Vendida como ideal da mulher ariana, Magda Goebbels era filha de pai judeu

Um atestado de residência do comerciante judeu Richard Friedländer prova que este era o pai biológico da mulher de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler.

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Magda e Joseph Goebbels com os filhos. Da esquerda para a direita: Helga, Hilde, Harald Quandt ( o filho do primeiro casamento, de uniforme), Hellmut, Holde, Hedda e Heide Ernst Sandau / Ullstein Bild via Getty Images
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Magda Goebbels com Hilde e Helga em 1935 Ullstein Bild via Getty Images
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Uma foto da cerimónia de casamento de Joseph Goebbels com Magda Ritschel George Rinhart/Corbis via Getty Images
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A família Goebbels com Hitler Heinrich Hoffmann/Ullstein Bild via Getty Images

Magda Goebbels, casada com o poderoso ministro do III Reich, íntima de Hitler, a mulher que a propaganda nazi apresentava como modelo da mulher ariana, era filha de um judeu, noticiou o jornal alemão Bild, divulgando um documento que demonstra que o pai biológico da mulher de Joseph Goebbels era Richard Friedländer, que veio a morrer em 1938 no campo de concentração de Buchenwald.

Descoberto casualmente num arquivo regional berlinense pelo historiador Oliver Hilmes, conhecido pelas suas biografias de Cosima Wagner e Alma Mahler, o documento revelado pelo Bild na sexta-feira passada é um atestado de residência do comerciante judeu Richard Friedländer, no qual este declara que “Magdalena, nascida a 11 de Novembro de 1901” é sua “filha carnal”.

Que a superariana Magda Goebbels, a mulher que quis partilhar o destino do Führer até ao fim e se suicidou com o marido no bunker de Hitler depois de ter assassinado os seus seis filhos, tivesse afinal ascendência judaica era de uma tão irresistível ironia trágica que a notícia, como seria de prever, não tardou a ser reproduzida nos principais jornais de todo o mundo.

Estranhamente, a excepção foi a própria imprensa de referência alemã, que ignorou de forma mais ou menos generalizada a notícia do Bild, talvez porque o que ali se apresentava como uma escandalosa e surpreendente revelação não era mais do que a confirmação de uma hipótese há muito dada como quase certa – o que não invalida a importância desta comprovação documental.

Em 2001, há 15 anos, num extenso artigo da Spiegel, Carlos Widmann, então correspondente da revista em Paris, já apresentava argumentos concludentes para sugerir que Friedländer era muito provavelmente o pai biológico da mulher que passou à posteridade como mulher do ministro da Propaganda nazi. E também adiantava que Friedländer morrera em Buchenwald em 1938, ignorado pela filha.

De resto, defende Widmann, Magda Goebbels não tinha apenas sangue judeu, mas estivera mesmo próxima do movimento sionista na adolescência, fascinada pelo carisma de Chaim Arlosoroff, neto de um prestigiado rabi ucraniano e um dos primeiros líderes sionistas a advogarem a criação de um Estado judeu na Palestina. Magda era amiga íntima da sua irmã, Lisa, e terá desenvolvido uma paixão adolescente por Victor Arlosoroff, o nome que Chaim assumiu na Alemanha, tendo mesmo usado durante algum tempo, garante Widmann, uma pequena corrente de ouro com uma estrela de David que lhe tinha sido oferecida pelo jovem dirigente sionista.

Arlosoroff viria a ser assassinado em 1933, num atentado geralmente atribuído a uma facção sionista rival. O investigador israelita Nachman Ben-Yehuda defende que Goebbels, que se casara com Magda em Dezembro de 1931, pode ter sabido do prévio envolvimento da mulher com Arlosoroff em 1933, quando este foi à Alemanha tentar negociar com a hierarquia nazi um acordo de transferência de judeus para a Palestina.

Atracção compulsiva

Magda Goebbels nasceu a 11 de Novembro de 1901 e foi registada com os nomes próprios Johanna Maria Magdalena e com o apelido de solteira da sua mãe, Auguste Behrendt, uma empregada de limpeza que se casaria nesse mesmo ano com o próspero industrial Oskar Ritschel. Widmann chama a atenção para o facto estranho de Ritschel, que não hesitou em oficializar a sua relação com uma mulher considerada de classe social inferior à sua, não ter assumido a paternidade de Magda, nem a ter legitimado.

A conclusão lógica era a de que Ritschel sabia que não era o pai da criança. E, nesse caso, o pai mais provável era Richard Friedländer, um comerciante judeu com quem Auguste Behrend mantivera uma relação em Berlim, e com quem viria a casar-se em 1908, quando já estava divorciada de Ritschel. Magda assume então o apelido Friedländer, mas é Ritschel quem lhe providencia uma esmerada educação católica na Bélgica.

E este acabará mesmo por lhe dar o seu nome quando Magda, aos 18 anos, decide casar-se com o industrial alemão Günther Quandt, que tinha o dobro da sua idade e era um dos homens mais ricos da Europa da época. A judia Magdalena, que se convertera ao catolicismo sob o magistério das freiras ursulinas belgas, abraçava agora o protestantismo para se casar com Quandt. Só lhe faltava uma última conversão, ao nacional-socialismo, e essa não tardaria. Se há fios condutores no atribulado percurso de Magda Goebbels são, por um lado, um extremo pragmatismo, e, por outro, uma atracção compulsiva por homens com poder.

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Cerimónia de casamento de Joseph Goebbels com Magda Ritschel. George Rinhart/Corbis via Getty Images

Em 1921, Quandt e Magda têm um filho, Harald, e o casal leva uma vida de luxo, viajando pela Europa e pela América. Mas o casamento acabará por se dissolver em 1929, e, entre os rumores sobre os motivos do rompimento, volta a falar-se da prévia relação com Chaim Arlosoroff.

O certo é que o ex-marido a deixa numa invejável situação financeira, que permite a Magda, nos anos seguintes, pavonear-se na deprimida Berlim como se fosse uma estrela de cinema. E no Verão de 1930 aterra num comício nazi no Palácio dos Desportos de Berlim e fica suficientemente impressionada para, poucos dias depois, se inscrever no partido, que começava a sua imparável ascensão.

Envolve-se nas tarefas partidárias, conhece Goebbels, e não tarda a tornar-se sua amante. O futuro ministro da Propaganda anota cuidadosamente no seu diário, numerando-as, as sucessivas sessões de sexo com Magda, que funciona também como uma espécie de secretária. Casam-se no final de 1931, em boa medida por influência do próprio Hitler, também ele fortemente impressionado por esta estranha mulher, que não terá sido propriamente, a julgar pelas fotografias, uma dessas belezas esplendorosas e consensuais, mas que parece ter conhecido a receita certa para hipnotizar homens poderosos.

“Esta mulher poderia desempenhar um grande papel na minha vida, mesmo sem ter de me casar com ela”, diz Hitler ao seu confidente Otto Wagener. Preferiu, pois, casá-la com Goebbels, e tê-la sempre por perto, recorrendo mais tarde a Eva Braun para aquilo que ele próprio designava como “determinados fins”.

Magda estava recém-casada com Goebbels quando a repórter judia Bella Fromm, que depois se exilaria nos Estados Unidos, se cruza com ela em 1932 num baile organizado pelos nazis em Berlim. “Se o rico Günther Quandt não tivesse aparecido, ela estaria hoje num kibbuz na Palestina, com uma arma ao ombro e uma passagem do Antigo Testamento na ponta da língua”, escreveu Fromm num diário depois publicado na América.

O jornalista da Spiegel conta que a mãe de Magda, Auguste Behrendt, chegou a ver com apreensão o seu envolvimento com Goebbels, que em 1930 ainda era apenas um dirigente do partido em Berlim, e não o ministro do III Reich, e tinha rendimentos bastante medíocres, argumentava a senhora, quando comparados com a fortuna que Quandt deixara à filha. Magda terá replicado que ou a Alemanha se “afundava no comunismo”, ou se tornava nacional-socialista. “Se as bandeiras vermelhas flutuarem sobre Berlim, acaba o capitalismo e o dinheiro de Quandt não me servirá de nada; mas se o movimento de Hitler chegar ao poder, serei uma das primeiras mulheres da Alemanha.”

Terá sido uma das raras vezes em que pecou por modéstia. Foi mesmo a mais influente figura feminina do nazismo, uma mulher que passava horas sozinha com o Führer e que era utilizada, juntamente com o seu marido e os seus filhos, como a mãe-modelo da nova Alemanha nazi.

No dia 1 de Maio de 1945, quando o Exército Vermelho avançava sobre Berlim, esta filha de um judeu, que terá muito provavelmente tido conhecimento da prisão e morte do pai em Buchenwald, envenenou os filhos e, num último gesto de solidariedade com Hitler, que se matara no dia anterior com Eva Braun, suicidou-se juntamente com o marido.