Iraque libertou o que resta da cidade milenar de Nimrud

Antiga povoação da Assíria era um dos tesouros arqueológicos da humanidade, antes de ser arrasada pelo Daesh.

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AFP

O Exército iraquiano tomou conta de Nimrud, cidade que foi um dos centros da Assíria e que terá sido arrasada pelo Daesh, em 2015.

Segundo a Reuters, as forças governamentais iraquianas divulgaram neste domingo um comunicado em que afirmam terem ocupado Nimrud, situada a cerca de 30km de Mosul, depois de dois anos de domínio e destruição levados a cabo pelos militantes do Daesh.

"Tropas da Nona Divisão Armada libertaram Nimrud e içaram a bandeira do Iraque", lê-se no comunicado, citado pela mesma agência. Os soldados reconquistaram ainda a povoação de Numaniya, outrora a capital de um império que se estendeu desde o Egipto até zonas que hoje integram o Irão e a Turquia.

O Governo iraquiano afirma que Nimrud foi atacada em 2015 por bulldozers ao serviço do Daesh, que decidiu destruir a cidade, com 3000 anos. Há um ano, os jihadistas avançaram sobre este sítio arqueológico nas margens do Rio Tigre, a Sul de Mossul – a segunda maior cidade do país e o verdadeiro objectivo da accção militar iraquiana –, arrasando várias estruturas.

A grande ofensiva para a reconquista de Mossul, iniciada há quatro semanas com mais de 100 mil tropas (do Exército e forças de segurança iraquianas, peshmerga curdos e milícias xiitas), quebrou as defesas dos radiciais do Daesh na região Leste da cidade, que dá acesso a uma dúzia de bairros – o primeiro deles, o subúrbio de Habda, já dentro dos limites de Mossul, já está a ser palco de combates. No entanto, como avisaram os líderes militares, o progresso da operação será lento, uma vez que estas são localidades populosas, e os jihadistas usam os habitantes como escudos humanos. "A nossa abordagem tem de ser muito cautelosa, para podermos chegar às famílias que estão reféns do Daesh", explicou à Reuters um porta-voz das forças governamentais.

Com a tomada de Nimrud, as tropas iraquianas esperam poder aproximar-se de Mossul pelo Sul: essa é a frente que permitirá recuperar o controlo do aeroporto da cidade e avançar até à margem esquerda do Rio Tigre. A Norte, a cidade também está cercada, mas segundo a mesma fonte militar, os combatentes do Daesh montaram uma operação de defesa que susteve a ofensiva: carros armadilhados e engenhos artesanais distribuídos pelas estradas, atiradores furtivos e fogo de morteiro.

Nimrud, assim chamada em homenagem ao rei Nimrod, caçador lendário que a Bíblia refere, é um dos principais pólos da antiga Mesopotâmia, tida como um dos berços da civilização, formando com as cidades reais de Nínive e Hatra um triângulo patrimonial de referência. Foi fundada por volta de 1250 a.C. e, quatro séculos mais tarde, tornou-se a capital do império assírio, o mais poderoso do seu tempo, com um território que abarca o que é hoje o Egipto, a Turquia e o Irão.

Os motivos que os extremistas evocam para a destruição em Mossul e na velha Nimrud são os mesmos: as estátuas dos acadianos – povos, como os assírios e babilónicos, que falavam acádio, língua da Mesopotâmia que usava a escrita cuneiforme e é uma das mais antigas do mundo – são vistas como blasfemas, já que são o reflexo de que, no passado, esta região adorou “ídolos”, desrespeitando o Profeta.

A destruição de Nimrud, foi descrita como mais um passo na “limpeza cultural” que os jihadistas do Daesh iniciaram assim que começaram a conquistar território, primeiro na Síria, depois no Iraque. Para além do objectivo financeiro – o tráfico de antiguidades seria uma das mais importantes fontes de lucro para os jihadistas – e da necessidade de continuar a chocar o mundo, por trás destes ataques estava a vontade de apagar a memória pré-islâmica que pertence à história colectiva da humanidade mas também faz parte do que é ser iraquiano ou sírio.

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