A base das Lajes interessa à China?

O interesse chinês pela base das Lajes não consta das agendas oficiais dos encontros bilaterais entre os dois países, mas desde que os Estados Unidos falaram em sair da Terceira, têm sido muitas as visitas da China à ilha.

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Miguel Madeira

Desde que, em 2012, os Estados Unidos anunciaram a redução dos efectivos na Base das Lajes, que a Terceira passou a figurar nos radares militares chineses.

O interesse da China naquele ponto estratégico do Atlântico não é falado abertamente pela diplomacia chinesa, nem tão pouco no Palácio das Necessidades, mas nos corredores da política internacional, de Washington a Pequim, as Lajes são uma espécie de elefante na sala.

A imprensa especializada tem contabilizado os sinais de interesse e nota que, paralelamente à expansão que tem ocorrido no Mar do Sul da China, onde alguns recifes foram adaptadas para servirem de bases aéreas, Pequim tem olhado com interesse para o Atlântico Norte. O recente acordo de comércio livre com a Islândia – que foi o primeiro país europeu a fazê-lo – é disso exemplo, e abriu portas para a utilização dos portos islandeses para a nova rota polar, que tem sido explorada pela China.

Mais a sul, os "voos rasantes" sobre a Terceira, começaram já em 2012, quando, no regresso por um périplo pela América Latina, o então primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, acompanhado por uma comitiva de mais de cem pessoas, fez uma escala técnica de cinco horas nas Lajes. Uma paragem que um especialista em assuntos asiáticos, Gordon Chang, estranhou já na altura. “A última visita oficial de Wen tinha sido ao Chile, e os voos daí para a China normalmente atravessam o Pacífico. Por isso, não havia qualquer razão para o avião estar perto dos Açores”, notou Chang, citado pelo Business Insider.

O mesmo aconteceu em 2014, desta vez com o presidente chinês Xi Jinping. Novamente foi uma escala técnica, novamente de um voo proveniente de Santiago. Na altura, Paulo Portas, vice-primeiro-ministro, fez as honras da casa, reunindo-se com a comitiva.

E este mês foi a vez de o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, receber naquela base da ilha Terceira o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, que ali fez uma escala de dois dias no regresso de uma visita a Cuba.

Michael Rubin, um antigo oficial do Pentágono agora no American Enterprise Institute, um think tank conservador, tem escrito muito sobre as Lajes. Atento ao que considera serem “movimentações” chinesas em torno dos Açores, Rubin, citado pelo Politico, coloca a tónica na segurança norte-americana, notando que a distância entre os Açores e Nova Iorque é mais curta do que entre Pearl Harbor e Los Angeles.

“Os chineses nunca lhe vão chamar base militar. Não faz parte do léxico deles. A questão é se vão ou não fazer das Lajes uma base militar”, explica, argumentando com as políticas expansionistas de Pequim que, já este ano, iniciou a construção de uma base naval em Djibouti, um pequeno país no nordeste africano.

O Asian Times também pegou no assunto, admitindo que o interesse chinês na região autónoma pode incidir também no porto de águas profundas da Praia da Vitória, igualmente estratégico para os interesses da China. “Se Pequim conseguir agarrar esta base, pode interferir no tráfego aéreo e marítimo entre a Europa e os Estados Unidos.”

Já este mês, a propósito do encontro entre o ministro dos Negócios Estrangeiros e o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, na Terceira, as Lajes voltaram à ordem do dia. Augusto Santos Silva insistiu que a reunião não “tinha nenhuma agenda escondida” e que o encontro era meramente preparatório da visita de António Costa à China.

Mesmo confrontando com a presença de uma delegação chinesa, composta por várias dezenas de responsáveis, que esteve recentemente na Terceira antes mesmo da chegada de Li Keqiang, Santos Silva, não confirmou quaisquer contactos sobre as Lajes ou o Porto da Vitória.“Eu não sei se há interesse chinês nas Lajes. O que sei é que o único interesse português é que ela seja aproveitada plenamente no quadro do acordo de cooperação e defesa que temos com os Estados Unidos”, disse à Lusa.

No arquipélago, as principais forças políticas alinham no discurso pro-americano. Vasco Cordeiro, actual presidente do governo regional, que se recandidata nas eleições do próximo domingo pelo PS, chegou a admitir a entrada de chineses nos Açores, mas recentemente defendeu a continuidade norte-americana. Também Duarte Freitas, líder do PSD-Açores, defende a manutenção da “relação privilegiada” com Washington.

O PÚBLICO tentou saber junto do gabinete de António Costa se a questão das Lajes foi falada durante a visita do primeiro-ministro à China, mas não obteve resposta.