Histórico veleiro Santa Maria Manuela pertence agora ao dono do Pingo Doce

Mítico veleiro da frota portuguesa da pesca do bacalhau foi recuperado em 2010 pela Pascoal & Filhos. Agora, deixa Aveiro e ruma a Lisboa, onde se junta ao Oceanário como mais uma atracção marítima da Sociedade Francisco Manuel dos Santos.

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O Santa Maria Manuela foi construído em 1937 e reabilitado em 2010 ADRIANO MIRANDA / PUBLICO
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O Santa Maria Manuela foi construído em 1937 e reabilitado em 2010 ADRIANO MIRANDA / PUBLICO
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O Santa Maria Manuela foi construído em 1937 e reabilitado em 2010 ADRIANO MIRANDA / PUBLICO
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O Santa Maria Manuela foi construído em 1937 e reabilitado em 2010 Luis Oliveira Santos

Uma empresa do universo Jerónimo Martins fechou negócio com a Pascoal & Filhos para a aquisição de um dos mais conhecidos navios da frota portuguesa da pesca do Bacalhau, o Santa Maria Manuela, veleiro reabilitado em 2010 para navio de treino e serviço turístico. Os contornos da transação não são conhecidos, mas a sua concretização mantém em mãos portuguesas uma peça importante do património náutico nacional e das campanhas de pesca ao bacalhau que, durante o Estado Novo, mobilizaram mais de 20 mil portugueses.

O antigo lugre SMM completa, como o irmão gémeo  Creoula, 80 anos em Maio de 2017. Os dois foram construídos lado a lado, em apenas 62 dias, nos estaleiros da CUF em Lisboa, e as margens do Tejo deverão voltar a acolher, assim, este navio que, entre 1937 e 1992 fez parte do esforço de pesca longínqua do país, primeiro na frota da pesca à linha com botes individuais, os dóris, e, mais tarde, a partir da década de 70, adaptado à pesca com redes, após uma intervenção que lhe retirou dois dos quatro mastros e lhe acrescentou uma ponte de comando.

Assim desfigurado face ao desenho original do arquitecto naval inglês Alexander Slater, o SMM manteve-se em operação até 1992, ano em que uma moratória acabou com a pesca nos Grandes Bancos da Terra Nova, que foram, durante décadas, os seus mares. Salvo de um desmantelamento certo em 1993 por uma fundação constituída com esse fim, o futuro deste navio que em 1966 foi palco (e personagem) de um documentário da National Film Board do Canadá, The White Ship, ficou contudo em águas de bacalhau. Mas o interesse da comunidade de Ílhavo, e da empresa Pascoal e Filhos, seu novo dono, acabou por ditar a reabilitação deste veleiro de 62 metros, entre 2007 e 2010.

Filho e neto de capitães da pesca do bacalhau, Aníbal Paião, administrador da Pascoal & Filhos, conseguiu evitar a morte de um navio que estava na história da família. E em Maio de 2010, de novo com quatro mastros, recuperado o seu imenso velame e o SMM fez a sua viagem inaugural no Porto de Aveiro, rumo ao cais dos bacalhoeiros. Pintado de branco, como toda a frota portuguesa que durante a II Guerra teimou em ir para a Terra Nova, ganhando, desde então o cognome Frota Branca.

Preparado para receber a bordo 50 pessoas, em condições bem mais confortáveis do que os mais de 60 tripulantes que costumava levar nas longas campanhas à pesca do bacalhau, o seu novo destino seria o treino no mar e as viagens turísticas. Participou em regatas de Tall Ships, para se dar a conhecer, chegou a fazer a mítica viagem até ao porto de São João da Terra Nova, que durante décadas fora a segunda casa da frota portuguesa no Canadá, mas os resultados parecem estar aquém do esperado. O site do SMM não é actualizado desde o ano passado e não chegou a ser divulgado um programa para 2016.

Aníbal Paião escusou-se-se a prestar declarações. O gabinete de imprensa da Jerónimo Martins nada esclareceu também, remetendo para esta quinta-feira eventuais informações sobre um negócio que o PÚBLICO confirmou por outras fontes. O navio está neste momento atracado em Aveiro, no Cais dos Bacalhoeiros, mas é de esperar que, em breve, rume a Lisboa, para aquele que deverá ser o seu novo porto de acolhimento. A Sociedade Francisco Manuel dos Santos, principal accionista da Jerónimo Martins ganhou, no ano passado, a concessão do Oceanário que ganhará, desta forma, mais um ponto de atracção. 

Em Aveiro, à espera de melhores dias, está um outro sobrevivente da Frota Branca. Em 2009, a administração da Pascoal decidiu salvar o Argus, um terceiro navio da série Creoula construído, com algumas alterações face ao projecto inicial, num estaleiro holandês, em 1939 . Depois de décadas na pesca do bacalhau, o Argus esteve cerca de 30 anos a servir como navio de cruzeiros nas Caraíbas, com o nome Polynesia II. voltou em 2009 a território nacional, aguardando-se, desde então, que estejam reunidas as condições financeiras para a sua requalificação.

Este cenário poderá começar, agora, a ganhar forma.  A venda do SMM deve dar à Pascoal algum fôlego para levar a bom porto a recuperação da escuna reconhecida a nível internacional por força do livro A Campanha do Argus, escrito pelo australiano Alan Villiers, que acompanhou, em 1950, uma viagem deste veleiro aos bancos. Com Maria José Santana.