Revelado pequeno óleo desconhecido de Amadeo

Cabeça de homem deve datar de 1914 e integrou a primeira exposição que o pintor realizou no Porto, há um século.

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Cabeça de homem DR

Não se trata de uma descoberta bombástica, mas é sem dúvida uma achega importante para a reconstituição do percurso criativo de Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918): um óleo do pintor, com a dimensão de 18,2 x 23,6 cm, sem título e sem data, mas representando uma Cabeça de homem e previsivelmente realizado em 1914, foi esta terça-feira desvendado publicamente no Museu Nacional Soares dos Reis (MNSR).

A apresentação foi feita pelo historiador de arte Luís Pimenta de Castro Damásio, autor de uma tese de doutoramento sobre o pintor de Manhufe, ao qual dedicará em breve um livro centrado na primeira exposição que Amadeo realizou há cem anos, no Porto.

O historiador explicou, perante uma lotada Sala de Música do museu portuense – numa sessão promovida pelo Círculo Dr. José de Figueiredo/ Amigos do Museu Nacional Soares dos Reis –, ter-se cruzado pela primeira vez com esta pintura em 1998, quando da realização do I Congresso Histórico de Amarante, onde apresentou, em parceria com Armando Malheiro, uma comunicação sobre a relação da família do pintor com a sua terra natal.

Contactou, na altura, com António de Lencastre, primo de Amadeo e proprietário daquele óleo, que o tinha herdado de Lucie, a viúva do artista. “Foi então que me mostrou o óleo aqui exposto, propondo-me, generosamente, reservá-lo como exclusivo para que este figurasse como novidade na capa do meu primeiro livro sobre Amadeo”, disse Luís Pimenta de Castro Damásio.

Este facto explica que o óleo se mantivesse na posse da família, mas fora do conhecimento e das referências que ultimamente se fizeram à obra de Amadeo, nomeadamente a pretexto da grande exposição retrospectiva apresentada pela Fundação Gulbenkian na passada Primavera, em Paris.

“Ambos assumimos o compromisso, e daí só estarmos agora a revelar a existência do quadro”, disse o historiador ao PÚBLICO, no final da apresentação no MNSR.

No trabalho entretanto realizado, Luís Pimenta de Castro Damásio deu especial atenção à validação da autoria da pintura, fazendo o cruzamento de vários dados e documentos. O primeiro, foi a confirmação de que ele se manteve sempre na posse de familiares e descendentes de Amadeo. Depois, o óleo integra a colecção Cabeças, a que o pintor se dedicou entre 1913/15, e de que resultaram 30 óleos, “inventariados no segundo catálogo raisonné” publicado pela Gulbenkian – mas onde este Cabeça de homem surge assinalado como de “identificação incerta”.

O investigador estabelece também um paralelismo entre esta “cabeça” e dois óleos idênticos da mesma época – e também pintados sobre cartão – que Amadeo ofereceu aos seus amigos Almada Negreiros e Eduardo Viana.

“Ao longo de 1913, 1914 e 1915, Amadeo realizou uma multiplicidade de pesquisas e de experiências, elaborando inúmeros quadros focados na apresentação de um motivo fundamental do expressionismo, o rosto reduzido a máscara”, disse o historiador.

Acresce a isto a assinatura com a etiqueta característica do pintor, e também a inscrição, nela, do número tipográfico 52, que remete para os catálogos das duas exposições sucessivas que Amadeo realizou, a partir de 1 de Novembro de 1916, no Porto (Salão de Festas do Jardim Passos Manuel) e em Lisboa (Palácio dos Souzas de Calhariz).

A finalizar a sua intervenção no MNSR, Luís Pimenta de Castro Damásio incluiu esta apresentação já no âmbito do centenário dessa primeira exposição de Amadeo, que o historiador considera ter feito do Porto a cidade “precursora da pintura moderna e da avant-garde europeia em Portugal”.

De resto, o livro que o autor irá lançar brevemente terá por título A Primeira Exposição de Pintura Moderna em Portugal. Porto 1916-2016. Amadeo de Souza-Cardoso – Estudo crítico e documental. E terá, na capa, a Cabeça de homem agora revelada.

O lançamento desta publicação irá coincidir com a próxima reconstituição, no MNSR, de novo a partir do dia 1 de Novembro, dessa exposição inaugural, que em Janeiro irá também de novo a Lisboa. Com curadoria de Raquel Henriques da Silva e de Marta Almeida Soares, a mostra vai contar com 90 das 114 obras que integraram a exposição original.

Em paralelo com ela, nos dias 4 e 5 de Novembro, realiza-se também no Porto um Congresso Internacional Amadeo Souza-Cardoso.