Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Reportagem

Não é um disparate, o cão vai mesmo ao terapeuta

Rita Jacobetty já perdeu a conta ao número de vezes que ouviu a frase: “Que disparate, agora o cão vai ao psicólogo?” É consultora animal e tenta modificar comportamentos: sem castigos, sem certos ou errados, sem berros. Chica — uma cadela de dois anos com mais energia do que o normal — e a família que a adoptou são clientes.

O elevador pára no sexto andar e Diana Correia Santos já está a tentar segurar Chica, com a cauda imparável e uma felicidade incrível por receber duas novas pessoas em casa. Quando solta a coleira, para dar as boas vindas a Rita Jacobetty, já a cadela de dois anos corre pelo patamar do prédio, num êxtase que envolve saltos, patas na barriga e lambidelas nas mãos e nos braços. Não ladra, parece feliz, meiga. “Isto é o Carnaval da Chica”, diz a carioca de 31 anos que decidiu recorrer ao acompanhamento especializado de uma consultora de comportamento animal. Rita Jacobetty, lisboeta de 32 anos, especializou-se em saúde mental e emocional dos animais de companhia, em particular cães e gatos, tantas vezes na origem de comportamentos indesejados pelos donos.

O cliente é a Chica e a família: Diana e o marido Diogo, o bebé Francisco e Rocky, o “pug” de língua de fora que vai roncando pelo apartamento, alheio aos saltos da cadela. Perceberam que a Chica tinha problemas de comportamento pouco depois de a terem adoptado, no Cantinho da Milú, em Setúbal. “Sempre foi excessivamente excitada e tinha atitudes de desespero quando saíamos de casa que não eram normais”, conta a gestora de marca de uma revista. Tentaram dois treinadores de cães, mas os planos demasiado complexos limitaram o sucesso. “A nossa vida mudou por causa dela; os nossos amigos deixaram de vir cá a casa”, desabafa Diogo, 34 anos e professor de Educação Física e ténis. Acreditam que à terceira seja de vez, apesar deste ser “um caso dramático, num nível mais vermelho”, como identifica a consultora.

“Que disparate, agora o cão vai ao psicólogo?” Rita já perdeu a conta ao número de vezes que ouviu esta frase. “Mesmo as pessoas que gostam imenso de animais têm esse cepticismo”, confessa, em entrevista ao P3. Habituou-se a explicar o que é isto de tentar modificar o comportamento do cão ou do gato no seio da família à qual pertencem. Sem castigos, sem certos ou errados, sem ordens berradas, sem jornais enrolados — e muito menos palmadas. “Enquanto filosofia de trabalho e como posição ética, trata-se de compreender o comportamento natural dos animais e saber criar condições para que tenham atitudes e estados emocionais saudáveis.”

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Diogo e Diana, com o filho Francisco e os cães Rocky e Chica Miguel Manso

Sentada no sofá preto da sala de Diana e Diogo, em Lisboa, Rita dá atenção a Chica enquanto vai tirando notas. Entre garrafas de plástico vazias, bolas e brinquedos barrados com manteiga de amendoim, a rafeira de porte médio entretém-se apenas por alguns minutos sem pedir atenção. Pula para o sofá — que já chegou a rasgar de uma ponta à outra — e ensaia pendurar-se às cavalitas de Rita. Sempre a abanar a cauda e a receber festinhas de Diana, que desabafa: “O mais frustrante é quando tentamos tudo e não vemos resultados, mas devolvê-la [ao abrigo de Setúbal onde foi adoptada] não é opção”.

Não há informação irrelevante sobre o animal

É quando o desespero se instala que entra o trabalho de consultoria, numa primeira fase sob a forma de um questionário detalhado de 19 páginas enviado aos donos. Não há informação irrelevante para ser discutida na primeira consulta: o número de vezes que o animal vai à rua, como dorme, o que come e quantas vezes, o que prefere, como se comporta quando acompanhado e sozinho, se aprende facilmente ou mostra sinais de agressividade. O pacote de modificação comportamental desenvolvido por Rita Jacobetty para ser aplicado a cães ou gatos inclui duas sessões e tem um custo de 140 euros. As sessões extra, se necessárias, acrescem 30 euros por hora, mais 10 de despesas de deslocação.

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“O primeiro programa que chegou à televisão sobre o comportamento dos cães teve bastante impacto”, admite Rita. Fala de “O Encantador de Cães”, de Cesar Millan, emitido em Portugal pela SIC Mulher. Os métodos do comportamentalista de origem mexicana “não são bem vistos pela comunidade científica”, crê, mas as pessoas “aperceberam-se das necessidades dos animais”. Casos como o da Chica, com implicações no quotidiano dos donos, são comuns nos programas que Cesar Millan apresenta, mas nos canais por cabo já começam a surgir outras opções. Rita destaca “Pound Pups to Dog Stars” (SIC Mulher), onde o “reforço positivo e a adopção” são muito falados. “O facto de termos mais contraditório torna o meio mais saudável.”

Nos últimos anos e antes de se despedir, em Junho último, da empresa onde trabalhava, Rita foi coleccionando formações em treino e comportamento animal, sobretudo no estrangeiro. Tem uma certificação pela International Association of Animal Behavior Consultants (IAABC) e frequenta uma pós-graduação em Intervenção na Doença Comportamental em Animais de Companhia no Instituto Português de Psicologia, em parceria com o Centro para o Conhecimento Animal, lado a lado com médicos veterinários especializados em comportamento. São estes quem podem, por exemplo, “prescrever medicação para doenças comportamentais e tratar outras doenças que às vezes se tocam, como a epilepsia”. “À partida, um treinador tem competências para ensinar comportamentos, como obediência básica”, descreve. “Um consultor de comportamental terá conhecimentos mais profundos sobre como ele funciona e que lhe permita entender todos os aspectos da vida do animal: a dieta, as rotinas, o lado emocional.” Mas ideal, defende, é que todos os profissionais trabalhem em conjunto, mantendo “o canal de comunicação aberto”.

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Consultas são para todos e não apenas para o animal

Na sala de estar de Diogo e Diana — onde também se encontra a mãe desta, Teresa —, discute-se a composição das várias rações que Chica tem vindo a comer nos seus dois anos de vida, bem como o local preciso onde faz as necessidades ou as dores que uma lesão antiga numa pata pode provocar. Os passeios e a duração dos mesmos, as zonas favoritas da casa, os padrões de sono, o que os donos acham que faz quando é deixada sozinha a (e aqui uma câmara de vídeo deixada a gravar durante o dia pode ser fundamental). Não é a cadela que vai ao psicólogo, é toda a família que precisa de saber que a frustração é entendida e não desvalorizada.

Apesar de também ter alguma formação em novos animais de companhia, os exóticos, Rita tem-se especializado no comportamento de cães e de gatos, os mais comuns nos lares portugueses (cães, 46%; gatos, 34%). Segundo um estudo recente da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor — DECO, manter um cão custa 1007 euros por ano, valor que baixa para os 865 quando se trata de um gato. “A consciencialização face aos animais de companhia veio para ficar e espero que cresça.” Esta tendência reflecte-se na indústria dedicada aos animais que partilham a casa connosco e na antropomorfização, isto é, no acto de “interpretar os comportamentos dos cães ou dos gatos como se fossem pessoas”. A consultora exemplifica: “Quando um cão boceja não é porque tem sono mas sim porque está em ‘stress’”.

Além das consultas ao domicílio, a jovem lisboeta é procurada por empresas que, de alguma forma, têm actividades relacionadas com animais (hotéis, lojas, clínicas veterinárias) e também por associações e abrigos. O trabalho — em regime de voluntariado — nestes últimos passa pela modificação comportamental dos animais e, por vezes, pelo “aconselhamento à adopção”. “É um serviço que começa a ser procurado por particulares, que previnem a aquisição ou adopção de um animal”, refere. Esse programa estruturado de orientação e aconselhamento na hora de levar um cão ou um gato para casa tem um custo de 70 euros. “Um cão adulto é sempre um melhor cenário porque podemos conhecer a sua personalidade (…). O cachorrinho é uma incógnita, por muito que o queiramos moldar.”

A segunda consulta de Chica, ainda por agendar, vai ser “a mais complicada”. Rita quer mudar algumas das rotinas da cadela, desde a alimentação aos passeios e às brincadeiras. “O mais difícil neste caso é o facto de já terem existido outras tentativas frustradas de resolução do problema”, reconhece. A solução pode passar por um plano personalizado e confortável para Diana e Diogo, com prioridades bem definidas: “A abordagem é sempre a de explicar ao animal o que queremos que ele faça, através do treino e das condições ideais”. O objectivo é que esta família possa deixar para trás o “Carnaval da Chica”.