“Vivi em resignação quanto à pobreza até que descobri o sentido da dignidade”

Eugénio Fonseca é o presidente da Cáritas Portuguesa. Nascido numa família pobre, aceitou durante muito tempo a fatalidade da sua condição, incomodando-se com aqueles que se revoltavam e faziam demasiadas perguntas. O “bispo vermelho”, um semáforo e uma mulher digna mudaram-lhe a vida.

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Rui Gaudêncio

Não sei o dia preciso em que a minha vida mudou, mas sei o local exacto onde isso aconteceu, há 30 anos. Pediram-me que fosse buscar o bispo Manuel Martins ao aeroporto e no regresso pela Avenida do Brasil parámos num semáforo em frente à porta do hospital psiquiátrico Júlio de Matos. O sinal vermelho estava aberto e o bispo disse-me que queria convidar-me para assumir a responsabilidade da Cáritas Diocesana de Setúbal. Eu disse-lhe que não percebia nada daquilo, que era demasiado novo. Setúbal vivia nessa altura uma crise gravíssima que afectou tragicamente muitas famílias. A resposta dele deixou-me confuso, mas ao mesmo tempo fez-me dizer-lhe que sim: ‘É precisamente por não perceberes que te convido. Não sabendo o que fazer, vais ousar fazer diferente.’ 

Eu nasci numa família de classe média muito baixa, pai pescador, mãe operária conserveira, cama partilhada com o irmão mais velho. Sabia o que era não ter um brinquedo como o do colega, ter um livro no qual não podia riscar (hoje, livro que me caia nas mãos é sempre martirizado por uma caneta), não vestir roupa nova porque tinha de vestir a do meu irmão, estrear o primeiro fato no baile de finalistas do liceu. E sentia a dureza da vida dos meus pais, transmitida pelas lágrimas que lhes corriam nos olhos, pelos comentários mais revoltosos contra a forma como eram tratados. Contra o mar, que tinha tanto de belo como de perigoso. Nas noites de tempestade, era uma verdadeira alegria quando ouvíamos bater à porta, sinal de que o meu pai não tinha saído com o barco. Durante muito tempo olhei para a condição da minha família como uma fatalidade. Os meus pais diziam-me: ‘Não tivemos tanta sorte como os outros’, ‘Há que aceitar.’ 

Mas houve um momento em que essa fatalidade foi interrompida. A professora primária do meu irmão descobriu que ele tinha índices cognitivos acima da média e achava que era uma pena que fossem postos de lado. O normal para o filho de um pescador, a ambição possível, era ir para o mar, deixar de trabalhar por conta do mestre, comprar o próprio barco e uma casa no bairro. A minha mãe interiorizou o desafio e com o meu pai investiram na formação do meu irmão. O meu irmão ia recebendo bolsas de estudo e lá em casa as despesas acrescidas eram colmatadas pelos apoios assistencialistas dos grémios das associações profissionais.

Como qualquer jovem, fui tendo as minhas dúvidas sobre a existência de Deus, mas encontrei sempre na comunidade cristã um espaço que completava o espaço da família. Assim que o meu irmão começou a avançar nos estudos, entrou em conflito com a religião. Confrontando aquilo que ele sabia das práticas da nossa infância com os estudos académicos, passou a interpretar a religião como um factor de resignação que nos leva a aceitar o mal da vida com paciência porque o prémio viria depois, numa outra existência. Em determinada altura, acho que ele olhava para mim como um pobrezinho que andava com os padres, coisa de gente pouco culta. Quando conversávamos sobre isto, ele fazia-o com escárnio. 

A mim incomodavam-me os sentimentos de revolta do meu irmão. E os sentimentos de revolta de outros pobres. Eu achava que se aquela era a nossa condição não nos restava mais nada a não ser aceitar. Apesar de eu ter continuado os estudos, durante muito tempo não questionei, aceitei tudo. 

Até ao semáforo.

Não foi fácil. Nem imediato. Tive de aprender a viver com outro olhar porque as viragens não são mágicas. São aprendizagens. Cheguei a pertencer a organizações caritativas da Igreja em que, para serem classificadas como pobres, as pessoas tinham de viver em barracas, de se vestir mal, de ter comportamentos menos sociáveis. E na Cáritas comecei por fazer como antes – pensava pelas pessoas, decidia o que tinha de fazer e entrava nas casas dos pobres a dar ordens. Nem me chocavam as histórias pessoais porque partia de uma posição moralista. Ouvia e dizia: ‘Fala isto e faça o outro.’ Era assim que as assistentes sociais, as meninas do inquérito, faziam quando iam à minha casa saber da pobreza dos meus pais…

Um dia, uma jovem muito maquilhada e bem vestida dirigiu-se a uma das sessões de atendimento para pedir dinheiro para comprar uma lata de leite em pó NAN porque ela e o marido tinham ficado desempregados. Do alto do meu poder, ao ter diante de mim uma pessoa tão frágil, não disse àquela mulher se lhe dava ou não o dinheiro. ‘Tem de pensar as suas opções de vida.’ ’Não pode gastar dinheiro nessas coisas que mete na cara.’ ‘Não pode ir à cabeleireira.’ Ela levantou-se de repente da cadeira, olhou-me de cima para baixo e disse-me: ‘Não vim aqui para receber lições. Tenho o meu filho pequenino com fome e precisava da vossa ajuda. Como não têm ajuda para me dar, mas lições, não quero que me dêem nada.’ 

Quando ela me olhou, senti que o meu poder era um engano. Foi uma mulher com grande dignidade. Percebi naquele momento que se tivesse vivido toda a vida como aquela mulher talvez tivesse tido um crescimento interior mais tranquilo. A viragem que começou na minha vida em frente àquele semáforo e que o meu irmão tinha completado anos antes ficou concluída naquele dia. Descobri o sentido da minha dignidade naquele dia.

Mas não me afastei de Deus, como o meu irmão. Fui estudar Teologia e no estudo percebi que o cerne da religião não era o mesmo do da religiosidade. Ser religioso e ser crente é apostar no respeito e na defesa da dignidade de todos os seres humanos. Até aí não tinha percebido que o bispo de Setúbal me tinha colocado numa posição de defender os direitos das pessoas e levá-las a conhecerem os seus direitos para elas próprias lutarem por eles. Em frente àquele semáforo fui posto num ângulo para olhar a realidade de outra forma. Hoje vejo que foi ali que comecei a criar espaço dentro de mim para perceber que não estava a seguir Cristo pelo caminho certo. Até ao semáforo eu seguia a norma, o rito, andava por onde me mandavam. Hoje sei a quem sigo.

Depois de estar nesse ângulo de visão, não voltei a ir ao encontro dos pobres com uma mensagem de resignação – ‘Tome lá e diga obrigado e seja bonzinho para merecer aquilo que lhe estamos a dar.’ Esta viragem tornou-me a vida menos tranquila em termos de tempo, de confronto de ideias, de suspeições. Há muitas vozes dentro da Igreja que têm de lidar com isto. Chamavam a Manuel Martins o bispo vermelho, este Papa para muitos também é comunista. Dom Hélder Câmara disse-o bem: ‘Quando eu dava comida aos pobres, diziam que eu era muito bonzinho. Quando passei a perguntar aos pobres por que eram pobres, perguntaram-me se eu era comunista.’ Eu sou muitas vezes apontado como sendo de esquerda. Porquê tudo isto se o Evangelho existe antes d’O Capital de Marx?

Quando o meu irmão vai jantar a minha casa, já não ataca as pessoas da Igreja. Agora faz perguntas, põe muitas questões. Houve uma aproximação mútua – fui mais para o lado dele e ele tem vindo a aperceber-se de que a religião não é só cumprir ritos e promessas. Ele já não pensa como pensava e eu mudei. Sou mais tolerante, sou capaz de dialogar com gente que pensa de forma diferente. Antes do semáforo, essas pessoas eram inimigas. Já não volto ao tempo antes do semáforo, mas enquanto cá estiver muitas outras mudanças vão acontecer na minha vida. 

Abençoado semáforo. A minha vida tem sido uma loucura desde que fiquei parado no sinal vermelho em frente ao Júlio de Matos. Mas foi uma loucura sadia aquela que se apoderou de mim.