Opinião

No peito dos falsários também bate um coração

No estranho mundo do comércio da arte, os falsários são realidade e lenda, cada vez mais sofisticados.

O mundo da arte é um lugar estranho. Mas mais estranho ainda é o mundo do comércio da arte. Pintores geniais houve, que, vendendo desenhos e quadros em cafés sem que ninguém lhos comprasse, são hoje disputados por coleccionadores e cotados em somas milionárias. A contraciclo dessa injustiça, move-se o mundo dos falsários, igualmente fascinante. Há dias, e o PÚBLICO fez disso eco, descobriu-se aquele que pode ser um dos golpes do século neste estranhíssimo negócio. A afamada leiloeira Sotheby’s viu-se forçada a devolver 9,4 milhões de euros ao comprador de um retrato atribuído ao notável pintor belga Frans Hals (1582/3-1666), porque se concluiu que era uma falsificação. Sublinhe-se: uma falsificação, não uma cópia, porque não haverá outro quadro igual. O falsário copiou apenas o estilo de Hals, e fê-lo de modo tão convincente que passou (sem nenhum alerta) o crivo de peritos e avaliadores. Só não resistiu aos testes químicos, fatais nas datações. Tudo isto, que só agora se soube, não aconteceu anteontem: a venda foi feita em 2011 e a devolução do dinheiro tem meses. Mas o peso do escândalo é tal que demorou até chegar ao público. Foi a suspeita lançada sobre um outro quadro, uma Vénus de Cranach (1472-1553), que levou à “queda” do retrato de Hals. Agora, além de vários quadros sob investigação, há um coleccionador-vendedor (antigo proprietário do Hals e do Cranach) na mira da polícia: Giulano Ruffini, francês, 71 anos.

Quem viu o filme Como Roubar um Milhão (William Wyler, 1966) sorrirá. O protagonista, Chales Bonnet, é um coleccionador de arte francês e um falsário habilidoso: pinta, numa sala secreta da sua mansão, quadros que vende a milionários cobiçosos. Quando a filha o repreende por estar a pintar mais um “Van Gogh”, replica: “Em vida, ele só vendeu um quadro e eu, em homenagem ao seu talento, já vendi dois”. É esse destemor que o leva a aceitar expor, num museu, ao público, a sua “preciosa” Vénus de Cellini (também esta não era uma cópia, era uma invenção: foi o pai de Bonnet, ele próprio um falsário, que a esculpiu, tendo como modelo a sua própria mulher). E é aqui que tudo se complica. Apesar de venerada pela Nação francesa em peso (à passagem do carro que a transporta, até os polícias fazem continência e os padres descobrem a cabeça em sinal de respeito), a Vénus atrai peritos que sugerem fazer-lhe testes de datação. É então que, para evitar a descoberta da fraude, se planeia o roubo da pequena estátua, avaliada num milhão. Divirtam-se a ver o filme, que há por aí em DVD numa edição espanhola com legendas brasileiras. Não se arranja melhor.

Contudo, se quisermos ascender à sublimação desta arte é obrigatório ler um conto de uma das grandes figuras da literatura norte-americana do século XX, Bernard Malamud (1914-1986), intitulado “O nu revelado” e incluído no livro Primeiro os Idiotas (1950, ed. port. Cavalo de Ferro, 2014). Noutro conto, "A senhora do Lago" (incluído em O Barril Mágico, também na Cavalo de Ferro, 2013) Malamud já pusera um homem a espantar-se num galeria de um palazzo rococó, ao descobrir, diante de Ticianos, Tintorettos e Bellinis que o deixaram sem fôlego, que não eram originais. "Todos os Ticianos são cópias?" "Todos", disse-lhe a anfitrã. Ficou verdadeiramente desanimado. "Passa-se alguma coisa?", perguntou ela, curiosa. "Apenas o facto de não conseguir distinguir os falsos dos verdadeiros."

Mas é “O nu revelado” que confirma a mestria de Malamud. Um antigo estudante de arte é coagido, sob ameaça, a copiar a Vénus de Urbino, de Ticiano (ca. 1473/1490-1576). O plano era trocar, numa noite, a cópia pelo original que estava num castelo. Após inúmeras sevícias, o estudante (que desenhava e pintava sofrivelmente, mas se apaixonara por aquele quadro) completa a obra. E a troca é feita. Um é posto na parede e outro é levado. Mas o estudante golpeia o seu acompanhante na cabeça, deixa-o inanimado, e parte sozinho no pequeno barco que os levara à ilha do castelo. Já a caminho, pôs-se a desembrulhar freneticamente o quadro, para verificar se levara mesmo a Vénus certa. E confirmou. “No meio da profunda escuridão e das águas agitadas do lago, viu que era realmente a sua e, à luz de uma enorme quantidade de fósforos, adorou a sua obra.” Haverá, no mundo, peritos capazes de avaliar tamanha paixão?