Um arquivo digital para mergulhar na Bauhaus

A Universidade de Harvard decidiu pôr à disposição dos que visitarem a página dos seus museus na Internet uma base de dados que reúne as mais de trinta mil peças e documentos relativos a esta influente escola de arte e arquitectura alemã que tem nas suas colecções.

Foto
Walter Gropius, Béla Bartók e Paul Klee (c. 1927), na Alemanha Harvard Museums

São precisamente 32692 fotografias, pinturas, desenhos, gravuras, têxteis e publicações periódicas e fazem parte das colecções do museus e arquivos da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Agora estão também disponíveis online, numa base de dados que esta universidade americana acaba de lançar e que serve também de aperitivo para a exposição com que vai festejar, em 2019, o centenário da Bauhaus, a escola alemã que marcou a arte e a arquitectura do século XX.

A nova ferramenta digital, alojada no site dos Museus de Harvard, permitirá a um público alargado ficar a conhecer melhor esta escola-movimento cuja influência ainda hoje é evidente.

Activa durante a República de Weimar (1919-1933), instalada no pós-Primeira Guerra e vigente até à chegada dos nazis ao poder, a Bauhaus foi fundada sobre uma utopia – a de que é possível reunir artistas, arquitectos e artesãos para desenhar um mundo novo, partilhando experiências e combinando o que havia de mais visionário com o “saber fazer” que a tradição acumulara ao longo de gerações. Uma utopia com um forte sentido de comunidade a que modernistas como Josef e Anni Albers, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Oskar Schlemmer e Walter Gropius, que nela foram professores, souberam dar corpo.

Indisponíveis para viver e trabalhar dentro das imposições da elite nazi recém-chegada ao poder, alguns deles, como Josef Albers e Gropius, o seu fundador, refugiaram-se nos Estados Unidos, onde continuaram a dedicar-se à actividade docente, sem que a academia os impedisse de seguir o seu caminho como criadores. O primeiro, que deu aulas nas universidades de Black Mountain, Harvard e Yale, continuou a sua investigação à volta da cor, em séries de pintura seminais como Homenagem ao Quadrado; o segundo, que conduziu os destinos da escola alemã até 1928, não deixou de desenhar edifícios embora as suas energias se concentrassem sobretudo na direcção do departamento de Arquitectura de Harvard, onde começou a leccionar em 1937. Os Estados Unidos acolheram-nos bem e, sobretudo, acolheram bem as ideias transgressoras da Bauhaus.

Não é por acaso, lembra a Harvard Gazette, que Harvard tem hoje uma das maiores colecções de peças e documentos ligados àquela que na introdução do novo arquivo online define como “a mais influente escola de arte e design do século XX”. “Tanto durante como depois da sua breve existência na Europa [durou apenas 14 anos], Harvard foi um lugar chave para a recepção, documentação e disseminação das ideias da Bauhaus”, disse ao jornal da universidade Robert Wiesenberger, curador e coordenador científico da base de dados. Foi em Harvard, lembrou, que se fez a primeira exposição dedicada a esta escola alemã nos Estados Unidos, logo em 1930.

A riqueza deste centro de informação digital, onde se podem encontrar fotografias que Albers tirou nas praias de Biarritz, outras em que Gropius está ao lado de Klee e do compositor húngaro Béla Bartók, e outras ainda que parecem saídas de um catálogo de mobiliário, com cadeiras desenhadas por Marcel Breuer ou Ludwig Mies van der Rohe, reside, garante Wiesenberger, na sua capacidade de cativar um público muito diversificado: “Queremos que atraia todos os públicos. Se nunca ouviu falar da Bauhaus pode usá-lo. Se está a escrever uma tese sobre a Bauhaus é muito provável que aqui encontre novos e ricos materiais. Cem anos depois, a importância da Bauhaus mantém-se intacta.”

Harvard tem prevista para o centenário da escola alemã uma exposição que realça a ligação entre as duas, seguindo as ramificações que foi deixando na arte e na arquitectura, nos meios de produção industrial e fora deles, na forma como se ensina e como se aprende.