Crítica

Sara Serpa e André Matos: todos os sonhos do mundo

No seu novo disco, Sara Serpa (voz) e André Matos (guitarra) alimentam um diálogo poético.

Sara Serpa e André Matos saíram de Portugal e conseguiram afirmar-se na cena nova-iorquina
Foto
Sara Serpa e André Matos saíram de Portugal e conseguiram afirmar-se na cena nova-iorquina

O título é mesmo “roubado” a Fernando Pessoa. Ou melhor, a Álvaro de Campos. A certa altura a voz de Sara Serpa vai ondulando uma melodia original com aqueles versos tão conhecidos: “Não sou nada. Nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Sonhos que, no caso de Sara Serpa e André Matos, residentes em Nova Iorque há já alguns anos, têm mesmo vindo a ser concretizados.

Sara Serpa e André Matos saíram de Portugal e conseguiram afirmar-se rapidamente na cena nova-iorquina, actuando e colaborando com nomes grandes como Greg Osby ou Danilo Perez. Começaram por estabelecer percursos sólidos em nome próprio, afirmando-se individualmente – Matos como notável guitarrista, Sara Serpa unanimemente reconhecida como uma das cantoras mais inovadoras do mundo do jazz. Vinham colaborando desde 2005 e as suas carreiras ficaram oficialmente entrelaçadas com a edição de Primavera (Inner Circle Music, 2014), a primeira gravação oficial do duo.

Neste All the Dreams, segundo registo da dupla, apresentam uma música despida, minimal, com apenas voz e guitarra (e pontuais pinceladas instrumentais de sintetizador e percussão). Ao longo dos 14 temas originais, a guitarra de Matos surge quase atmosférica, criando uma base suave. Sobre esse ambiente da guitarra, a voz de Serpa desliza com tranquilidade. A cantora começa por vocalizar sem palavras, naquele registo tão próprio que a levou a distinguir-se da concorrência. Voz seguríssima, tecnicamente irrepreensível, sedutora e fascinante.

Se a voz de Sara Serpa se destaca, pela qualidade, amplitude e versatilidade de recursos, é também obrigatório realçar o trabalho de André Matos. A guitarra assume aqui um papel mais secundário, com um som claro e muito controlado, sempre presente sem se fazer notar em demasia, preenchendo todos os espaços de forma inteligente, sem ofuscar a voz, complementando-a. Por momentos voz e guitarra quase se sobrepõem em uníssonos, outras vezes andam mais afastados, procurando o inevitável encontro, num permanente jogo de sedução sonora. Com elegância e subtileza, Serpa e Matos desenvolvem um refinado diálogo harmónico. Uma parceria que não é apenas uma soma de talentos, é uma perfeita união musical. Podem ter todos os sonhos do mundo – para já vão conseguindo realizar alguns.