LUAR: a organização armada que recusou o terrorismo

Assumindo-se como “historiador/actor”, Pereira Marques revela dados novos sobre a LUAR e divulga documentos do espólio de Palma Inácio.

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Hermínio da Palma Inácio fotografado pelo PÚBLICO em 1999 Daniel Rocha

Num momento histórico em que o terrorismo abala a segurança do mundo Ocidental, é publicado um livro que demonstra que a LUAR - Liga de Unidade e Acção Revolucionária foi o único movimento de oposição ao Estado Novo que, existindo para praticar acções armadas contra o regime, negou frontal e assumidamente o recurso a actos terroristas. A conclusão está no livro Uma Nova Concepção de LUTA, de Fernando Pereira Marques, é lançado esta semana como a quinta obra publicada na colecção Ephemera – Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira, da editora Tinta da China.

A recusa e condenação pública do terrorismo foi uma das marcas de água que caracterizou desde o início o pioneirismo e a singularidade da LUAR (pp. 177 e 184 a 186), explica Pereira Marques, historiador e antigo deputado do PS que foi activista da Liga. “O papel da LUAR tem sido subvalorizado, se não menosprezado” (p. 208), defende Pereira Marques que elaborou assim uma obra cujo objectivo é revelar documentos e dados inéditos sobre aquela organização política da oposição ao Estado Novo.

O facto de o autor ser Pereira Marques enriquece o livro enquanto obra destinada a revelar documentação e dados inéditos sobre a LUAR, já que, além de divulgar muitos documentos do espólio do dirigente e fundador daquele movimento político, Hermínio da Palma Inácio, a obra contém igualmente informação até agora desconhecida que é fornecida por Pereira Marques. O autor relata episódios históricos por si vividos enquanto militante e activista daquele movimento. Nomeadamente, a tentativa da tomada da Covilhã em Agosto de 1968 (p. 109 a 127).

Aliás, Pereira Marques, na introdução do livro assume precisamente a sua condição de “historiador/autor” (p. 27), tornando assim explícito o carácter de divulgação documental e de memória que caracteriza esta obra e permitindo que, no futuro, outros historiadores venham a analisar os dados agora tornados público no cotejo global da informação sobre a LUAR e do que foram os movimentos revolucionários e de acção armada em Portugal antes do 25 de Abril.

Além da recusa do terrorismo, a obra torna perceptíveis outras características que fizeram da LUAR um movimento peculiar e até único, uma originalidade que resulta do perfil dos seus dirigentes, da forma como estava organizada, mas também do tipo de objectivos que prosseguia.

Em termos de organização há um outro traço peculiar na LUAR. É o facto de, desde o seu início, ter optado pelo autofinanciamento, de modo a evitar a dependência de movimentos internacionais, de partidos estrangeiros, de outros países e de serviços secretos. Foi esse o motivo pelo qual a LUAR se estreou com o Assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, a 17 de Maio de 1967. (p. 90)

No que se refere ao perfil dos dirigentes, nenhum deles tinha militado ou estado próximo do PCP. Mas também nenhum deles vinha das Forças Armadas, tinha sido alta ou baixa patente militar, o que distanciava a suas acções da tradição dos golpes de Estado e levantamentos militares, que existiram até então. Eram pessoas que tinham sobretudo uma história, um currículo, de acção revolucionária, como Palma Inácio ou Camilo Mortágua.

O facto de terem uma folha de serviços de acções revolucionárias concretas associado à inexistência de vínculos partidários anteriores, embora todos fossem democratas e antifascistas, dava-lhes assim uma “autoridade moral” e não uma “superioridade moral” no que era o universo da oposição ao Estado Novo (pp. 86 a 88).

Estas características estavam também na base de um outro traço que caracterizou a LUAR enquanto movimento de acção revolucionária pioneiro em Portugal. A sua direcção não tinha uma linha ideológica definida. Embora fosse apologista da democracia, vivia da diversidade de pensamento político interna dos seus dirigentes. Pereira Marques frisa mesmo que estes nunca quiseram assumir-se como “vanguarda”, nem criar “nenhum ‘verdadeiro’ partido comunista ou do proletariado” (p. 206). E se faziam questão de não estarem associados a nenhum projecto partidário, era clara também a opção de não estarem associados nem à “luta de massas” (p. 55).

A LUAR introduziu assim na oposição portuguesa uma “nova concepção de luta”. O único paralelo ao nível de concepções de luta, de organização e de objectivos, que Pereira Marques afirma ter existido é o da semelhança com outro grupo político organizado também no estrangeiro, o Movimento de Acção Revolucionária (MAR) dirigido por personalidades como Manuel Lucena (p. 100).

Foram estas características que funcionaram como fronteira clara de delimitação da LUAR em relação à Acção Revolucionária Armada, braço armado do PCP. Como diz Pereira Marques: “A diferença entre a LUAR e a ARA residia nessa osmose, no facto de a última encarar o ‘sentido da história’ que o partido detinha” (p.74). O que lhes valeu um forte ataque por parte do PCP e sobretudo do leu líder, Álvaro Cunhal, na obra Radicalismo Pequeno Burguês de Fachada Socialista (pp. 70 a 74).