“Haverá filmes lusófonos na programação”

O Festival Internacional de Cinema de Macau terá filmes de Portugal e de outros países de língua portuguesa já na primeira edição, garante o director Marco Müller.

O Festival Internacional de Cinema de Macau terá filmes de Portugal e de outros países de língua portuguesa já na primeira edição, garante o director, Marco Müller.

“Estou a prestar atenção não apenas às novas obras mais entusiasmantes do cinema português, e não apenas aos cineastas que já têm alguma relação com Macau, mas também a projectos lusófonos sobre a Ásia”, diz Müller. “Há tantos projectos, não apenas de Portugal e do Brasil, mas também da África lusófona. Ainda tenho de reunir com os cineastas, mas neste momento nas minhas notas tenho seis projectos lusófonos que gostava que estivessem no ‘project lab’”, acrescenta. A ideia é que estes projectos possam conseguir financiamento na Ásia. “Para existirem, esses filmes precisam de parceiros neste lado do mundo. Esta será uma plataforma para que possam encontrar os parceiros certos.”

Marco Müller, fluente em português, conta que “desde o primeiro dia que a Associação de Cultura e Produções de Filmes e Televisão de Macau e o Turismo de Macau [organizadores do festival] frisaram que não se pode esquecer o cinema lusófono e português”. Uma delegação oficial visitou Lisboa no mês passado, para desenvolver contactos e assistir a algumas projecções de filmes.

A relação de Müller com o cinema português é antiga. Quando terminou as suas explorações das cinematografias asiáticas, no final dos anos 1980, regressou à Europa. “Precisava de encontrar um tipo de cinema que não funcionasse de acordo com os cânones, qualquer coisa que fosse tão excitante como o cinema do extremo oriente. E é assim que a minha relação com o cinema português começa.” Luís Mergulhão era então presidente do Instituto do Cinema e do Audiovisual, e “muito generosamente” abriu as portas do arquivo a Müller. “Foi uma outra completa imersão, muito interessante, senti algo semelhante às minhas experiências na China e na União Soviética, porque insisti em também ver os filmes feitos antes de 1974. Estávamos em 1988 e que alguém estivesse tão obcecado com os filmes feitos durante os anos de Salazar era algo que deixava as instituições curiosas. Ainda me lembro de descobrir as curtas que o [João] César Monteiro fez com a cumplicidade da sua companheira à data, a Margarida Gil. Era um cinema que tinha uma relação muito especial e fascinante com a literatura. Eram muito mais do que apenas adaptações, era uma forma de tentar encontrar o nível certo de infidelidade, de como uma ideia política vinda da literatura podia ser partilhada.”

O homem fundamental na viagem de Marco Müller pelo cinema português foi Paulo Rocha, “o mais ‘asiático’ de todos” os cineastas portugueses, nas palavras do programador. “Através do Paulo descobri a pintura portuguesa. Nessa altura também me encontrava com o [Manoel de] Oliveira regularmente e ele disse-me que eu tinha de conhecer as pessoas da Fundação [Calouste] Gulbenkian. Se estava interessado no modernismo e em pessoas como [Amadeo de] Souza Cardoso, essas eram as pessoas que tinha de conhecer”, lembra.

Agora, Müller quer continuar a mostrar o melhor da produção lusa. Marie-Pierre Duhamel, consultora internacional do festival de Macau para a Europa, “estará atenta ao cinema português, ela conhece toda a gente”, refere o director. “A programação de um festival necessita de um equipamento muito especial, uma espécie de sismógrafo, porque o sismógrafo é capaz de registar movimentos subterrâneos antes do grande tremor de terra. Sempre senti que precisava de pessoas assim e todos os consultores do festival são uma espécie de sismógrafos andantes.”