Opinião

Dilema legendário

Legendagem “comum”? Só existe em cabeças sem cérebro.

Uma boa notícia pode esconder uma calamidade? Pode. A sempre atenta revista Áudio de Setembro anuncia que, finalmente, estão a ser editados filmes em 4K, o que é mesmo uma boa notícia para todos os que já terão televisores com ecrãs de ultra alta-definição (UHD), e que já começa a haver leitores de Blu-ray compatíveis com tal formato. Projectores já havia, e de boa qualidade, o que quer dizer que os portugueses cultores da imagem podem estar satisfeitos.

Ou podiam. Porque, até aqui, os novos filmes estão apenas legendados em português do Brasil. Jorge Gonçalves, o director da Áudio, indigna-se em editorial. “Até tenho medo de perguntar se o português vai fazer parte das línguas legendadas nos discos 4K.” Provavelmente, ancorados no chamado “acordo ortográfico”, vão achar que português só há um e que não vale a pena o esforço de duplicar legendagens. Enganam-se. Vejam-se alguns exemplos soltos de Blu-rays mais antigos, onde há dupla legendagem (“Português” e “Brasileiro” [sic]). Invictus, de Clint Eastwood, sobre Mandela: PT, “Nem um dia em funções e já o atacam”; BR, “Nem um dia no cargo e já estão no seu pé”; PT, “Brenda, arranjou o cabelo. Gosto dele assim”; BR, “Brenda, você fez o cabelo. Gostei.” Hitchcock, o biopic com Anthony Hopkins: PT, Então, diz-me lá, em que estás a trabalhar agora?” BR, “Me diga, em que está trabalhando ultimamente?”; PT, “Já vi rostos mais felizes num autocarro de escola a desmoronar-se”; BR, “Vi mais sorrisos em um ônibus escolar caindo de um precipício.” E este diálogo entre M e Bond no penúltimo 007, Skyfall? PT, “Onde raio tem estado?” “A desfrutar a morte”; BR, “Por onde andou, poxa?” “Curtindo a morte.” Ou então este diálogo no 2001 de Kubrick: PT, “Papá!” “Como estás, boneca, o que estavas a fazer?” “A brincar” “Onde está a mamã?” “Foi às compras”; BR, “Papai!” “Como vai, sapeca?” “Bem” “O que está fazendo?” “Brincando” “Onde está mamãe?” “Foi fazer compras.”

Exemplos haverá milhões. Legendagem “comum”? Só existe em cabeças sem cérebro. Portugueses e brasileiros têm direito às suas expressões. Respeitem-nos.