Crítica

Cass McCombs engana-nos outra vez

Cass McCombs fê-lo outra vez. Mangy Love é um álbum extraordinário. Será apresentado no Misty Fest, em Lisboa, esta quinta-feira, 3 de Novembro.

Música arrebatadora na sua complexidade e nas suas camadas de leitura
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Música arrebatadora na sua complexidade e nas suas camadas de leitura

Não acontecera antes e não aconteceu agora. Cass McCombs, certamente um dos mais surpreendentes e inspirados cantautores do nosso tempo, sempre foi um músico de fronteiras. Um viajante que atravessou a última década e meia a inventar atalhos para seguir sempre em frente – nessa aparente contradição está um dos seus feitos, de resto. Já flirtou com uma ideia (muito dele) de indie-rock britânico (grande disco era PREfection), já foi surrealista do psicadelismo (apresente-se o Lionkiller de Dropping the Writ), já pegou no chapéu de Hank Williams para cantar canções de amor de um Velho Oeste reinventado (chegou Dreams come true girl, em 2009, e a canção partilhada com Karen Black tinha densidade de standard logo à primeira audição). Cass McCombs foi mais, foi o autor desse trágico e tocante Wits End (2011), farrapos de soul entre fantasmas e alucinações, entre doçura e uma profunda tristeza, e foi o cantor que nos ofereceu o duplo Big Wheel and Others, onde tudo o que fizera até ali se misturava para nos devolver um olhar novo.

Cass McCombs foi muita coisa enquanto, álbum após álbum, firmava uma marca autoral reconhecível sem hipótese de erro – a voz que se afunda num quase sussurro, os versos que nos surpreendem pelas associações inesperadas, onde convivem o humor e o tétrico, a cultura popular e erudita, e o classicismo das linguagens musicais a que deita mão apenas para as subverter à sua vontade. Mangy Love é um álbum tão doce quanto perturbante, é um álbum político sem cair no panfleto, é um álbum nascido na fria Escócia enquanto McCombs se alimentava de doses diárias de música sul-americana e caribenha de décadas passados – e este cenário, pelo contraste entre o lugar real habitado e o lugar simbólico que o inspirou, não podia ser mais adequado a Cass McCombs.

A delicadeza da guitarra e da voz, no início com Bum bum bum, não nos diz tudo. São aqui cantados os Estados Unidos de mortes na rua, de manifestantes erguendo cartazes, do consumo desregrado que formata e corrói e da indústria de morte que mata sem remorso. São cantados com uma doçura atravessada por uma ferida que não permite serenidade: “Blood in the streets, our eternal river / I know the killer / He counts my silver / Bum, bum, bum”. Na hora seguinte, ouvir-se-á o boogie do rock sulista e McCombs enquanto pregador de humor sinistro, a caminho do Lousiana (“Think I’ll go to Louisianna just to hang myself”). Ouvir-se-á um filtro yatch-rock, ou seja, tudo brilho lúdico em funk midtempo, com órgão Clavinet a colorir o andamento da canção. Ouviremos flautas e metais soprados com sábia discrição enquanto um xamã debita o seu spoken word (Laughter is the best medicine) e teremos Angel Olsen a juntar-se-lhe no refrão de Opposite house, quando a guitarra cai em cascata sobre o refrão. Teremos uns versos de abertura que valem uma canção inteira: “Help me / Help to remember to forget / To forget what hasn’t happened yet”“if it’s so easy, you try it”, dirá em tom acusador em Medusa’s hothouse (é uma música, esclareça-se, sobre os actores que fazem a indústria do cinema pornográfico). E teremos uma canção que não precisaria de versos para ser uma delícia de dança feita nada mais que elegância. Run sister run, canta McCombs, rodeado de percussões e, sim, ele ouviu mesmo canções sul-americanas e caribenhas de décadas passadas enquanto compunha Mangy Love, mas este nunca poderia ser o álbum latino de Cass McCombs. Não é assim que o cantor de County line funciona.

Cass Mccombs é, num certo sentido, um conservador. Tudo absorve e tudo aproveita, mas quando junta a banda atrás de si, quando se aproxima do microfone para soltar os versos que escreveu, esse tudo que aproveitou é uma coisa apenas. Música arrebatadora na sua complexidade e nas suas camadas de leitura, música que encontra forma de nos esmagar mesmo quando, à superfície, parece ambicionar não mais que tornar mais leve o correr dos dias. Cass McCombs fê-lo outra vez. Mangy Love é um álbum extraordinário. Será apresentado no Misty Fest, em Lisboa, esta quinta-feira, 3 de Novembro (depois de já o ter apresentado no último Nos Primavera, Sound e antes de regressar, dia 1 de Fevereiro para um concerto no Centro de Artes de Ovar).