização antiga, pode ser um planeta ou uma nave de outra galáxia.

Onde foi gravado e que impulso desencadeou a música que ouvimos em Muxama?
Não foi gravado num só sítio, e acho que isso influenciou muito o disco. E também não foi gravado num período mais condensado, como normalmente faço. Estendeu-se por algumas semanas largas, se não meses. Gravava umas músicas num sítio, outras noutro. Foi mais uma questão de ir gravando o processo, uma espécie de residência alargada que foi sendo registada. Usei espaços muito diferentes. Acabei o álbum numa residência no gnration [em Braga], após um convite muito amável deles. Antes disso, fui gravando em modo mais caseiro com o Cristiano [Nunes, produtor, técnico de som da Galeria Zé dos Bois]. “Temos dois dias. Bora”. “Bora para onde?”. “Não sei, vamos”. E lá arranjávamos um sítio, uma casa de um amigo. Fomos gravando conforme o tempo e a inspiração nos permitia.

Desta vez, a música estava preparada de antemão ou, como habitualmente, foi o momento da gravação que definiu o rumo que ela seguiria?
Eu vou gravando sempre que tenho oportunidade, mas acontece-me às vezes as malhas morrerem porque eu me farto delas antes de as gravar. Gosto de gravar quando a música está mesmo fresca, mesmo que tecnicamente não seja perfeita e mesmo que, na maior parte das vezes, toque aqueles temas muito melhor passado algum tempo. Mas, na verdade, nunca chego a esse sítio em que a malha está definitivamente feita. Isso nunca acontece. E há músicas que não gravo, mas que toco ao vivo. Toco-as e continuo a tocar, mesmo que não as tenha gravado, o que talvez queira dizer que ainda não estão prontas. Às vezes faço temas a partir de ideias que tive quando era adolescente. O tempo tem a sua maneira de reciclar e as ideias não se perdem. Mesmo que fique só o espírito original, que só fiquem dois segundos música. Há temas que acabam por voltar e te levam a dizer que, se calhar, há mesmo ali qualquer coisa.

Essas memórias que ressurgem são puramente musicais, ou são também um reencontro com outros tempos e lugares, um diálogo com o Norberto de anos passados?
Por um lado são, na medida em que, se ouvir Neil Young, me lembro imediatamente dos meus dezanove anos. A música é como o cheiro, remete-nos incontrolavelmente e inesperadamente para um lugar. Mas estas ideias não são de há um ano ou de há um mês, acompanham-me durante muitos anos e misturam-se umas com as outras, como se fossem uma canção cortada aos bocadinhos. Um bluesman famoso dizia que teve uma ideia apenas e que a cortava em bocadinhos pequeninos. Ou seja, que só tocou uma canção a vida toda. Às vezes tenho essa sensação. Toco só um tema a vida toda, mas vou cortando-o aos bocadinhos.

Parte daquilo que é Muxama está relacionada com um novo instrumento. Ou melhor, com uma guitarra nova. Que guitarra é essa e que tem ela de especial?
Estava à procura de uma guitarra deste género, não propriamente aquela guitarra, já há uns anos. Finalmente encontrei-a, de uma forma muito prosaica, numa loja online. Tinha procurado em tantos países e afinal estava aqui, nos arredores de Lisboa. Foi só isso. Tinha a ideia de um som específico e achava que aquela guitarra me ia ajudar. Foi uma questão de pegar nela e foi uma questão de gostar de tocar nela. Queria um som diferente, mais ‘sustain’. Queria tocar mais devagarinho. Queria um som acústico e eléctrico ao mesmo tempo. É uma Guild Archtop. Nada de mais.

Quando da edição de Fornalha disse-nos estar mais interessado no som em si mesmo que no instrumento que utiliza para o atingir. Utiliza a guitarra, manipula-a com diversos pedais, mas as ferramentas utilizadas são menos importantes que o som que extrai dela.
Também toco outros instrumentos além da guitarra. Para Oba Loba [título do segundo álbum editado com a banda fundada com o baterista João Lobo] componho muito no piano. Dito isto, não sou pianista, de todo. Nem sei bem se sou guitarrista. Segundo algumas academias certamente não serei, mas a guitarra é super determinante para a música que eu faço. É o instrumento que eu toco e a minha música acaba por ser música “guitarrística”. Tenho amigos com quem toco, ou que tocam as minhas composições, que me dizem “essa composição é mesmo guitarrística”. Não sei bem o que eles querem dizer, mas imagino.

Ricardo Rocha, grande nome da guitarra portuguesa, diz que se sente frustrado por não ter tido oportunidade de aprender piano desde muito novo. Ficou “preso” à guitarra, diz, e agora é tarde demais para o piano, lamenta. Alguma vez sentiu uma frustração semelhante?
Alguém dizia que uma guitarra nas mãos certas é uma orquestra. Nas mãos desse senhor é certamente uma orquestra, uma orquestra absoluta. Adoro instrumentos de sopro. Adoro trompete, adoro clarinete. Já toquei sax, mas só na brincadeira. Só toco free, mas até saco som com mais facilidade do sax que do trompete. O trompete fascina-me. Aquelas pessoas com um tom muito bom… É mesmo lindo. Mas eu pareço uma vaca a morrer (risos). Adorava ter aprendido a tocá-los desde puto. Mas eu adorava saber tantas coisas. Toda a gente tem as suas frustrações, toda a gente gostava de ter aprendido mais.

Escrevemos que, a partir de Fornalha, a sua música iniciou uma nova fase, com os bordões e as manchas sonoras a rodearem o som da guitarra. Vê-o realmente dessa forma, como uma nova fase no seu percurso a solo?
Acho que houve necessidade de procurar algo mais, mas não temos todos essa necessidade, de certa forma? Não acho que tenha mudado tanto quanto isso. De qualquer forma, é um processo muito gradual, sem mudanças abruptas.

Evitar repetir-se é uma preocupação constante? Muitos músicos manifestam esse receio. Dizem que, se criarem algo que lhes sugira algo que já fizeram, põem-no logo de lado.
O que é a repetição? Há coisas que quero aprofundar e isso implica repetição do método. Não o vejo como uma coisa má. E também não vejo necessidade de mudar radicalmente, de fazer um disco de electropop a seguir a este. Comigo, é mais do tipo “está aqui qualquer coisa que eu quero registar”. Mas também há o facto de, quando dou concertos, gostar de ir renovando as coisas. É como falava o Louis CK. Fez o mesmo stand up durante 15 anos seguidos, depois fartou-se e começou a fazer um novo todos os anos. Obrigava-se a isso, o que acho muito fixe. Não nega o bom que fez antes e torna-se mais desafiante.

A guitarra não é apenas a ferramenta do seu ofício, é uma presença constante na sua vida, nos momentos de trabalho, nos de lazer, nos dias serenos e nos dias turbulentos. Uma relação que pende para a obsessão, não isenta de angústia, ou algo sempre necessário, algo que o completa?
O que é que na vida não é fonte de angústia ocasional? Na guitarra, lidamos por vezes com limitações técnicas.Não podemos tocar porque temos uma tendinite, por exemplo. Há dias em que posso tocar e não me apetece, mas há mil e uma razões para dar valor aos momentos em que o posso fazer. Quando estou a tocar sinto-me feliz e grato por poder fazê-lo. Porque há dias em que não posso, porque haverá dias em que não vou poder. É como qualquer outra relação. Nada na vida é um mar de rosas, não é?

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