Da salvação política à queda vertiginosa, sempre com a CGD no meio

Um imbróglio que começou a desenrolar-se há precisamente dez anos, num contexto de expansão e quando ninguém ligava aos avisos de que a caminho já estava uma crise de grandes proporções.

Em 2006, Zapatero queria salvar-se da La Seda e Sócrates defendia um perfil ibérico para as empresas nacionais
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Em 2006, Zapatero queria salvar-se da La Seda e Sócrates defendia um perfil ibérico para as empresas nacionais Adriano Miranda

Foi em 2006 que os governos de José Sócrates e de José Luis Rodríguez Zapatero se entenderam. Mas se Zapatero queria salvar-se de um problema chamado La Seda, que amontoava dívidas, em Portugal, Sócrates (à semelhança de Durão Barroso) e o seu ministro da Economia, Manuel Pinho, defendiam para as empresas portuguesas um perfil ibérico – o que contribuiu, aliás, para a CGD inscrever nos últimos cinco anos perdas de mais de 500 milhões e créditos de risco de 1500 milhões na sua operação em Espanha.

E, assim, quando a Selenis (do grupo Matos Gil) foi vender a ideia de que o Estado português deveria ajudar ao relançamento industrial da La Seda Barcelona, onde o grupo Matos Gil tinha 24%, Manuel Pinho mostrou-se disponível. Com refinarias em Itália, Grécia, Reino Unido e Barcelona, a La Seda planeava uma nova unidade para produzir a matéria-prima (polipropileno) usada no fabrico de PET, a base das embalagens de plástico para alimentação. A Selenis, sentada na gestão da La Seda, alega que os espanhóis fazem depender a escolha de Sines do apoio da CGD.  

Na sequência, com o argumento de que o investimento é estruturante, pois vai revitalizar Sines e aumentar a cadeia de valor da Galp, que fabrica o polipropileno (PTA), foi enviada à Caixa ordem para financiar e investir no grupo La Seda e garantir a construção da fábrica da Artlant no litoral alentejano.

Em Agosto de 2006, Carlos Santos Ferreira surpreende ao anunciar que a CGD comprou 4% da petroquímica La Seda Barcelona. O investimento de 25 milhões visa sustentar a expansão internacional da empresa, onde, pouco depois, volta a investir mais 1%.  

Dois meses mais tarde, o Deutsche Bank aparece a organizar um empréstimo de 405 milhões à La Seda destinado ao refinanciamento total da sua dívida e a apoiar a compra de activos em Portugal (a Selenis Plimeros), em Itália e na Grécia. A Caixa entra no sindicato com 40 milhões.

No ano seguinte, em Julho de 2007, a La Seda avança com novo aumento de capital para comprar a Amcor à Eastman Chemical (por 440 milhões), com o banco português a ajudar por várias vias: os capitais de risco da CGD investem 48,9 milhões o que faz subir a participação na La Seda para 7,5%; e financia em 115 milhões a Selenis, que dá em garantia acções representativas de 10,9% do grupo catalão. 

Em Setembro do mesmo ano, no contexto da aquisição da Amcor, o financiamento bancário liderado pelo banco alemão sobe de 405 milhões para 605 milhões. A Caixa passa a ser credora da La Seda em 90 milhões, ao mesmo tempo que celebra com a Selenis um acordo parassocial. A Selenis indica para a vice-presidência da petroquímica Fernando Freire de Sousa, casado com actual vice-governadora do Banco de Portugal Elisa Ferreira, e que foi nomeado por António Costa para presidir à Comissão da Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte.

Com a crise financeira a desencadear-se, em 2007, as sucursais da Caixa em Espanha e o Caixa BI converteram em capital financiamentos concedidos à La Seda no valor de 22 milhões (4%). E no contexto de uma operação de diluição do capital, a presença do banco desce para 10%, mas volta a subir para 14,8% após a reestruturação da dívida da empresa, numa operação montada pelo Deutsche Bank. 

Entretanto, em 2009, o cenário internacional deteriora-se e já se fala em resgates à Grécia, à Irlanda, a Espanha e a Portugal, onde as más notícias se sucedem. O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, defende que “o sistema tem de reduzir dívida e aumentar os capitais, mas também desacelerar na concessão do crédito”. Nada evita que a Caixa apareça como o grande (e único) financiador da Artlant, que vai ter em Sines a segunda maior unidade do sector a nível europeu, com uma capacidade de produção instalada de 700 mil toneladas por ano. 

O projecto beneficia ainda de um pacote de incentivos dado pelo Estado português, que o declara investimento de Potencial Interesse Nacional (PIN), estatuto atribuído pela Agência Portuguesa para o Investimento – fundada em 2005 por Sócrates e Pinho. E os dois consideram-no mesmo um dos principais empreendimentos industriais construídos em Portugal, com o investimento estimado a ser superior a 400 milhões de euros. 

Em Agosto de 2010, surgem os primeiros sinais de alerta. Perante a entrada em incumprimento da Selenis, a CGD executa os créditos garantidos com capital (10,9%) da La Seda e passa a deter 18,1%. Daí a semanas, a petroquímica catalã volta a reforçar os capitais em 300 milhões, metade em dinheiro.  

É neste período que Carlos Moreira da Silva, da Barbosa Almeida (BA), é convidado para ser o parceiro industrial da Caixa na La Seda, que tinha finalizado um processo de reestruturação. A proposta cabe na lógica industrial da BA, pois está em causa um substituto do vidro (poliéster termoplástico), que permite a salvaguarda do negócio principal. E foi deste modo que Moreira da Silva foi indicado para gerir a empresa espanhola, depois de subscrever acções mediante um financiamento da Caixa de 50 milhões de euros.    

Ainda no Verão de 2010, a petroquímica, que continuava com 100% da Artlant, abre 40% do capital desta empresa a novos accionistas: a Caixa Capital assume 20%, o fundo estatal português InovCapital 11% e o Fundo de Recuperação ECS 29% das acções. O ECS, um fundo de private equity, foi fundado e tinha como accionista um ex-presidente executivo do banco público e antigo governador do Banco de Portugal, António de Sousa. O objectivo já era salvar a construção da unidade de Sines.

Em 2012, quando a produção arranca, a Artlant já devia à Caixa 476,4 milhões e as dificuldades em liquidar as responsabilidades eram evidentes. O quadro degrada-se ainda mais a partir de 2013, quando o PTA, cuja tonelada se negociava até aí entre 150 e 220 dólares, cai para 75 dólares. E tudo colapsa.  

Em Janeiro de 2014, com um endividamento igual ao total dos seus investimentos, a Artlant fica debaixo de um PER a pedido dos credores. Estão em causa 150 postos de trabalho directos e 200 indirectos. Já a La Seda, onde a BA possuía 41,11% e a CGD 14%, entra no mesmo ano em liquidação. E a Selenis já se declarara insolvente em 2010. Só a BA resiste. Ainda não incumpriu perante a Caixa e continua a desenvolver a sua actividade central (o vidro), independente da La Seda.