A história da vida em Portugal contada pelos seus velhos cafés

A Rota dos Cafés portugueses com História passou a livro e serve como roteiro que ajuda conhecer a evolução destes espaços.

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Café Santa Cruz, Coimbra Diogo Baptista
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O Majestic, no Porto MANUEL ROBERTO
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Nicola, Lisboa Joao Silva

Não é um mero guia turístico que indica os cafés a visitar em cada paragem. É um livro que ajuda a ilustrar o desenvolvimento social, cultural e mesmo tecnológico do país ao longo do século passado, desde o tempo em que as mulheres não podiam lá entrar ao primeiro café com frigorífico do Alentejo.

Lançada em 2014, a Rota dos Cafés com História materializa-se agora num livro que reúne breves textos sobre cada um dos 23 cafés da lista, espalhados de norte a sul do país.

Ao falar destes espaços históricos, torna-se também incontornável mencionar nomes como Nicola ou Martinho da Arcada, em Lisboa, ou Majestic, Guarany, Aviz e Piolho, no Porto. Era também essa ideia de escassez que Vítor Marques, gerente do café Santa Cruz, de Coimbra, e impulsionador do projecto, queria combater. “Sempre que se falava em cafés históricos, estávamos sempre a falar dos mesmos, achei aquilo sempre muito repetitivo”, conta ao PÚBLICO.

Assim, começou a trabalhar numa rota que reunisse os cafés históricos portugueses. Em Outubro de 2012 fez o primeiro contacto e em Abril de 2014, depois de se ter feito à estrada para conhecer e seleccionar quais os cafés que integrariam a lista, a rota foi apresentada no Café Santa Cruz. Depois dessa data, identificou mais 16 (desta vez já com integrantes de Açores e Madeira), mas que acabaram por ficar de fora do livro por limitação de meios.

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O objectivo da rota passa por realçar o papel dos cafés na vida social e económica de cada cidade, mas também apontar para a importância das vivências e mostrar porque devem incluir a lista dos locais a visitar.

Em síntese, “promover a ida aos cafés quando se vai a uma cidade”, algo que Vítor Marques considera que já acontece de certa forma, mas que assim se torna mais fácil. “Se houver um produto que nos informe que há o Alentejano que merece ser visitado em Portalegre, ou a Cadeia Quinhentista em Estremoz, ficamos despertos”, refere.

Ao visitar uma local, não interessa só ir aos monumentos. Vítor Marques procura também “as vivências e as histórias dos espaços”, que muitas vezes “são contadas por esses cafés, pelo dia-a-dia das pessoas nas localidades. Se bebem o café em pé, se jogam raspadinha, como é que elas falam”. Por outro lado, não esconde que o propósito também é autopromocional.

Entre cafés e pastelarias, na lista cabem várias definições e os critérios não são rígidos nem demasiado objectivos. “São critérios muito pessoais”, admite Vítor Marques. Dentro de uma certa antiguidade “não devam estar demasiado descaracterizados face ao que eram” e isso “é fácil de se ver”. Dá para notar pelas montras, se tem pouca ou muita publicidade ou pela mobília, enumera.

Há também na lista estabelecimentos que não são só café e outros que não abriram as portas há assim tanto tempo. O Tecto de Mercúrio, em Guimarães, e a Cadeia Quinhentista, em Estremoz, têm menos de dez anos e nunca aqueles espaços tinham servido como café. Os dois são casos de reabilitação de edifícios antigos, “muito bem recuperados”, considera Vítor Marques.

“Por isso comparo-os com aquilo que foi o Majestic, que foi o Santa Cruz, que foram todos os cafés no início da década 1920”, que nasceram de edifícios recuperados e que tinham antes servido para outras actividades comerciais, diz o impulsionador.

Espaços de cultura

No seu livro de memórias, O Mundo de Ontem, o escritor austríaco Stefan Zweig chamava-lhes uma “espécie de clube democrático, acessível a qualquer pelo módico preço de uma chávena de café”. Vítor Marques citou-o juntamente com George Steiner no texto da pagela dos CTT, mas em Portugal nem sempre foi assim. Só a partir de meados do século XX as mulheres, por exemplo, começaram a frequentar estes espaços, exclusivos em muitas localidades de uma elite masculina (ver caixa).

Essa é uma das indicações que os cafés dão para compor o retrato do século português anterior. Outra é o património cultural. A arte, a política e a literatura portuguesa passaram por eles. As marcas da literatura serão talvez as mais visíveis, com Fernando Pessoa na Brasileira do Chiado a constituir-se como o caso mais célebre.

Mas de norte a sul do país há mais poetas de metal sentados à mesa dos cafés. António Aleixo continua à mesa da esplanada do Calcinha, em Loulé, e Teixeira de Pascoes ocupa o seu lugar entre portas no Café São Gonçalo, em Amarante. No livro da rota dos cafés históricos há outros nomes que saltam à vista, como Virgílio Ferreira, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco ou José Régio.

O livro, editado pela Caleidoscópio e assinado por Nuno F. Santos, estará também disponível em língua inglesa, sendo que já foi apresentado em Coimbra, Loulé e Porto. Os CTT também pegaram na ideia e já lançaram uma colecção de seis selos, à qual se seguirá um outro livro com base na lista de 23 agora editada.  

Exemplos fora das grandes cidades

Café São Gonçalo, Amarante

O Café São Gonçalo abriu as portas na década de 1930. Rodrigo Silva, que gere o negócio situado na Praça da República, em Amarante, recebeu-o das mãos do pai, que o comprou ainda antes da revolução, em 1969. Ponto de encontro pela sua localização central, antes de o café chegar à família era frequentado por Teixeira de Pascoaes, que hoje tem uma estátua que lhe rende homenagem no interior do café.

Estátua essa que, refere o dono, consegue ser motivo exclusivo de ida ao São Gonçalo. Por isso, e para oferecer mais informação sobre o poeta, há uma pequena de colecção trabalhos do autor, traduzidos em 6 línguas, para que quem por ali passe possa apreciar. Esta é parte da estratégia para aproveitar a ida de visitantes a Amarante. “Tudo o que é operador turístico que passa em Amarante e vem visitar o Mosteiro de São Gonçalo passa também a ir ao café”, explica.

O espaço, cujas características se mantêm fiéis ao original, já foi mais exíguo. Desde a aquisição pelo pai de Rodrigo Silva o café ganhou área, tendo crescido até preencher o rés-do-chão do edifício que ocupa.

Mas Teixeira de Pascoaes, que frequentava o café com o pintor António Carneiro, não foi o único poeta português passar por ali. “Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas, quando vinham para Amarante e ficavam na casa de Pascoes, vinham para o café”, conta Rodrigo Silva, que recordo também que quando o Cruzeiro Seixas estava na Fundação Cupertino Miranda, em Famalicão, ia até ali às quartas-feiras para almoçar com ele. 

Café Paraíso, Tomar

Alexandra Vasconcelos é a quarta geração da família à frente do já centenário Café Paraíso. Inaugurado em 1911, sofreu a última remodelação de fundo no ano que seguiu o fim da Segunda Guerra Mundial. Foi em 1946, conta a dona do estabelecimento instalado na rua Serpa Pinto, no centro histórico de Tomar.

Nessa altura vieram cadeiras estilo Bauhaus da Alemanha, as portas deixaram de ter formato ogival e passou a ter uma montra para deixar entrar luz. Vieram também espelhos de Veneza e as colunas, que até então eram trabalhadas em ferro, foram feitas por um italiano, a imitar mármore. Dessa intervenção resultou o aspecto que ainda hoje tem.  

Em 1992 pegou no café, mas antes cresceu com ele. Já ajudava nas épocas de maior bulício, como a Festa dos Tabuleiros. “Quando era miúda adorava isto”, recorda. Aliás, a história mais marcante que conta remonta à década de 1980. “Havia um senhor que se sentava sempre na mesma mesa, escrevia, escrevia, escrevia, sempre a fumar cachimbo e a escrever”, lembra. “Há um dia em que chega aqui um amigo meu e diz: 'Tens aqui uma celebridade. Aquele senhor ali é o Umberto Eco.'” O escritor italiano passou por Tomar quando estava a trabalhar na obra o Pêndulo de Foucault. “Eu fiquei para morrer, porque sou uma despistada, nem o tinha identificado”, graceja.

Tendo atravessado o século XX, o Café Paraíso é igualmente um reflexo da evolução dos costumes. Alexandra Vasconcelos lembra uma época em que "o café era mais elitista” e não entrava ali “qualquer pessoa”. Até perto da década de 1950 não entravam mesmo mulheres. Só quando começou a construção da Barragem de Castelo de Bode é que os costumes começaram progredir.

O início desse processo deu-se quando as mulheres dos engenheiros que trabalhavam na obra da barragem, cuja construção arrancou em 1945, começaram a frequentar o café. 

Café Arcada, Évora

Aquele espaço já deu para quase tudo. Se a primeira vida do Café Arcada teve início em 1942, por ali já passou uma sucursal de um banco, uma sede de campanha de Mário Soares e até lojas dos 300, conta Jorge Santos, que actualmente gere o negócio, juntamente com o irmão.

Quando pegaram no café, na viragem do milénio, estava “decadente a todos os níveis”, tinha tido altos e baixos e tinha tido alturas em que chegou a estar encerrado. Foram então tentar perceber as origens e o que se tinha ali passado para manter a “não só a filosofia mas também a estética”. Hoje Jorge Santos fala de “um café antigo com toques modernos”.

Sobre as origens do café pode falar António Carmona Oliveira, filho de um dos sócios fundadores do café. Hoje com 80 anos, tinha 6 quando o pai se lançou no empreendimento na Praça do Giraldo, “que naquela altura era o centro da cidade”. “Hoje tem mais turistas”, atira. Morava mesmo em frente ao edifício onde abriu o Café Arcada e lembra-se de andar por cima dos andaimes quando ia com o pai ver as obras.

Recorda que, na altura, a mãe era “das únicas senhoras que ia ao café”, algo que só depois se começou a generalizar. A música ajudou. O Arcada tinha banda aos domingos, mas os dias mais movimentados eram a terças-feiras, quando se realizava a feiral semanal de Évora. Diz que vinha então gente do Alto e do Baixo Alentejo para negociar. “Às 14h não conseguia entrar nem sair do café a não ser a muito custo”, lembra, apontando também para o carácter ”um bocadinho elitista” do estabelecimento.

Um café que, ao ser o primeiro do Alentejo a ter frigorífico, “foi de certeza o primeiro que se pode chamar café moderno” da região.

Virgílio Ferreira reserva-lhe um espaço na sua obra mais célebre, Aparição, mas António Carmona Oliveira não tem memória de que o escritor tenha sido um cliente assíduo. “Era professor de liceu no meu tempo. Poucos professores frequentavam o café, não era habitual”, explica.