Na rota do alheio

No distrito de Aveiro, ainda se pode fugir à rota urbana dos moliceiros e ovos moles para encontrar ninhos de gaivotas e caranguejos que picam os pés. São as voltas da bateira pelos contornos murtosenses da ria.

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Adriano Miranda

 Abílio Fonseca é bom de mãos. Com a esquerda, segura o guiador da bicicleta; na direita, transporta uma bóia laranja, do moliceiro para a bateira que nos espera no pontão oeste do Cais do Bico. A Murtosa é um dos concelhos com mais utilizadores de bicicletas em Portugal. “A média é de 17%, enquanto no resto do país não chega a meio por cento”, segundo o vereador Januário Cunha. E o pedal estende-se às redes e barcos. Entre os pouco mais de 10.000 habitantes do concelho, 500 famílias vivem exclusivamente da pesca. Por isso, a vida são pontões, peles morenas e rijas. Mais: “Um verdadeiro murtosense tem de gostar de enguias”, continua o autarca.

Não perguntamos, mas Abílio gosta de enguias de certeza, coisa que não há no caminho que nos espera. “Não sei para onde vamos”, confessa o barqueiro, enquanto organiza os coletes sobre a madeira. Ao lado, balançam a Isabel, a Bianca, o S. Paio, o Camarão. “Ó Jorge! Vai buscar um cigarro à minha bateira!”, pede um rapaz mergulhado na ria, de óculos de sol espelhados, depois do centésimo salto do Verão.

Para onde queremos ir? Não há rota. É ver o que traz a maré enchente, que há tempo e sol para percorrer parte dos 40 quilómetros da laguna. Um salto para As Netas e somos nós e ela, sem corrimões nem parapeitos. “No meu barco, nada de botar a mão à água, que pode ser perigoso”, avisa o guia. E esse é o maior entusiasmo a bordo do barco pesqueiro típico da região, a bateira: o da entrega ao que daqui vier, em modo primitivo, rente à vida aquática.

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Nascer na proa

Foi na altura em que a ria de Aveiro transbordava de barcos — “só moliceiros eram 1800” —, que Abílio veio à superfície pela primeira vez (em 1937), filho de pai que ia ao moliço e mãe “camarada”, num dia de transporte de milho e chicória da Vagueira para Ovar. “Nasci numa proa igual àquela”, aponta para o moliceiro de um colega. É uma das muitas com dizeres ordinários e extraordinários inscritos pelos mestres pintores da região. Um deles até é apropriado à conversa: “Ela encheu num instantinho”, lê-se, como legenda da figura de uma mulher grávida em frente a um miúdo que dá ar aos pneus da bicicleta. 

Longe de brincadeiras, Abílio não tardou a andar no moliço (enquanto este existiu, até ao final dos anos 1970), foi também ao bacalhau. Esteve emigrado, em França e na Alemanha, e quando voltou, em 1985, a prioridade foi comprar um barco. Não quer deixá-los por nada. “É uma tradição e é o que eu gosto.” Uma vez que a pesca e o moliço pertencem ao passado, dedica-se ao plano turístico, na Murtosa, onde tem apenas um concorrente, ao contrário do que acontece nos sobrelotados canais urbanos de Aveiro.

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A proa aponta para a Torreira, onde fica o mar. “Em qualquer lado a gente apanhava centenas de quilos de enguias, solha, linguado, tudo, porque havia moliço” — “a ria era um jardim”, contou-nos antes José Rito, construtor de barcos na Torreira —, mas a subida das águas marítimas e as alterações estruturais da ria (algumas de causa natural, outras relacionadas com a extracção de areia e com construções humanas) confundiram o ecossistema, que se tornou mais salgado e turvo. Há lugares onde a profundidade atinge 12 metros, mas mesmo assim há línguas de areia por onde passeiam homens de calções, contemplativos, ou estacionam barcos mariscadores enquanto os ancinhos (cabritas, na gíria) puxam amêijoa e berbigão para uma rede. “Olhem ali um… Anda cá! Não fujas! Deve estar com medo da Polícia Marítima”, indaga o navegante. Motor ligado, alguns dedos ao leme, outros ao bolso. Abílio Fonseca é bom de mãos. 

Em minutos sabemos que está tudo legal. As medidas batem certo, as licenças também. Caso contrário, “as multas vão de 599 euros a 37 mil”, conta Jorge (nome fictício). Até às quatro da tarde, apanhou algum marisco. Por hoje chega, embora este ano esteja mais fraco. Encostamos a madeira d’As Netas à fibra da lancha como quem encontra o vizinho ao virar da rua. “Os árabes têm o petróleo; nós temos o marisco”, remata Abílio Fonseca. Conhecer a ria, afinal, é pôr a conversa em dia com quem surge pelo caminho. 

Prossigamos, entre salpicos e o sol que bronzeia. Na ilha da Testada, à direita, viviam 12 famílias e havia uma capela. “Iam buscar um padre todas as semanas para rezar a missa.” Sobraram algumas árvores e as ruínas do catolicismo. “Agora a água é salgada”, explica Abílio, contando que antes até havia ovelhas entre os canais.

Mas para onde vamos, senhor Abílio? Salreu, Cacia, Rio Príncipe, Ovar, Póvoa de Paço, Aveiro, Gafanha da Nazaré, Vagos, Costa Nova, São Jacinto. Não faltam canais à ria para explorar. Ao fundo, vê-se o farol da Barra de Aveiro. Quanto mais perto dele, mais forte sopra o vento. Telemóvel na orelha esquerda para marcar novo passeio (o nosso guia é parceiro de universidades e unidades hoteleiras), braço ao longo da vara. Abílio Fonseca continua bom de mãos. O que ainda não tínhamos dito é que, na Murtosa, é conhecido como “carteirista”. “É verdade, sim senhor. E não me ofende”, nota. Mas nós já assentámos pernas em terra e as carteiras estão intactas. “Nada disso!”, ri-se o murtosense. “O meu pai é que era muito irrequieto e, quando era novo, na escola, andava sempre a saltar de carteira em carteira. O nome passou para mim…” Afinal, Abílio também deve ser bom de pés.

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Adriano Miranda

No próximo sábado série Por este rio acima navega no rio Douro.