Os jornalistas profissionais "não devem ceder ao imediatismo"

O fotojornalista britânico Phil Moore é um dos participantes do Sintra Press Photo (a partir de 22 de Outubro), que este ano abordará o tema "Flagelo Humano".

<i>Nightwalkers</i>
Nightwalkers Phil Moore
<i>Nightwalkers</i>
Nightwalkers Phil Moore
<i>Nightwalkers</i>
Nightwalkers Phil Moore
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Nightwalkers Phil Moore
<i>Nightwalkers</i>
Nightwalkers Phil Moore
Fotogaleria

Antes de abraçar definitivamente o fotojornalismo, Phil Moore foi investigador da Universidade de Sheffield, onde se licenciou em Artificial Intelligence, e trabalhou como webdesigner em Paris. Desde 2011, o continente africano tornou-se o seu principal campo de trabalho, onde registou guerras, instabilidade social e crises humanitárias na região dos Grandes Lagos. Esteve nas guerras da Síria e da Líbia, tem acompanhado a crise de refugiados na Europa e o trabalho infantil na Bolívia. A identidade online e os legados nucleares são temas em que está a trabalhar actualmente.

A afirmação de que o fotojornalismo está a atravessar uma crise de relevância tem sido repetida nos últimos anos vezes sem conta. Qual é a sua opinião? Partilha este discurso?

Não acredito que o fotojornalismo, em si mesmo, esteja a atravessar uma crise de relevância. Em geral, a maior parte dos media noticiosos está a lutar para se adaptar a novas formas de distribuição e, mais importante, a procurar receitas para pagar o jornalismo, incluindo o fotojornalismo. Há algum tempo, o aparecimento do “jornalismo do cidadão” foi considerado uma ameaça aos jornalistas e fotógrafos, mas nos últimos anos, o que temos visto é a força e a qualidade de fotorreportagens que demonstram a importância e o significado do trabalho dos profissionais. De igual modo, enquanto toda a gente tem uma maneira qualquer de publicar os seus pensamentos nas redes sociais – para dizerem e para nos mostrarem o que se está a passar nas suas vidas –, compete ao jornalismo dar sentido à realidade, colocando-a em contexto, explicando a sua relevância e as suas nuances às audiências. É fácil para qualquer pessoa tirar uma “boa fotografia” com câmaras baratas ou smartphones, mas a importância do fotojornalismo tem a ver com o story-telling. Não se trata apenas de mostrar, mas explicar o mundo, explicar o que está a acontecer.

Nós, como imprensa, quando documentamos acontecimentos pelo mundo inteiro temos de sublinhar o nosso profissionalismo e a confiança que os leitores depositam em nós por causa dele. Nunca foi tão fácil espalhar uma mensagem propagandística e, ao mesmo tempo, ter o seu contraponto, vozes que se opõe a ela mostrando, ao mesmo tempo, mentiras e verdades inconvenientes. É nosso dever recuperar relatos firmes e descomprometidos sobre o estado do mundo, as sociedades e os indivíduos que nele habitam.

O problema do financiamento do jornalismo continua a ser relevante. As agências pagam o mesmo agora que pagavam no início dos anos 90 (é o que os meus colegas mais velhos me dizem!), os orçamentos para viagens estão a secar, etc… Mas, ao mesmo tempo, o nosso acesso a vários mercados abriu-se muito e podemos publicar de maneiras muito variadas do que alguma vez foi possível fazer. As bolsas têm desempenhado também um papel importante em termos de fontes de financiamento alternativas e são muito importantes em reportagens que demoram muito tempo a realizar. No entanto, temos de ser cuidadosos a identificar eventuais conflitos de interesse que possam surgir nestas fontes de financiamento.

A urgência constante em que os media estão mergulhados (quase não há tempo para pensar) coloca grandes desafios a uma profissão que vive da confiança e do conhecimento dos sujeitos fotografados. Qual é a maior dificuldade do seu trabalho hoje?
Sempre houve pressão nos media para encontrar “caxas”, temas exclusivos, ser o primeiro a chegar a uma história. Com o avanço da tecnologia - dos telegramas aos telefones com envio de email através de wireless - a pressão do tempo tornou-se ainda mais forte. Hoje, é virtualmente impossível ser o primeiro a dar notícias de última hora, a não ser que estejamos a tuitar uma coisa a acontecer à nossa frente, sem que consigamos entendê-la verdadeiramente. Acho que como jornalistas profissionais temos a responsabilidade de não ceder ao imediatismo e ao querer ser três segundos mais rápidos do que a concorrência escrevendo o que estamos a ver em 140 caracteres. Pelo contrário, devemos lembrar-nos da importância da compreensão e da contextualização dos acontecimentos e tentar passar isto de alguma de alguma maneira.

O trabalho de um fotógrafo vai muito para além de carregar num botão para registar uma coisa. Para se tirar uma fotografia é preciso estar no sítio certo, à hora certa e com as pessoas certas e a sua confiança. Isto requer muito trabalho de preparação e investigação. E há inúmeras histórias por este mundo fora que podem ser trabalhadas a um ritmo mais lento, ganhando acesso e conhecimento sobre a vida das pessoas que vão aparecer nas nossas histórias. Eu acho que a indústria reconhece quando este acesso e este conhecimento é conseguido, e mostra essas imagens.

Com tanta gente a fotografar tanta coisa, penso que o maior desafio de um fotógrafo é trazer alguma coisa de diferente daquilo que toda a gente está a fazer. Isto pode querer dizer ir mais fundo do que toda a gente, oferecer um ponto de vista diferente ou procurar uma aproximação estética alternativa.

A série Nightwalkers nasceu desse desafio: eu tinha mais imagens “convencionais” de linhas de refugiados a andar por estradas poeirentas, mas estas imagens que foram saindo nos jornais ao longo das últimas décadas são o estereótipo desta realidade. Quero tentar mostrar estas deslocações de maneira diferente.

As imagens de Nightwalkers dão a sensação de fuga permanente, de perseguição constante. Parece que não há paz possível neste lugar. A República Democrática do Congo é um lugar condenado à instabilidade e à guerra? Conte-nos um pouco da experiência de trabalhar num país em sobressalto constante?
Para a maior parte das pessoas que conheci no Congo Oriental, a rebelião do movimento M23 não foi o primeiro conflito pelo quak passaram ou a sua primeira experiência de ter de deixar para trás os seus pertences, as suas casas. Em geral, insegurança significa constante incerteza, particularmente quando as pessoas são muito pobres e têm pouca capacidade para lidar com a instabilidade. Ao mesmo tempo, as pessoas prosperam quando há momentos de pausa no conflito e também conseguem lidar com isso de uma maneira que eu jamais conseguiria atendendo às condições em que vivem. São engenhosas e generosas tanto quanto as circunstâncias o permitem. Conheci famílias que vivem com muito pouco e que mesmo assim levam outras pessoas para as suas já sobrelotadas casas. (Algo que muitos na Europa estão a recusar fazer, agora que somos confrontados com pessoas que precisam de ser protegidas por causa da guerra).

Menciona a palavra “perseguição”: é preciso lembrar que em tempos de paz, essa perseguição pode continuar, mas através de diferentes formas e actores. A corrupção é endémica na República Democrática Congo, originária do regime autocrático de Mobutu. Mesmo as autoridades responsáveis por servir a população exigem dinheiro e bens das povoações. Mesmo em tempos de paz, as pessoas têm de lidar com este tipo de perseguição.

Às vezes, trabalhar no Congo pode ser muito complicado, cansativo e frustrante. Mas também pode ser profundamente enriquecedor, surpreendente e educativo.