Sissi pede investimento português no canal do Suez

Falou-se de direitos humanos. Era inevitável. Trata-se do Egipto. Mas o segundo dia da visita do Presidente Sissi a Portugal foi para tratar de negócios.

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A visita de al Sissi a Portugal terminou esta terça-feira Enric Vives-Rubio

Com o turismo em desespero e a cair em visitas, receitas e glamour, o Presidente do Egipto tentou na sua visita a Portugal convencer empresários portugueses a investirem no país, em particular nos grandes projectos de infra-estruturas associadas ao novo canal do Suez e às cidades-satélites do Cairo.

Nos últimos cinco anos, as receitas turísticas caíram 50%, mas a instabilidade política que existe no Egipto desde a queda do ex-Presidente Hosni Mubarak, em 2011, não foi o tema do pequeno-almoço entre a delegação egípcia e um grupo de empresários portugueses no Hotel Ritz, em Lisboa, na manhã desta terça-feira, no qual esteve, pelo Governo português, o secretário de Estado da Internacionalização, Jorge Costa Oliveira.

O Presidente Abdul Fattah al-Sissi, que chegou ao poder de uma forma ainda hoje contestada, investiu grande parte do seu capital político na construção em tempo recorde – um ano – do segundo canal do Suez, paralelo ao de 1869, permitindo duplicar os navios nesta passagem estratégica que une a Europa à Ásia. Há muitas obras a fazer na zona franca do Suez e milhões de receitas são necessários para abater o investimento inicial de oito mil milhões de dólares.

O Egipto tem interesse em diversificar os contactos na Europa (há 25 anos que um chefe de Estado egípcio não vinha a Portugal) e sabe que, depois de altos e baixos, as relações comerciais dão sinais de recuperação. Há hoje 334 empresas portuguesas a exportar para o Egipto (100 milhões de euros), depois de uma queda em 2011 e 2013. Portugal é hoje o 52º fornecedor do Egipto e o Egipto o nosso 39º cliente. “Há portas para abrir”, disse um diplomata que acompanhou a visita de Sissi. “Há muitas empresas que nunca pensaram sequer no Egipto.” Em cima da mesa estão hipóteses de novos negócios na área dos serviços tecnológicos para a defesa e segurança.

A vertente económica da visita presidencial será agora continuada através de ações de promoção organizadas pela AICEP com a embaixada de Portugal no Cairo e a embaixada do Egito em Lisboa, disse uma fonte da secretaria de Estado da Internacionalização.

Como em todas as visitas a capitais europeias, nos encontros políticos de Lisboa, Sissi ouviu críticas à violação de direitos humanos no seu país. “Falar de direitos humanos não é uma coisa lateral. É importante nós dizermos que não se podem fazer as coisas a qualquer preço”, sublinha um diplomata veterano. “Houve libertações em massa próximas das suas visitas à Europa”, lembra. “E o ex-Presidente Morsi acaba ter ver anulada uma sentença de morte.” De entre os 300 prisioneiros libertados há dois meses, no entanto, continuam a não estar prisioneiros políticos.

No Ministério dos Negócios Estrangeiros e no Palácio de Belém há a percepção, mesmo assim, de que os países árabes “ouvem melhor Portugal” do que outros europeus. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa disse que Portugal “comunica de uma maneira muito própria com os países árabes” e a diplomacia tem uma explicação: “Estamos quites: nós estivemos lá, eles estiveram cá. Temos uma relação de igual para igual”.