Entrevista

“Continuo a perguntar-me se a reforma faz bem à saúde”

"Não basta acrescentar anos à vida. É preciso que esses anos sejam vividos bem", enfatiza Maria João Valente Rosa, que dirige a Pordata, base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos. A demógrafa e professora universitária defende que deveria ser possível continuar a trabalhar após a reforma

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Enric Vives-Rubio

Os portugueses vivem cada vez mais anos, mas a esperança de vida saudável não está a acompanhar esta evolução na mesma proporção. Por que é que isto está a acontecer?
Portugal fez esta trajectória, em termos de saúde, de forma muito rápida. Chegamos ao nível dos países mais avançados [na esperança de vida]. Agora, estamos a entrar numa segunda fase e estes dados [quebra da esperança de vida saudável] são um sinal de que estamos longe do que é desejável. Temos praticamente a mesma esperança de vida que países como a Suécia e a Bélgica. Só que na Suécia praticamente todos os anos de vida [após os 65] são vividos com qualidade. Viver aqui ou na Suécia faz toda a diferença para os idosos. Em Portugal, há uma clivagem muito grande entre quantidade e qualidade.

As mulheres portuguesas têm menos anos de vida saudável do que os homens, mesmo vivendo mais tempo. Porquê?
As mulheres portuguesas vivem mais tempo com falta de qualidade. Não basta acrescentar anos à vida. É preciso que esses anos sejam vividos bem. Em Portugal, ao contrário de outros países, faz toda a diferença ser-se homem ou mulher. É toda uma trajectória de vida que justifica este resultado.

Pensa que a criação de um grupo de trabalho que vai definir uma estratégia para um envelhecimento activo e saudável pode ajudar a alterar este cenário?
É importante, mas é preciso perceber como se consegue alterar a situação. Não se mudam os hábitos e a forma de viver por decreto. E não podemos centrar-nos apenas nos problemas específicos desta idade. O contexto em que se vive é importante. Temos que perceber que variáveis de contexto vamos ter que alterar. É claro que é preciso que as pessoas se habituem a comer comida saudável, a fazer exercício físico, mas não chega. A saúde não é uma área circunscrita a um sector.

É preocupante constatar que uma parte substancial dos anos de reforma não vão ser vividos com qualidade...
Continuo a perguntar-me se a reforma faz bem à saúde. O Estado fica satisfeito, mas na realidade, com a saída dos mais velhos, não estamos a libertar postos de trabalho. E as pessoas que se reformam são postas à margem, nunca mais entram no mercado de trabalho.

Qual é a solução?
Não há soluções milagrosas. Mas temos que começar a repensar o modo como organizamos a nossa vida, eventualmente pensar em trabalhar mais anos mas menos horas. O trabalho ou a reforma a tempo parcial deveriam ser possíveis. O que não podemos é desperdiçar o capital humano. Quando as pessoas se reformam, há uma série de laços que se quebram e de relações que desaparecem. Nos primeiros dois anos [após a reforma], as pessoas andam radiantes. E depois? Muitas ficam a olhar pelos filhos e pelos netos, não têm um projecto de vida próprio e a saúde também é um reflexo disso.