Daniel Rocha
Daniel Rocha

Entrevista a David Lodge

Sexo, catolicismo e comédia

Foi educado na religião católica. Passou pela revolução sexual como uma espécie de repórter, registando os acontecimentos sem participar neles. Transformou tudo isso em literatura. O escritor inglês David Lodge encerra hoje o Festival Internacional de Cultura, na Casa das Histórias Paula Rego.

Não é fácil falar com David Lodge. As dificuldades de audição do escritor são conhecidas e públicas há muitos anos. Serviram-lhe até de mote para o romance A Vida em Surdina, um livro onde o protagonista se dá conta de que ao contrário da cegueira, que é trágica, a surdez é cómica; para todos menos para o próprio surdo. É provável que o tema venha também a ser tratado pelo escritor no segundo volume da autobiografia que está actualmente a escrever. O primeiro volume – publicado em Inglaterra no ano passado e ainda sem editor interessado em Portugal – cobre apenas metade da vida de David Lodge, agora com 81 anos. Uma vida marcada pela educação católica, pelo puritanismo sexual, por uma produtiva carreira académica e pela descoberta de um talento cómico posto ao serviço da literatura. As memórias do escritor, mais do que o retrato de uma circunstância, são o retrato de uma época. Deu-lhes um título optimista – Quite a Good Time To Be Born (qualquer coisa como Nascido em Boa Altura) – mas há muito que perdeu o optimismo dos anos do pós-guerra. Sentamo-nos frente a frente para que possa compensar pela leitura dos lábios aquilo que a deficiência auditiva não lhe permitir perceber.

Qual diria que foi a mais extraordinária transformação social a que assistiu ao longo da sua vida?
Talvez a invenção do microchip e as consequências que ele teve na vida de todos os dias: com os computadores e a digitalização da informação. Provocou efeitos de que ainda não conhecemos todos os resultados. Em particular, a facilidade de acesso à pornografia que, na verdade, está a dar cabo da vida de muitos jovens.

Essa parece ser uma grande preocupação sua, visto que também a refere na autobiografia que publicou.
É, sim. Talvez também por ser, por temperamento, monogâmico e por ter crescido com uma ética sexual bastante estrita, herdada do catolicismo. Isso alterou-se por completo com a revolução sexual e quando as pessoas passaram a poder viver juntas e a poder ter filhos fora do casamento, o que antes as teria sujeitado a uma grande reprovação social.

Quando pensei perguntar-lhe qual a maior transformação social a que assistiu, pensei, depois de ter lido as suas memórias, que me falaria precisamente da revolução sexual dos anos 1960.
Acertou.

Teria sido o escritor que é se não tivesse observado de perto esse período?
Foi algo que me forneceu muito material, sem dúvida. Quer dizer, a minha posição face à revolução sexual foi a de um correspondente de guerra, e não a de um participante nela. Vivi uma vida irrepreensivelmente monogâmica. Por escolha própria. Mas pude observar o fascínio desta questão. As relações sexuais estiveram presentes na ficção desde os tempos da Odisseia e da Ilíada. O quebrar de tabus dos anos 60 e 70 – de que eu não podia alhear-me – criou todo o tipo de conflitos e de problemas na sociedade. A sexualidade é algo de muito estranho, tanto pode servir de material para a comédia como para a tragédia.

No seu caso, usou-o sobretudo num registo cómico.
É verdade. Embora em Terapia tenha tratado dos aspectos negativos da experimentação sexual.

É por ter sido uma espécie de correspondente de guerra na revolução sexual que pensa em si próprio mais como uma criatura dos anos 50 do que dos anos 60, como já disse?
Sim. Os anos 50 foram a década do pós-guerra. Tínhamos ganho e as pessoas estavam, em certo sentido, moralizadas. Eu fiz parte dessa geração que foi da escola primária à universidade. Algo que não aconteceu com os nossos pais e que eles nem sequer pensaram ser possível. Tínhamos, portanto, uma certa sensação de privilégio, sentimo-nos afortunados. A ideia de estudar Literatura durante três anos à custa do Estado era maravilhosa. Nesse tempo éramos bastante conservadores em matéria de costumes. Embora isto não fosse coisa de que eu me desse conta na altura. Durante a guerra, precisamente por estarmos em guerra, tinha havido uma certa licenciosidade. Houve bastante experimentação sexual, parece-me.

Não passou por isso porque ainda era muito novo.
Claro. Era ainda uma criança. Mas depois da guerra houve uma espécie de reversão. Os anos 50 foram um dos períodos mais puritanos da vida britânica. Havia um sentimento difuso de que era preciso voltar a uma vida normal. E vida normal significava casamento monogâmico, condenação do divórcio, as crianças postas no seu lugar. Um ambiente conservador contra o qual os anos 60 se revoltaram.

No seu caso, o que é que o impediu de se revoltar: o catolicismo ou o amor, na sua relação concreta?
Ambos, na verdade. Não sei em que medida foi bom ou mau eu e a minha mulher termo-nos conhecido no nosso primeiro dia na universidade. Estamos casados há uma eternidade. E eu não o lamento. Creio que isso mostra bem que tipo de temperamento é o meu, o mesmo do meu pai: sou naturalmente monogâmico. Gosto da segurança de uma relação em que possa confiar.

Isso é uma questão de temperamento ou de educação?
Não sei bem. Hoje em dia, tenho a impressão de que os jovens têm a expectativa de poder ter muitas experiências sexuais antes do casamento.

Nas suas memórias descreve-se a si próprio como um jovem extremamente ingénuo que se casou virgem aos 24 anos.
É verdade. Isso, hoje, seria altamente improvável. Agora até usam os telemóveis para se encontrarem com estranhos e terem sexo com eles. Algo que me parece qualquer coisa de anárquico. Só pode acabar mal. Mas admito que sou bastante conservador neste aspecto. Sou naturalmente uma pessoa cautelosa e conservadora. A pílula contraceptiva veio alterar muito os comportamentos.

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O escritor inglês é o protagonista da sessão de encerramento do Festival Internacional de Cultura na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais

Não a encara como um progresso?
Na verdade, não sei. A moral antiga tinha, evidentemente, os seus aspectos negativos, como o facto de haver pessoas presas em casamentos infelizes. O catolicismo inglês era extremamente puritano. Muito mais que o catolicismo mediterrânico, parece-me; mais capaz de conviver alegremente com contradições entre os princípios e a prática. Nós fomos criados num tipo de catolicismo à maneira irlandesa; extremamente repressivo e puritano, com medo do sexo. Toda a teologia moral católica acerca do sexo estava profundamente errada. Creio que foi a causa de problemas inultrapassáveis para os casais que tentavam seguir essas regras e que tentavam simultaneamente não ter demasiados filhos.

Conta no seu livro que passou por isso.
Sim. Tentámos, durante uns anos. Depois a minha mulher e eu, tal como muitos católicos, decidimos alterar isso. O problema foi mais grave na geração dos meus pais do que na minha.

Pode dizer-se então que, em certo sentido, também beneficiou da revolução sexual.
Nesse aspecto, creio que sim.

O primeiro romance que escreveu, e que nunca chegou a ser publicado, chamava-se O Diabo, o Mundo e a Carne: era um livro catequético?
Era, era. Quando o escrevi, não sabia nada acerca de nenhuma dessas coisas: nem do diabo, nem do mundo, nem da carne. Devia ter uns 17 ou 18 anos.

Era um romance sobre o perigo das tentações?
Sim. A ideia de pecado dominava a educação católica e a linguagem em que isso se expressava fazia-nos pensar que teríamos de prestar contas, espiritualmente, por tudo o que fizéssemos. Ou éramos bons ou éramos maus. E havia um número surpreendente de coisas que podiam fazer-nos ir para o inferno, por toda a eternidade, se morrêssemos em estado de pecado mortal. Era uma doutrina ridícula, aquela que nos era pregada dos púlpitos.

Nessa altura a sua forma de tratar essas questões não era ainda cómica.
Não. Embora já houvesse algumas ideias com graça. Ao preparar a minha autobiografia encontrei um conto que escrevi, no qual um jovem católico, que é também um aspirante a escritor, escreve uma história sobre uma situação em que o Papa o autoriza a pecar durante um dia, de modo a que ele possa passar por uma experiência que lhe permita escrever um romance.

E o que é que ele faz?
Não cheguei ao ponto em que se saberia o que ele vai fazer.

O que é que acha que teria feito, nessa altura, se isso lhe acontecesse a si?
Acho que sonhava poder... Não sei bem. Não vamos falar disso. É melhor não entrar em detalhes.

Porque é esse primeiro romance que escreveu nunca chegou a ser publicado?
Era completamente impublicável, extremamente ingénuo.

Descreve-o na sua autobiografia como a história de um adolescente que deseja ter uma experiência sexual mas que é impedido pelas suas fortes convicções religiosas; era um auto-retrato?
Sim, até certo ponto era. Na maior parte dos casos é isso que acontece com os primeiros romances. Só que naquele caso o herói não tinha tido uma educação católica, ao contrário de mim. A história era sobre dois jovens, ainda em idade escolar. A rapariga engravida. Meu Deus! É muito embaraçoso para mim falar disto, de tão absurdo que é. A rapariga engravida, o rapaz sente-se culpado mas descobre que ela, na verdade, preparou tudo para o seduzir. A gravidez complica-se, ela recusa-se a abortar e acaba por morrer, deixando o rapaz mergulhado na culpa. O livro inspirou-se em grande medida no facto de eu ter conhecido a família da minha mulher, uma família tipicamente católica; muito mais do que a minha. Eu era filho único e o meu pai não era católico. Usei esse conhecimento da forma como os escritores normalmente o fazem.

Mas nessa altura ainda não eram casados.
Não. Éramos só estudantes que andavam um com o outro, namorados.

Porque é que ainda guarda o manuscrito desse romance que nunca publicou?
Boa questão. Na verdade já não sou eu que o tenho. Ofereci-o à biblioteca da Universidade de Birmingham, juntamente com um conjunto de outros manuscritos.

Não teme que alguém no futuro venha a publicá-lo, apesar de, na sua opinião, ser impublicável?
Sendo eu próprio um académico e crítico literário, creio que aquilo pode vir a ter algum interesse para alguém. Nas minhas memórias deixei muito claro o que penso actualmente acerca daquele texto. Foi escrito por um rapaz muito imaturo, numa época em que os rapazes sabiam muitíssimo menos do que sabem os rapazes de hoje a respeito da sexualidade.

Que balanço faz entre aquilo que sabiam os jovens da sua geração e o que sabem os jovens dos nossos dias?
Pelo que me é dado perceber, os jovens de hoje sabem tudo. Conhecem todo o tipo de variação sexual e todo o tipo de desvios sexuais. Aprendem tudo no computador e ficam com uma visão extremamente distorcida acerca daquilo que é a vida sexual, o amor sexual. Parece-me que se sentem bastante intimidados por isso, em especial as raparigas, que me parecem perturbadas mas não têm coragem para o recusar.

Tem netos?
Tenho. Três netas.

Adolescentes?
Têm 14, 15 e 18 anos.

Vem daí essa sua preocupação?
Confio nos pais delas. E elas parecem-me ser raparigas muito bem formadas, devo dizer. Creio que têm o aconselhamento correcto por parte dos pais. Se houver raparigas a conseguir sobreviver neste ambiente sexual, julgo que serão elas. São extremamente inteligentes e muito tranquilas.

À parte o sexo, como é que vê a geração das suas netas, em termos de preparação e de curiosidade intelectual?
Em termos geracionais, todos os jovens de hoje se deparam com o problema de encontrar um emprego que esteja de acordo com as suas capacidades. A informatização reduziu a quantidade de empregos disponíveis, a economia não está brilhante e há muita gente a sair da universidade com cursos e a ter de ir para os chamados McEmpregos, o que é verdadeiramente chocante. Na minha geração, se tivéssemos um bom curso, tínhamos a certeza de encontrar um bom emprego.

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Quando decidi escrever sobre o problema dos católicos e do controlo da natalidade, pensei: não escrevas sobre isso de uma forma séria, vai ser horrível de ler.

quem diga que esta é primeira geração cujas perspectivas de vida são piores do que as dos pais.
Sim. Continuando, frequentemente, a viver com os pais, mesmo depois de terem estado na universidade. Chamam-lhes os “filhos boomerang”, que vão e voltam. Isso cria problemas complicados. Ainda há dias estive a ler sobre esses casos em que jovens adultos não têm dinheiro para ter uma casa própria, uma vida própria, a começar por uma vida sexual sem embaraços.

Em que momento e de que modo é que descobriu que podia tratar de temas sérios, nos seus romances, num registo cómico?
Já havia alguns elementos de comédia nos meus primeiros livros. O primeiro abertamente cómico foi O Museu Britânico Ainda Vem Abaixo.

A veia cómica faz parte do seu temperamento?
Sempre cá esteve. Mas foi ao conhecer um outro escritor, Malcolm Bradbury, que foi dar aulas para a Universidade de Birmingham e de quem me tornei amigo e colaborador, que a desenvolvi. Ele encorajou-me muito. Escrevemos juntos uma revista satírica e eu gostei muito dessa experiência e descobri que tinha um certo talento para aquilo, que podia fazer rir o público. Quando decidi escrever sobre o problema dos católicos e do controlo da natalidade, pensei: não escrevas sobre isso de uma forma séria, vai ser horrível de ler.

Foi portanto uma decisão racional, não foi algo que lhe tivesse surgido espontaneamente.
Foi um decisão, sim. Embora o assunto seja muito triste para quem o vive, não é algo com que o público em geral se relacione com facilidade se for apresentado de forma emocional. Decidi, portanto, recorrer à comédia. Apercebi-me do que havia de absurdo naquela situação de que os católicos eram vítimas. E percebi que era muito mais provável conseguir ser eficaz e alterar atitudes fazendo troça de tudo aquilo. Recorri a vários dispositivos cómicos: a farsa, a paródia e por aí adiante. Mas o romance que me tornou conhecido foi A Troca.

Esse foi o seu primeiro livro premiado e há, nas suas memórias, uma história muito divertida sobre a cerimónia da entrega do prémio, dirigida por uma figura pública que encabeçava na altura uma campanha contra a pornografia.
Sim. Isso foi realmente divertido e bastante irónico. O prémio foi-me entregue por um aristocrata inglês, um tipo famoso pelo seu puritanismo, com uma mentalidade verdadeiramente quadrada. Curiosamente é pai de duas boas romancistas. Uma delas, Antonia Fraser, foi mulher de Harold Pinter. Esse aristocrata encabeçava nessa altura uma autêntica cruzada. Estava muito alarmado com a pornografia nos anos 70. Agora deve andar às voltas na tumba, se tiver conhecimento do que acontece hoje em dia.

Ele chegou a dizer claramente que não tinha gostado do seu romance durante a cerimónia de atribuição do prémio?
Não. Embora tenha feito um discurso bastante indelicado, deixando claro que não aprovava o livro. Alguém que o encontrou à saída do comboio – ele foi de comboio de Londres a Leeds, onde se deu a cerimónia – disse que ele tinha ficado muito chocado porque o protagonista estava preocupado com o tamanho do seu pénis.

O sentido de humor alguma vez funcionou para si como uma espécie de escudo protector para poder tratar questões delicadas – sexo e religião – que seria mais complicado abordar sem essa protecção?
Acho que teve mais a ver com o efeito que se quer produzir no público. Para se escrever sobre o catolicismo num país em que os católicos são apenas dez por cento da população tem de se escrever de uma forma interessante para os não-católicos que não sabem nada sobre o tema. Eu tinha de falar daquilo sem parecer estar a debitar informação. É um desafio retórico e uso técnicas retóricas.

Perguntei-lhe isto porque imagino que, ao tratar matérias tão delicadas, poderia enfrentar problemas com a sua comunidade e com a sua família.
Sim. Há sempre uma certa estranheza na relação dos escritores, nomeadamente os romancistas, com as famílias.

sempre um tio ou uma tia que acabam por ler o livro.
Pois, e isso pode ser um problema porque as pessoas não lêem ficção com frequência. Ficção literária, pelo menos. E depois ficam muito chocadas.

Aconteceu-lhe?
Sim, sim. Os meus filhos nunca discutem os meus livros comigo. Julgo que lhes causam um certo desconforto. Mas quanto a isso não posso fazer nada.

Consegue perceber o que é que lhes causa esse desconforto?
A minha filha, em especial, não aprova as referências sexuais explícitas no que eu escrevo. É um pouco contida a esse respeito.

É mais conservadora do que o pai?
Sim. É mais dos anos 50 do que eu próprio. Mas julgo que isso é bastante comum. Há sempre uma certa tensão entre a vida criativa do escritor e a família dele. Embora a minha mulher lide muito bem com a minha obra. Percebe que a minha imaginação precisa de uma certa liberdade. Ela é muito boa a deitar abaixo gente que vem com comentários intrusivos a respeito dos meus romances ou que assume que é ela a mulher retratada nesses romances. Fá-lo com muita autoconfiança e pode até tornar-se bastante agressiva. Mas com os filhos é diferente. Na verdade, os filhos sentem-se sempre um pouco embaraçados pelos pais. Esse embaraço, no que diz respeito a questões sexuais, é absolutamente natural. A minha filha quer sempre ler os meus livros o mais depressa possível para verificar o que lá está e poder preparar-se.

E as suas netas?
Não me parece que leiam os meus livros.

Não lêem ficção ou não lêem os seus romances?
Não lêem os meus romances. Lêem alguma ficção mas não muita. Em parte por estarem mais orientadas para as ciências.

Alguma vez sentiu que estava a autocensurar-se?
Sim, isso aconteceu. Houve muitas situações em que não pude inspirar-me em casos reais que, sendo reconhecíveis, teriam provocado sofrimento a alguém. Nunca quis que isso acontecesse. Alguns escritores são bastante egoístas a esse respeito, parece-me. D. H. Lawrence aproveitou de forma reconhecível episódios passados com muita gente à sua volta, causando sofrimento a essas pessoas sem se importar com isso. Eu sou bastante escrupuloso a esse respeito. Uso inevitavelmente experiências dos outros mas disfarço-as bem, espero eu.

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O primeiro volume da sua autobiografia foi publicado em Inglaterra no ano passado. Em Portugal não tem ainda editor interessado

Alguma vez teve queixas?
Aconteceu-me uma ou duas vezes. Coisas menores e normalmente por acaso. Em O Mundo É Pequeno, tive de mudar o nome de uma personagem depois da primeira edição. Usei um nome que pensava ser invulgar e que afinal era bastante mais vulgar do que eu julgava. Alguém que tinha aquele nome queixou-se e concordei em alterá-lo nas edições seguintes.

O título da sua autobiografia, Quite A Good Time To Be Born, é um título bastante optimista, embora não me pareça que o optimismo seja a sua principal característica.
Não é. Não vejo nenhuma razão para se ser optimista. Embora a humanidade tenha demonstrado desde sempre um certo engenho perante as dificuldades. Mas será possível resolver o problema das alterações climáticas? Será possível disciplinar esta caótica multidão de milhares de milhões de pessoas de modo a levá-las a agir no sentido do interesse comum? Parece-me muito improvável. Há hoje muita coisa que, ao longo deste século, a nível planetário, pode vir a correr mal: as alterações climáticas, epidemias de muitos tipos, guerras religiosas, desastres nucleares e mais umas quantas de que não me consigo lembrar de imediato. Estamos num comboio rápido, cada vez a maior velocidade, e que a qualquer momento pode descarrilar. Não é por acaso que os romances distópicos, romances pessimistas quanto ao futuro, são hoje bastante populares.

O que é que o levou a escrever sobre a sua vida?
Creio que foi o facto de não ter nenhuma ideia para um romance. Desde há muito que pensava que quando não tivesse uma ideia para um novo romance escreveria as minhas memórias. Além disso, senti que se não o fizesse agora, em breve seria tarde demais. A minha memória começa a perder-se.

Terá sido também uma espécie de ataque preventivo, antecipando-se a alguém que no futuro venha a escrever sobre si?
Sim. Quis ser eu o primeiro a pôr em cima da mesa o meu próprio registo.

Conhece bem aquilo de que os escritores são capazes, visto que já escreveu dois romances biográficos: um sobre H.G. Wells e o outro sobre Henry James.
Sim. Houve uma espécie de progressão da ficção pura para o romance biográfico até à autobiografia. Em certo sentido, é uma deslocação da ficção para os factos.

Confia mais nos factos ou na ficção?
Parece-me que há, hoje em dia, uma disposição para confiar mais na escrita factual. O que talvez seja um erro. Houve uma grande mudança geral, em termos culturais, não apenas no romance como no cinema, na televisão e no teatro. É algo que se vê cada vez mais: as formas narrativas partem de um acontecimento concreto e depois desenvolvem-no.

Por isso vemos tantas vezes a indicação: baseado em factos reais.
Exacto. Chamamos-lhe romance porque um romance tem de retratar a consciência de uma pessoa de um modo impossível para um biógrafo. Um biógrafo não tem forma de saber o que as pessoas pensaram num determinado momento, a não ser que elas tenham posto esses pensamentos por escrito. É isso que o romance biográfico faz. O que é muito diferente de uma autobiografia, onde temos todos os dados à nossa disposição.

Consegue imaginar um escritor do futuro a recriar a sua vida num romance?
Acho que não sou suficientemente importante para merecer esse tipo de atenção.

um aspecto quase complemente ausente das suas memórias: a política. Como auto-retrato político, o melhor que encontramos nela é uma descrição de si próprio, no anos 60, como “um homem monogâmico, casado, de princípios liberais, desconfiado dos extremismos ideológicos”; ainda se descreve assim politicamente?
Sim. Excepto no facto de que já não sou um católico liberal. Sou um ex-católico ou um católico agnóstico.

E em termos políticos?
Nunca me empenhei muito politicamente. Sempre votei nos trabalhistas, excepto num período em que havia uma alternativa: o Partido Social-Democrata, formado a partir de uma cisão nos trabalhistas. Sou um moderado de centro-esquerda.

Posso concluir que não tem grandes convicções políticas?
Sim. Quer dizer, acredito numa sociedade justa na qual os pobres, os deficientes e assim sucessivamente sejam protegidos. Ou seja, voto em partidos que, estando no poder, me fazem pagar mais impostos do que aqueles que pago actualmente. Estou preparado para pagar impostos por uma sociedade mais justa. Nesse sentido sou ligeiramente de centro-esquerda. Mas não sou, por natureza, um revolucionário e desconfio de todo o tipo de burocracias. Isto vem-me de um incidente, que descrevo na autobiografia, quando fui impedido de fazer um exame de admissão escolar por não ter idade suficiente para isso. Foi um acontecimento que condicionou a minha educação e é por isso que sou tão mau a línguas e só falo inglês. O problema da esquerda é que quanto mais dogmática ela é, quanto mais ideológica se torna, mais poder dá à burocracia, permitindo-lhe interferir nas liberdades individuais. É um velho dilema: como equilibrar estes dois aspectos. Por isso digo que sou apenas ligeiramente de centro-esquerda.

Na cidade onde vive, a segunda maior do Reino Unido, o resultado do "Brexit" foi 50-50; esteve tão indeciso no referendo como a sua cidade?
Não. Eu votei pela permanência. Quase toda a gente da comunidade artística e intelectual, na Grã-Bretanha, votou pela permanência.

Em Birmingham ganhou o voto pela saída por uma pequeníssima margem.
Birmingham é um cidade muito representativa do todo. Ganha sempre o partido vencedor a nível nacional mas por pouco. Foi o que aconteceu no referendo. A margem de diferença foi exactamente aquela que aconteceu no país: muito pequena.

Esperava aquele resultado?
A minha primeira reacção foi de choque, como a da maior parte dos meus amigos. Todos pensámos que as pessoas acabariam por ser convencidas pelos argumentos económicos e pelos riscos da saída. Os britânicos não costumam ser pessoas de correr riscos.

Neste mundo de hoje, tão focado na eficiência, qual lhe parece ser ainda o papel da literatura?
A maior parte da literatura tem um conteúdo narrativo. Julgo que as pessoas continuam sedentas de narrativas. Basta pensarmos na televisão, permanentemente a jorrar histórias, algumas delas apenas tolas e triviais. Mas o que isto demonstra é o apetite por ficções que, usando diferentes níveis de sofisticação, dêem às pessoas dicas sobre a vida, sobre o que é ser outro, noutro lugar, com outras experiências. Por isso, haverá sempre lugar para novas narrativas sob diferentes formas de expressão.

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Voto em partidos que, estando no poder, me fazem pagar mais impostos do que aqueles que pago actualmente. Estou preparado para pagar impostos por uma sociedade mais justa

Parece-lhe que a literatura conseguirá resistir a esse constante jorrar de histórias no cinema e na televisão?
A maior parte desses filmes e séries de televisão são baseados em romances. São eles o principal fornecedor de material. Julgo que há mais filmes baseados em livros do que a partir de guiões originais.

Portanto, não vê ameaçado o papel do escritor.
De modo nenhum. O que me parece ameaçado é a profissão de escritor. Mas as pessoas vão continuar a escrever, talvez distribuindo o seu trabalho de um modo diferente. Provavelmente na Internet. O problema é que são tantos os autores, que os bons se perdem por entre os maus. Deixámos de ter um sistema estável de distribuição da literatura que envolvia escritores, editores, agentes, livrarias. Esse modelo, que funcionou muito bem, está ameaçado. Por isso, não sabemos ainda qual será o futuro do romance literário.

tem alguma ideia para um novo romance?
Tenho uma ideia vaga, sim. Espero começar um novo romance quando terminar a segunda parte da autobiografia.

Será outro romance biográfico?
Não. Se tropeçasse num tema que me parecesse interessante voltaria a fazê-lo. Mas, para voltar ao nosso ponto de partida, o problema do romance biográfico é o facto de termos, quase sempre, de escrever acerca da vida sexual da figura em causa. E é muito difícil tratar isso com autenticidade. Os dois escritores sobre quem escrevi – Henry James e H.G. Wells – são, possivelmente por razões antagónicas, caso especiais. James porque, tanto quanto sabemos, nunca teve uma relação sexual. Era basicamente assexuado. Wells era incrivelmente promíscuo e deixou um rol de provas do que fez, do que sentia e do que o sexo significava para ele. Há muito material a esse respeito. Portanto, esses dois não me colocaram problemas mas hesitaria em relação a muitos outros. Em última instância, a vida sexual de qualquer indivíduo tem muito de secreto.

Não deixa de ser interessante, sendo alguém com uma vida sexual tão contida, como conta nas suas memórias, a importância que deu ao sexo nos seus livros.
Talvez o tenha feito nos livros por não o ter feito na vida.