Opinião

Uma Europa nova num mundo novo

E não é preciso ultrapassar o Atlântico e ficarmos estupefactos com a vitória de Trump. Tivemos à nossa porta, na Itália há bem pouco tempo, o exemplo de Berlusconi.

Li de fio a pavio o corajoso e completo artigo de Jorge Sampaio, que nos habituou desde sempre a ser um exemplo de cidadania. Pertenci às comissões de apoio das suas candidaturas e revejo-me normalmente nas suas intervenções. Não, todavia, em uma, que confessei ao seu biógrafo José Pedro Castanheira: a sua ida a Fátima, como Presidente da República, por altura da visita de João Paulo II e da beatificação de Francisco e Jacinta. Não pelo carácter discutível dessa beatificação e de Fátima — a Igreja jamais ousaria discutir as muitas dúvidas que as “aparições”, agora apresentadas também como “visões”, supõem —, mas porque Sampaio quebrou assim a separação que o Estado deve ter em relação aos negócios da Igreja, que me parece fundamental como elemento da Respublica, e que só beneficia ambas as partes.

Se falamos de crise da Democracia — como o fez Sampaio a propósito da eleição de Trump — não poderemos esquecer também que o Brasil deu ultimamente provas dessa crise. Deu-nos, em 17 de Abril, o espectáculo mais prolongadamente vergonhoso que se pode imaginar, ao procurar suspender, da forma como o fez, em espectáculo realizado na própria Câmara dos Deputados, as funções da Presidente Dilma (independentemente  das questões judiciais que lhe podem estar subjacentes). Mais do que isso, ainda durante o seu mandato, certamente por pressão das igrejas evangélicas, em 12 de Janeiro deste ano instituiu, por votação do Congresso Nacional e decreto da Presidente da República, o dia 31 de Outubro como “Dia Nacional da Proclamação do Evangelho”. Deste modo, não nos custa a compreender que se tenha votado para Prefeito do Rio de Janeiro uma figura cimeira e pouco confiável da IURD. Os tempos estão para quebrar as regras do jogo republicano e espero que 2017 não se apresente como o ano em que se anuncia  a cristianização da política e do Estado, a conversão dos intelectuais e o castigo de Deus pelos males do mundo.

Portanto, não é só na América do Norte que topamos com a crise da democracia. Na América do Sul de língua portuguesa também. E não é preciso ultrapassar o Atlântico e ficarmos estupefactos com a vitória de Trump. Tivemos à nossa porta, na Itália há bem pouco tempo, o exemplo de Berlusconi. E algumas figuras portuguesas deram também um triste espectáculo na política nacional e internacional, como Durão Barroso.

O “sistema” mantém-se: o dinheiro tudo move e, com base nele, forma-se uma “sociedade do Espectáculo”, matando a cultura como interpretação crítica da realidade. Há dias uma dita especialista dizia que era preciso desenvolver a cultura e a educação pois sem ela não haveria desenvolvimento económico. Afinal foi um discurso desse tipo que fez nascer a União Europeia, que teve como pecado original a Comunidade Económica Europeia. Esta “Europa” não nasceu  com base na formação de uma cultura europeia, feita de unidade e de diversidade. Nasceu tendo como mira o desenvolvimento e o poder ou os poderes, que naturalmente se digladiam. Daí o “Brexit”, que é o epílogo de um Reino Unido — sempre na Europa e fora dela — que considerou preferível sair, como afirmação da nacionalidade, mas também por uma questão de poder, apesar do domínio da língua inglesa e de apoiar a política americana na lógica neoliberal, que o fez inclusivamente pensar num “socialismo moderno”, com base nas doutrinas pragmáticas de Tony Blair e do seu conselheiro Giddens. E também foi ela que ajudou os aliados americanos a hastear o pavilhão  de pólvora do Iraque, até com uma ajudinha do Portugal de Barroso, que com eles se reuniu nas Lajes.

Redes sociais discutem tudo numa doutrina de “liberdade” de dizer tudo o que se quer. Vieram juntar-se à televisão da inutilidade e a uma cultura do livro que mais parece por vezes uma lixeira de papel. Deste modo, é fácil acreditar que um cowboy (afinal um empresário do ramo imobiliário e do reality show) como é Trump possa ganhar eleições, com apoios de nacionalistas xenófobos, mas também de pobre gente que vagueia na pobreza e na miséria moral. Procurava-se furar o “sistema dos políticos”, caindo afinal no “sistema dos novos oportunistas”, que poderão arrastar consigo torrentes de  várias direitas, algumas até que dizem ser contra as ideologias.

É verdade, Meu Caro Presidente Sampaio: é necessário recriar uma Europa nova (não utilizei a expressão “nova Europa” porque ela me recorda uma ideia fascista), mas ela tem de surgir num Mundo novo, em qualquer dos continentes. Só assim se poderão criar elos de solidariedade e de ecumenismo, com a ideia de que somos cidadãos de um país, mas também cidadãos do mundo. Acordámos há dias saudando a tristeza — Bon jour tristesse — neste tempo em que se sente um cheiro a Mussolini. Espero que em breve possamos acordar cantando com Beethoven um verdadeiro hino à Alegria.