A minha língua é a ilustração

Jutta Bauer diz que faz livros porque não sabe fazer outra coisa, mas nunca acreditou que poderia viver da ilustração. Enganou-se. Está em Óbidos, no Festival Literário Internacional, a partilhar o que sabe.

Jutta Bauer na livraria Buchholz, em Lisboa
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Jutta Bauer na livraria Buchholz, em Lisboa DR
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A ilustração que faz a capa do livro A Rainha das Cores DR
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Quando a Mãe Grita DR
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O Anjo da Guarda do Avô DR

Nasceu em Hamburgo, é a mais nova de nove irmãos e passou a infância a desenhar. “Os meus pais e os meus professores disseram-me que era isso que eu devia fazer: desenhar. E foi o que fiz”, conta Jutta Bauer ao PÚBLICO na véspera de participar no Folio - Festival Literário Internacional de Óbidos, que decorre até 2 de Outubro. No entanto, a vencedora do Prémio Hans Christian Andersen 2010, o mais importante para quem se dedica à literatura para crianças, pensou estar destinada a ser enfermeira. “Durante dez anos, cuidei de pessoas com deficiência”, recorda. “Agora, já posso viver da ilustração, mas quando se começa nunca se acredita.”

Jutta Bauer diz que não precisa de muitas palavras - “a minha língua é a ilustração”. Afirmação fácil de comprovar através dos seus livros A Rainha das Cores (que acaba de ser editado em Portugal pela Bichinho de Conto, houve uma edição em 2002 da Cobra Laranja) ou Quando a Mãe Grita (2006), Selma (2009) e O Anjo da Guarda do Avô (2014) editados pela Gatafunho.

Em todos eles assina texto e imagem e prefere assim: “É muito mais fácil.” Sempre que ilustra textos de outros autores, pensa: “É a última vez. Não torno a fazer isto.” Lembra o livro de Peter Stamm, que ilustrou, Porque É Que Nós Vivemos Fora da Cidade. “Mais difícil ainda se for um texto poético ou de literatura pura e dura. Tem muita coisa lá dentro e temos de tomar várias decisões.”

Quando cria as suas próprias histórias, não tem bem a certeza se lhe surgem primeiro as palavras ou as imagens. “Aparecem em simultâneo, mas preciso de poucas palavras.”

Quase sempre começa por construir um storyboard, a preto e branco, prática que lhe ficou do cinema de animação, e depois vai deixando a história crescer e pinta-a no computador. Às vezes, escreve uma frase e desenha mais tarde. “Outras vezes, faço um desenho e nem sei o que hei-de dizer…”, descreve divertida na livraria Buchholz em Lisboa, onde nos recebeu.

Estudou Design e Ilustração, define “ilustrar” como “falar através de imagens” e diz que lhe é muito mais fácil desenhar do que falar ou escrever.

A mãe era filha de agricultores - “sempre a vi como doméstica, a cuidar dos filhos” - e o pai era professor primário, “às vezes, oh, entrava pela minha sala de aula adentro, quando era preciso substituir a minha professora”. Mas corria tudo bem.

Quando era criança, tinha livros de todo o tipo. Recorda que não é de “uma família muito letrada, cheia de bons livros”. No entanto, havia bastante variedade: “Muita banda desenhada, livros comuns, triviais, alguns clássicos ilustrados. O meu pai trazia muito Rato Mickey [Walt Disney].”

Mas as suas preferências iam para O Ursinho Petzi (Rasmus Klump) e mais ainda para as histórias da família Mumin. “Fui e continuo a ser grande admiradora de Tove Jansson.” Diz encontrar um pouco de todas estas personagens nos livros que faz, “animais que se divertem, mas que correm sempre alguns riscos e encontram formas de se desenrascar”.

A melhor vida que se pode ter

Jutta Bauer recorda também como sempre gostou de ver catálogos: “De sapatos, fatos-de-banho, cadeiras”, enumera. “Adorava ver e pensar em todas as coisas que iria ter no futuro. Depois, nunca as comprei”, conclui com uma gargalhada. Admite que talvez fosse o design a chamá-la.

A ilustradora diz que gosta de ser alemã e que tem a melhor vida que se pode ter, “ninguém me diz o que fazer, consigo viver do meu trabalho, viajar, vir até Lisboa”. Tem um filho de 30 anos (“é político, num partido ecologista alemão”) e de quem espera que lhe dê rapidamente um neto, que certamente “vai ter muitos livros”.

Na história de A Rainha das Cores, é através do choro que a protagonista consegue devolver o colorido ao mundo. Perguntamos-lhe se acredita que temos de sofrer para então resolvermos os problemas. Resposta: “Não temos, mas se sofrermos e chorarmos, então temos mesmo de resolver os problemas. O choro pode ser o princípio para solucionarmos as coisas.” E fala da Alemanha: “Depois da guerra, nós não chorámos, a sociedade preferiu esconder, não olhar para o assunto. Por isso ‘o cinzento’ não se foi embora. E o que eu aprendi foi a olhar bem para as coisas, chorar muito e superá-las depois.”

Jutta Bauer estará neste domingo em Óbidos, à conversa com Pia Kramer, às 15h00, na Galeria Nova Ogiva.