Opinião

Ulisses ainda mora aqui

O século XX foi o século das grandes obras inacabadas (Kafka, Musil, Pessoa, Benjamin...), seja por contingências externas, seja porque elas estavam comprometidas, por princípio, com a forma do inacabado. Mas há também projectos grandiosos que, não tendo sequer sido encetados, avançam como fantasmas pela posteridade e às vezes ganham corpo. É o caso do projecto de Eisenstein de filmar O Capital, de Marx (o que não é o mesmo que fazer um filme sobre O Capital), segundo o modelo literário do Ulisses, de Joyce. O grande cineasta russo percebeu que a jornada de Leopold Bloom, a sua peregrinação por Dublin nesse dia de 16 de Junho de 1904, contém a história do mundo. E, em 1929, o ano da grande catástrofe, começou a tirar notas para esse filme que nunca obteria os meios para ser produzido. A 29 de Novembro de 1929 foi a Paris encontrar-se com Joyce. O escritor já estava, então, quase cego. O projecto de Eisenstein, o encontro em Paris desses dois gigantes da literatura e do cinema do século XX, a ideia eisensteiniana de que O Capital é contemporâneo de Ulisses – tudo isto constituiu uma “mina imaginária” para o realizador, escritor e ensaísta alemão Alexander Kluge. Em memória do projecto de Eisenstein, Kluge realizou em 2008 um filme que tem a duração de 570 minutos (3 DVD’s) cujo título é Notícias da Antiguidade Ideológica. Nesse filme, composto de materiais muito diversos, incluindo entrevistas, um dos entrevistados, o escritor Dietmar Dath, faz uma interpretação de O Capital, formulando-a nestes termos: tal como John Milton fez uma dávida demoníaca ao cristianismo ao interrogar-se sobre o que pensaria ou faria o diabo se ele se interessasse por problemas de teologia, também Marx ofereceu um demónio ao socialismo, desenvolvendo a sua análise do capitalismo na perspectiva desta interrogação: se o dinheiro pudesse pensar, que explicação teria ele para nos dar? Alexander Kluge acha que um dos núcleos dessa explicação é uma categoria importantíssima em Marx: a mercadoria e o seu carácter de fetiche, isto é, aquela faculdade de encantamento e transfiguração que põe os objectos a exibir um valor que não é o do uso e a executar uma dança prodigiosa diante de nós, enfeitiçando-nos. No primeiro livro de O Capital, Marx mostrou que a mercadoria é dotada de uma alma, plena de “subtilezas metafísicas” e “argúcias teológicas”. Alexander Kluge viu no encontro de Eisenstein com Joyce, sob o signo de O Capital, uma cifra da época histórica que é ainda a nossa. Mas é como se a sensibilidade e os enigmas do nosso tempo só pudessem ser pensados com os instrumentos que nos foram fornecidos pela nossa pré-história, isto é, pela nossa Antiguidade imediata: é daí, desse tempo que só tem mais ou menos um século, que continuam a chegar-nos, segundo a hipótese interessantíssima de Alexander Kluge, as notícias que iluminam a nossa experiência, as notícias da Antiguidade ideológica. Esse triângulo improvável constituído por Eisenstein, Joyce e Marx é muito mais interessante e cheio de potencialidades do que a tríade canónica longamente pronunciada como recitativo e ouvida outrora como uma música da alma: Marx, Engels e Lenine. Já depois do filme de Kluge, o colectivo francês, anónimo, que dá pelo nome de Comité Invisible, escreveu uma espécie de manifesto a que chamou Théorie du Bloom, mostrando, através de uma escrita magnífica de pendor aforístico que deve muito aos moralistas do século XVII, que a personagem de Joyce, o homem do nihilismo completo, da jornada feita de episódios que se dissolvem no ar, como tudo o que é sólido, é a figura mais própria do nosso tempo.