Westworld: os andróides sonham com ovelhas eléctricas na televisão?

Um parque temático para fantasias violentas. Uma série que viaja entre o Velho Oeste e o futuro próximo, e entre a consciência e a moral. Nova ficção científica nesta madrugada no TV Séries.

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James Marsden e Evan Rachel Wood Home Box Office
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Anthony Hopkins é Ford, o fundador da empresa criadora de Westworld Home Box Office
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O Homem de Negro, interpretado por Ed Harris Home Box Office
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Thandie Newton Home Box Office
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Jeffrey Wright Home Box Office
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Há, claro, um mistério. E há, claro, um mundo complexo, extenso e codificado. Westworld é televisão ambiciosa e visualmente entusiasmante, que mistura dois mundos aparentemente distantes - o Velho Oeste e um futuro em que andróides servem uma realidade virtual para ricos. Aparentemente porque a natureza humana se encarrega do resto, aproximando os dois mundos através das pulsões mais violentas dos visitantes deste parque temático tão complexo quanto em falha. É que os habitantes deste Westworld, onde há designers narrativos e seguranças para os guiões, parecem estar a acordar para a vida.

Em desenvolvimento há mais de três anos, com atrasos e polémicas, Westworld é mais uma tentativa do canal que tem casa no português TV Séries, a HBO, de substituir A Guerra dos Tronos quando o blockbuster cultural findar em 2018 (as novas temporadas da série de fantasia, porém, não moram no TV Séries, mas sim no SyFy, que já tinha os direitos). Como grande aposta que se preze, estreia-se quase em simultâneo em Portugal e nos EUA, na madrugada deste domingo para segunda às 2h (passa depois às segundas às 22h45). Um elenco luxuoso num mundo luxuriante, tem Anthony Hopkins e Ed Harris, Evan Rachel Wood e Thandie Newton, James Marsden, Rodrigo Santoro e Jeffrey Wright e Sidse Babett Knudsen (Borgen).

“Alguma vez questionaste a natureza da tua realidade?” é a pergunta de controlo e a chave para uma série - o PÚBLICO só viu o primeiro de 10 episódios - que mexe com os velhos dilemas HBO e temas ontológicos. A violência sexual como dispositivo narrativo, os traumas dos génios, os valores na base à criação de mundos. Mas também, como se nunca deixássemos de ouvir Philip K. Dick a perguntar se os andróides sonham com ovelhas eléctricas, 2016 a olhar para o passado e para um futuro próximo e a ponderar a autonomia e a agência - a ética de violar robôs sencientes (os “hospedeiros”) por capricho, um parque de diversões para cumprir (ou matar) os sonhos mais perversos, mas sobretudo de questionar (com Mr. Robot, Blade Runner, Matrix, Relatório Minoritário, Eu, Robot, Ex Machina como claros referentes actuais e passados) em que é que podemos acreditar no mundo que nos rodeia. A pairar, sempre, a questão do que é a natureza humana.

“Escolho a beleza”, diz a inocente e vítimizada Dolores de Evan Rachel Wood, loira e bem programada e que não faz mal a uma mosca - só que não. A ficha técnica mistura Perdidos (J.J. Abrams e Bryan Burke produtores) com os Batman dos anos 2000 - Jonathan Nolan (O Cavaleiro das Trevas) é o showrunner com a mulher Lisa Joy, e está acompanhado pelos designers de produção dos filmes de Christopher Nolan. De Perdidos herda também uma personagem misteriosa, O Homem de Negro, aqui interpretada por Ed Harris, um violento habitué de rosto topográfico que habita este gigantesco videojogo de realidade virtual - é uma versão alternativa do Pistoleiro de Yul Brunner no filme de 1973 em que se inspira a série. O filme de 1973 inclui também um Mundo Medieval e um Mundo Romano, além deste mundo de cowboys, mas os showrunners ainda não revelaram se os explorarão. 

É de Nolan e Joy, argumentista experimentada, que vem a essência de Westworld 2016 - “estão a usar o futuro da inteligência artificial para explorar a natureza do que faz de nós o que somos”, como explicou Abrams ao New York Times. Não há ecrãs nem código a ser programado, mas sim um léxico próprio, palavras-chave ou comandos e muita inspiração e citação directa de Shakespeare. N’O Mundo do Oeste realizado e escrito em 1973 por Michael Crichton, os “hospedeiros” sofriam uma falha que viraria o seu pequeno mundo ao contrário para terror dos visitantes; na série, tal pode acontecer mas os visitantes já não são só vítimas - Eu, robot, Nós, predadores.

A violência sexual, especialmente sobre as mulheres, é “central”, focava Thandie Newton, a dona de um bordel em Westworld, na estreia da série em Los Angeles. “Não podemos contar uma historia de opressão sem retratar os oprimidos. Mas esta é uma série sobre o oposto” de “desumanizar as mulheres”, defendeu Abrams. “É uma série sobre moralidade” que promete, dizem Nolan e Joy, reviravoltas nesse campo.

Entrar em Westworld é entrar num mundo saturado, da natureza espectacular filmada em Moab, no Utah, e no laboratório asséptico que permite esse mundo. Contudo, uma vez percebidos os mecanismos do jogo, pode temer-se um Dia da Marmota - histórias repetidas, uma e outra vez, para cada novo visitante ou “convidado”, e para um espectador esgotado. Não. Os hospedeiros têm os seus ciclos bem programados mas, como um videojogo, há muitos ciclos narrativos por onde variar. E este é um mundo do futuro, do passado distante e do passado não tão distante, onde uma pianola toca um significativo Black Hole Sun dos Soundgarden para depois, quando tudo vai pelo cano (de uma arma), os Rolling Stones passarem ao acto de Paint it Black.

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