É a primeira bolsa europeia para a história da cartografia. E vem para Portugal

Mais de um milhão de euros acabam de ser atribuídos a Joaquim Alves Gaspar pelo Conselho Europeu de Investigação, ou ERC. É uma das cobiçadas bolsas europeias, selo de qualidade. O dinheiro destina-se ao estudo de cartas náuticas antigas, usando métodos inovadores.

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O investigador Joaquim Alves Gaspar DR

Joaquim Alves Gaspar tem uma história pessoal curiosa, como se tivesse tido uma vida antes e agora outra. Foi mesmo por aí – apresentando-se – que começou a exposição do seu projecto científico a um júri do Conselho Europeu de Investigação (ERC), em Bruxelas. “Sou comandante da Marinha Portuguesa, reformado ao fim de 36 anos de serviço. Além da actividade operacional, parte significativa da minha carreira foi dedicada a assuntos técnicos e científicos, nomeadamente no Instituto Hidrográfico português e na Escola Naval”, disse às 16 pessoas do júri que tinha à frente, em Junho. “Em 2002, reformei-me para começar uma carreira na investigação.” A nova vida de Joaquim Alves Gaspar ganhou agora um estímulo de peso, ao ser-lhe atribuída a bolsa ERC a que se tinha candidatado – 1,2 milhões de euros – para o estudo de cartas náuticas medievais e do Renascimento, ao longo de cinco anos.

Tem agora 67 anos. Depois de passar à reserva em 2002 (para ser mais exacto), aos 53 anos, Joaquim Alves Gaspar quis estudar mais. Licenciado em ciências militares na Escola Naval, com um mestrado em oceanografia física pela Naval Postgraduate School em Monterey (nos EUA) e especializações em navegação, hidrografia e cartografia matemática, foi fazer, em 2004, uma pós-graduação em ciência e sistemas de informação geográfica na Universidade Nova de Lisboa, e ficou interessado pela história da cartografia. “Apercebi-me de que o estado da arte nos aspectos ligados à construção e ao uso de cartas náuticas antigas era extremamente pobre. Pior ainda, era afectado por graves concepções erradas originadas por não se terem em conta princípios essenciais de navegação e cartografia”, explicou aos membros do júri, a quem mostrou uma fotografia do navio militar onde foi navegador pela primeira vez, nos anos 70.

E ainda que diferentes, e sucedendo-se, a vida anterior de Joaquim Alves Gaspar como oficial superior da Armada (é capitão-de-mar-e-guerra) e a nova vida como investigador têm pontos de contacto. Porque, antes de mais, o Instituto Hidrográfico é a instituição responsável por produzir as cartas náuticas dos dias de hoje, ainda que Joaquim Alves Gaspar não estivesse lá directamente ligado à sua produção (chefiou o Centro de Dados Oceanográficos e a Divisão de Navegação e comandou a frota de navios hidrográficos).

E, também, porque a sua actividade profissional como navegador e comandante de navios lhe deu experiência no uso operacional das cartas náuticas e motivou-o para escrever dois livros sobre esse tema, Cartas e Projecções Cartográficas (2000) e Dicionário de Ciências Cartográficas (2004). “Sempre me interessei pela cartografia – em particular pela cartografia matemática [relativa aos aspectos ligados à concepção e construção das cartas] –, que está muito imbricada na navegação”, resume.

A partir de 2006 passou do interesse pela história da cartografia para a investigação propriamente dita nesta área. Era como investigador que queria olhar para as cartas náuticas do passado, e a sua experiência de navegação era valiosa. “Esse foi o pecado capital dos historiadores do passado: olharam para as cartas náuticas antigas e não as entenderam”, nota. Entre 2006 e 2010, na Universidade Nova de Lisboa, dedicou-se então à sua tese de doutoramento Da carta-portulano do Mediterrâneo à carta de latitudes do Atlântico: Análise Cartométrica e Modelação. Para este trabalho, desenvolveu novas ferramentas de análise cartométrica e de modelação numérica e aplicou-as a cartas antigas.

A seguir ao doutoramento, foi convidado para fazer parte do (agora) Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT), no pólo na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Renascia agora como historiador da ciência. É aí que se mantém ainda hoje.

Ferramentas “poderosas” 

A atribuição desta bolsa europeia tem alguns “inéditos”. “A nível internacional, é o primeiro projecto ERC especificamente dedicado à história da cartografia. Um dos seus objectivos é precisamente dinamizar a disciplina e colocá-la no âmbito mais geral da história da ciência, o que foi entendido pelo painel de avaliação”, sublinha.

“A nível nacional, é o primeiro projecto da FCUL, em todas as áreas, aprovado pelo ERC”, prossegue Joaquim Alves Gaspar, que realça ainda dois aspectos da bolsa. “O efeito dinamizador que terá, desejavelmente, na FCUL e junto dos investigadores que se dedicam à história da cartografia. E o facto de este projecto colocar Portugal, e a cartografia portuguesa antiga, na primeira linha da investigação internacional.”

Para chegar a uma das bolsas ERC, criadas pela Comissão Europeia e sinónimo de financiamento milionário e selo de qualidade, Joaquim Alves Gaspar já teve de ter dado algumas provas. Ao júri, além da criação das “poderosas” ferramentas para o estudo de cartas antigas, o investigador mencionou alguns resultados da sua aplicação a cartas do início da modernidade, como os planisférios de Cantino (de 1502) e de Juan de la Cosa (de cerca de 1500).

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Planisfério de Cantino, elaborado em 1502 por um cartógrafo português desconhecido Biblioteca Estense Universitária de Modena, Itália

O que permitem então fazer essas ferramentas? “As ferramentas de análise cartométrica destinam-se a analisar a geometria das cartas, e o modelo numérico a simular a sua construção”, explica-nos. “A caracterização da geometria das cartas permite tirar conclusões sobre os métodos de construção, a sua exactidão e, em alguns casos, sobre a informação utilizada. Por exemplo, é possível identificar no planisfério de Cantino as missões de exploração que estiveram na base do desenho da costa de África”, especifica. “O modelo numérico baseia-se nas descrições das fontes textuais, que explicam como eram feitas as cartas, e usa informação de navegação (direcções, latitudes e distâncias) para simular a sua construção, tal como se fazia na época.”

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Simulação da geometria do planisfério de Cantino DR

Sobre o planisfério de Cantino, na entrada do dicionário de Joaquim Alves Gaspar sobre ciências cartográficas, podemos ler que é uma “carta elaborada por um cartógrafo português desconhecido, em 1502, e levada para Itália por um agente do duque de Ferrara, Alberto de Cantino”. Mais: “Trata-se da primeira carta antiga a reflectir as descobertas do fim do século XV no continente americano, separando-o claramente da Ásia, bem como a viagem de Vasco da Gama à Índia, muito embora esta última só viesse a ser publicamente divulgada em 1506”, escrevia o autor no seu dicionário de 2004. “É de realçar a notável exactidão com que a costa africana se encontra representada, indicação segura de que os resultados dos trabalhos hidrográficos, aí realizados pelos portugueses no final do século XV, foram utilizados.”

Ainda sobre o planisfério de Cantino, agora o investigador realça que a análise cartométrica já possibilitou “descobertas importantes”: “Por exemplo, toda a costa de África se baseia em observações astronómicas de latitude dos lugares. Provei que, de facto, esta carta foi baseada em observações astronómicas. É a carta de latitudes mais antiga que se conhece”, diz. “Ou que os erros cometidos pelo cartógrafo parecem negar a tese de que a carta foi copiada do padrão real, um modelo cartográfico de onde as outras cartas eram todas copiadas e que era melhorado à medida que chegavam novas informações das descobertas.”

Quanto ao planisfério de Juan de la Cosa, navegador espanhol que acompanhou Cristóvão Colombo nas suas viagens, a partir de 1492, essa é a carta que representa pela primeira vez a América. Neste caso, as Antilhas, onde Cristóvão Colombo tinha chegado em 1492. “Mostrei que o planisfério de Juan de la Cosa não se trata de uma carta de latitudes, como os historiadores espanhóis afirmavam. Mas que é uma carta baseada nos velhos métodos utilizados para fazer as cartas o Mediterrâneo – isto é, baseadas em rumos e distâncias estimadas.”

O magnetismo de Luís Teixeira

Além dos planisférios de Canino e de Juan de la Cosa, os novos métodos vão ser aplicados a um grande número de cartas náuticas, de vários períodos e origens, para se construir uma imagem histórica mais fina do nascimento, da evolução e do uso destas cartas entre os séculos XIII e XVI. Embora não tenha uma lista exacta, o historiador da ciência tenciona estudar à volta de uma centena (“a maior parte será analisada através das suas imagens digitais de alta resolução, e algumas, que estão em França, Itália, Alemanha, Estados Unidos ou Reino Unido, terão de ser analisadas in situ”).

É provável que na lista venha a estar a carta náutica mais antiga que se conhece – a carta pisana (assim designada por ter sido encontrada na cidade de Pisa), do final do século XIII. Esta carta do Mediterrâneo e de parte da costa atlântica até à Flandres, em pergaminho, encontra-se em Paris, na Biblioteca Nacional de França. A data em que foi construída tem sido alvo de grande debate. Datações por radiocarbono recentes (as primeiras), por uma equipa da Biblioteca Nacional de França, ainda não resolveram o mistério de vez. Confirmou-se, ainda assim, que o animal (cabra ou ovelha) cuja pele serviu para fazer o pergaminho morreu por volta de 1230 a 1250.

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A carta pisana, do final do século XIII, é carta náutica mais antiga que se conhece Biblioteca Nacional de França

Mas a carta pisana terá sido construída mais tarde. “Ainda não é completamente claro, mas não pode ter sido feita antes de 1270, por razões históricas”, explica Joaquim Alves Gaspar. As razões históricas são a referência a uma cidade na carta – Palamós, em Espanha – que não existia antes de cerca de 1270. Seja como for, o hiato temporal entre a morte do animal e a construção da carta pisana continua a causar estranheza por não ter sido logo usado, visto que o pergaminho era um material caro.

Outra das cartas a que Joaquim Alves Gaspar poderá “voltar” é a carta mais antiga conhecida com linhas a representar o magnetismo da Terra. Já a tinha estudado em conjunto com outro colega do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia, o historiador Henrique Leitão. O que os dois descobriram foi precisamente que esta carta – feita pelo cartógrafo português Luís Teixeira, entre 1572 e 1592 – tem linhas isogónicas, que representam num local a declinação magnética (a diferença em graus entre o norte magnético e o norte geográfico). Ora a carta de Luís Teixeira (para uma zona do Pacífico) foi feita mais de um século antes da carta com linhas isogónicas de Edmund Halley (para o Atlântico, por volta de 1700), geralmente considerada na literatura científica a primeira do género. Em mau estado de preservação, a carta de Luís Teixeira está no Museu de Marinha, em Lisboa.

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A carta mais antiga com linhas do geomagnetismo feita pelo cartógrafo português Luís Teixeira, entre 1572 e 1592 Museu de Marinha, Lisboa

Agora os 1,2 milhões de euros da bolsa vão permitir criar um grupo de trabalho de sete pessoas dedicado às cartas náuticas antigas. A Joaquim Alves Gaspar, o investigador principal do projecto, juntar-se-á Henrique Leitão como investigador sénior e irão recrutar-se outros quatro investigadores e um gestor de projecto. “Espero cativar pessoas multidisciplinares”, diz Joaquim Alves Gaspar. Até porque ele próprio esteve durante dois anos a aprender latim, para poder ler muitas das fontes históricas.

Além dos métodos cartométricos e de modelação numérica, complementados com os métodos tradicionais de investigação histórica, no projecto irão submeter-se as cartas náuticas a análises multiespectrais. A ideia é ver o que está por baixo do que é visível aos nossos olhos: “Para saber se um pergaminho, que era caro, é um palimpsesto: se já tinha sido usado antes, foi raspado e usado outra vez. Saber o que está debaixo da sujidade. E ver as marcas de construção ou uso de uma carta.”

No comentário ao projecto, o painel de avaliação considerou-o “de grande importância” e “altamente inovador”, dizendo que poderá contribuir não só para a investigação da construção de mapas mas também para a própria história da ciência e do conhecimento.

Em resultado desta avaliação, aos 67 anos Joaquim Alves Gaspar vai ter uma bolsa que costuma ser atribuída a jovens investigadores, doutorados no máximo há sete anos, para criarem o seu grupo de investigação (uma starting grant, ou subvenção de arranque). Assim começa uma nova etapa da vida de Joaquim Alves Gaspar. “Estou radiante. Mas, ao mesmo tempo, sinto o peso da responsabilidade.”