Prioridade dos republicanos já não é eleger Trump, mas salvar maioria no Congresso

Segundo debate presidencial acentua a crise na campanha conservadora: nova actuação agressiva de Donald Trump leva establishment republicano a bater em retirada.

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Republicanos começam a desertar da campanha de Donald Trump Shannon Stapleton/REUTERS

Não foi exactamente o “morning after” que os entusiasmados apoiantes de Donald Trump esperavam, depois do mais tenso debate presidencial televisivo de que há memória nos Estados Unidos. Os indefectíveis do magnata convertido em candidato à Casa Branca ainda celebravam a sua actuação aguerrida contra Hillary Clinton, quando o speaker do Congresso, Paul Ryan, o republicano mais poderoso em Washington, despejava um gigantesco balde de água fria sobre as suas cabeças: nos 29 dias de campanha que restam, o importante não é “defender Trump” mas “garantir que os republicanos mantêm a maioria de que dispõem na Câmara de Representantes”.

Como sinal às tropas, não podia ser mais claro: é o bater em retirada do establishment republicano, que nem precisou de esperar pelo terceiro duelo presidencial (dia 19) para a constatação de que já não há hipótese de salvar a candidatura de Donald Trump (ao lado de quem Paul Ryan não voltará a fazer campanha).

Era a medida que centenas de dirigentes e candidatos republicanos pediam ao partido desde que vieram a público as declarações de Trump sobre as mulheres, gravadas em 2005 – e que terão “arrumado” definitivamente com a sua candidatura, que já se encontrava em crise pronunciada.

A partir desse momento, um cenário que parecia impossível há poucos meses começou a materializar-se, à medida que a candidatura de Clinton foi ganhando “folga” nas sondagens: o de uma eventual reversão do equilíbrio de forças no Congresso, com os democratas a recuperar a maioria no Senado e, apesar de mais difícil, na Câmara de Representantes – onde os republicanos detêm uma vantagem de 50 lugares; dia 8 de Novembro os eleitores também elegem parte substancial do aparelho legislativo. A acção decisiva de Paul Ryan, esta segunda-feira, indica que esse risco é real: a palavra de ordem, agora, é mitigar os prejuízos que a campanha de Trump pode infligir ao partido.

Numa reunião de emergência convocada para esta manhã, Ryan acertou agulhas com a bancada republicana. Segundo a Reuters, o speaker do Congresso frisou que todo o esforço deve ser gasto a garantir que, em Novembro, Hillary Clinton não obtém um “cheque em branco”, sob a forma de uma maioria democrata no Congresso – que lhe permita governar pela via legislativa em vez da acção executiva agora reservada a Barack Obama, ou fazer nomeações para o Supremo Tribunal sem que o bloqueio republicano.

A decisão de Ryan eleva a crise republicana para níveis estratosféricos. Ao contrário do que fizeram outros republicanos, que com a reeleição em risco renegaram o apoio a Trump, o congressista do Wisconsin não disse que não votaria no candidato do partido – aliás, fez questão de frisar ao The New York Times que mantinha o seu voto no candidato republicano.

A bola passa agora para o lado do imprevisível Donald Trump – que no debate televisivo de domingo, inovou em diversas frentes ao sugerir recorrer ao poder do Estado para perseguir e castigar a sua rival política; ao voltar-se contra o seu parceiro de ticket e desmentir em directo o candidato à vice-presidência, Mike Pence; e ao ameaçar uma retaliação contra o partido que sustenta a sua candidatura.

O mais seguro é dizer que o próprio partido não saberá, ainda, qual vai ser a reacção do magnata do imobiliário que promete “tornar a América grandiosa”: quando todos esperavam que Trump aproveitasse o debate contra Hillary para pôr um ponto final nas controvérsias que estão a levar importantes parcelas do eleitorado a afastar-se da campanha republicana, acontecem precisamente o contrário. Em vez da humildade e contrição que exigiam ao seu candidato, tiveram dose reforçada de agressividade e impertinência.

Pela primeira vez na História, ouviu-se um candidato à presidência dos EUA prometer, em horário nobre, a prisão da sua adversária. “Se eu ganhar, vou dar ordens para nomear um procurador especial para investigar esta situação, porque nunca houve tantas mentiras, tantos enganos”, atirou contra Hillary Clinton, rematando um segundo depois que quando estiver à frente do país a candidata democrata “estará na cadeia”. A perspectiva horrorizou a classe política e os analistas norte-americanos, que se viram obrigados a lembrar que “isso é o que fazem as ditaduras, não as democracias” (Max Fisher, no The New York Times). Mas “Trump não está a correr para ser Presidente, está a correr para ditador”, concluiu o (liberal) Ezra Klein, no site Vox.

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Com a campanha a desmoronar-se, Trump já tinha deixado claro, antes do debate, que não tencionava desistir da luta pela Casa Branca. Só não se sabia em que termos pretendia continuar a travar esse combate: percebeu-se, logo depois da primeira intervenção, que é sem luvas e directo à jugular. Quando, inevitavelmente, foi questionado sobre as suas afirmações de que beijava e apalpava mulheres sem pedir permissão, sacou do seu trunfo. “Não me orgulho do que disse, mas foram só palavras. Se olharem para Bill Clinton, é muito pior: no caso dele são acções. Nunca houve ninguém na história da política neste país tão abusador em relação às mulheres”, sublinhou o republicano, que sentou na audiência, como suas convidadas, três mulheres que acusaram o antigo Presidente dos EUA de abuso sexual.

A candidata democrata manteve a disciplina e recusou responder a provocações. “Quando eles desferem golpes baixos, nós passamos por cima”, indicou. Mas Trump não se demoveu, e continuou a descarregar tudo o que tem dito nos já 16 longos meses de campanha contra a sua adversária, pondo em causa a sua honestidade ao lembrar a sua relação próxima com as grandes instituições de Wall Street e a novela dos e-mails apagados do seu servidor pessoal.

E neste ponto decidiu ir mais longe, e transpor para o debate o refrão repetido à exaustão nos seus comícios por multidões enfurecidas contra Clinton que reclamam a sua prisão: “Prendam-na”. Trump não hesitou, e garantiu uma investigação especial para esse efeito. “Maravilhoso. Trump está a ser magnífico. Os Clinton nunca tiveram que lidar com ninguém assim”, reagiu a colunista ultra-conservadora Laura Ingraham, entusiasmada com a perspectiva de uma “vingança”.

No site populista Breitbart news – cujo presidente executivo, Stephen Bannon, é desde Agosto o director de campanha de Trump – o desempenho do republicano foi saudado como um triunfo. A promessa de prisão para Hillary Clinton foi especialmente elogiada como um dos “golpes mais certeiros” jamais executados – isto é, até chegar o K.O. de Paul Ryan.