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Megafone

O Porto deste mouro

Mas o que lhe vejo de defeitos são o verdadeiro atractivo (como o olho vagamente malandro da primeira namorada a sério)

Nascido quase na Baixa, criado na Estrada da Luz, mudado para a Estrada de Benfica, sempre engoli em seco quando (no sotaque de Cascais que todo o morcão acha que é o de Lisboa) me perguntavam no Porto: “E você lá em Lisboa é de onde?!”... “Sete Rios”, atirava-lhes eu à ignorância da geografia cá de baixo... já me bastava pedir bicas e imperiais em vez de cimbalinos e finos... e não saber o que era uma postura de táxis... o que me custou não saber o que era uma postura de táxis!

Conto pelos dedos, foi antes de França, antes da criança... há pelo menos cinco ou seis anos que não poiso as patas no basalto da Invicta... há meio ano passei na Circunvalação (a vir de Braga, caminho de Telheiras) mas nem te senti o cheiro, o sabor, a sensação fria (levemente húmida) da pedra negra de todas as ruas... apanhámos trânsito (não há Moreira que vos valha!) e mesmo assim só vi o Dragão e o Douro às escuras.

Nunca tive a doença da bola por isso nunca invejei a sacada de campeonatos que o Pintinho sacou quando eu era puto, nunca tive problemas com o Porto, à parte o meu pai lhe chamar “o penico do Senhor” por causa da chuva constante, em Lisboa “nobody cares”, só estranhamos o vosso mito de que ninguém é daqui... vá, o meu pai é beirão de junto ao Tejo, mas a minha avó materna cresceu à sombra do Aqueduto do João V.

Mas depois houve uns cinco anos seguidos em que passei mais tempo aí do que aqui: trabalhar na Júlio Dinis (com vista para os jardins do Palácio), a dormir no Grande Hotel antes da renovação (pagava o patrão) em plena Santa Catarina, jantares na Abadia e bebedeiras no Meu Mercedes na Ribeira (com direito a passeio a pé, para cima e para baixo e a más horas, pela Sé); quando me chateava da insónia flanar até à Gonçalo Cristóvão, ver os travestis.

Apaixonei-me ligeiramente... escrevi Porto na curta lista mental de sítios onde sei que vivia contente e sossegado (Lisboa, Évora, Paris, Barcelona, Porto, Veneza, Santa Susana ao pé de Alcácer). Habituei-me às doses homéricas aí de cima, lambi-me com as francesinhas (feito que nunca comi abaixo do Mondego), passei a arranjar e a perfumar-me para sair à noite (eu, um filho do Bairro Alto!), aprendi o que era uma cruzeta, a pedir um natinha (em vez dum copo de água) com o café, a ler o "Jornal de Notícias" (aparte: haverá a possibilidade dum título mais abstruso que "Jornal de Notícias"??! Não filho.. havia de ser "Jornal de Coisas Que Já Aconteceram Há Muito Tempo"...), a recalcar quando os concidadãos se me encostavam ao balcão da cervejaria ou à espera que a passadeira abrisse (agora a sério, essa é de aldeia, a noção de espaço vital é um princípio da vida urbana!).

Mas o que lhe vejo de defeitos são o verdadeiro atractivo (como o olho vagamente malandro da primeira namorada a sério): o ar grave e sério, o jeito fechado, a cascata são-joanina e a neblina, a visão da Maria Pia quando se chegava de comboio, a luz bela e sombria, a altivez ferida sem sabermos porquê. Sempre te cheguei de comboio sem ser um regresso a casa, a ouvir o tio Rui e o Tê porque aconteceu na primeira vez e foi tão certo que repeti sempre a partir daí.

E não quero saber: apodei-me de mouro e lampião que é tudo verdade, crucifiquem-me em polémicas de caixa de comentários à vontade que eu leio mas não respondo... dão-se-me as saudades desse vale às vezes, às vezes vejo o Cleto no "Porto Canal" só para ouvir “dezôito” em vez de “dezóito”... mas agora tenho uma moura aí na Cedofeita, para estudar Teatro, por isso preparai-vos (outra que só aí em cima: o “vós”! Abaixo do Mondego ninguém sabe conjugar a segunda pessoa do plural...) que a visita é fatal.

A ver se é desta vez que percebo, entre a Ribeira e a Foz, porque é que móis esse sentimento, porque é que manténs esse ar grave e sério, magoado.