O homem que ensinou o Brasil a gostar de pólo aquático

Treinador croata da selecção brasileira de pólo aquático falhou no Rio 2016 aquela que seria a sua sétima medalha olímpica, mas é mérito dele a transformação do Brasil de saco de pancada em adversário respeitado.

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Ratko Rudic Reuters
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Ratko Rudic é um homem que gosta de desafios. E tem um mantra que o guia na carreira de treinador de pólo aquático: “Se um jogador fraqueja num treino, eventualmente fraquejará num jogo”. Por isso, exige o máximo dos seus atletas. E, também por isso, ostenta no currículo cinco medalhas olímpicas como técnico (das quais quatro são de ouro, por três países diferentes, às quais se junta uma prata em Moscovo 1980, enquanto jogador), para além de três títulos mundiais e três europeus. Foi ele quem, nos últimos dois anos e meio, ensinou o Brasil a gostar de pólo aquático. Mas o sonho de ser campeão em casa terminou com uma derrota (6-10) nos quartos-de-final diante da Croácia, campeã olímpica em título – conquistou o ouro em Londres 2012 precisamente pela mão de Rudic.

O treinador nascido na ex-Jugoslávia é uma figura imponente: parece um gigante, tem duas mãos enormes e um bigode farfalhudo. É ele o autor da metamorfose do Brasil de saco de pancada em adversário respeitado no pólo aquático. A vitória sobre a Sérvia no torneio olímpico, por 6-5, ilustra essa transformação: foi o ponto final numa série de 45 jogos sem perder da equipa campeã mundial em título. “No início ninguém nos dava hipóteses de chegarmos aos quartos-de-final. Somos completos outsiders”, sublinhou o técnico.

Apesar de ter perdido depois com a Grécia e Hungria, o Brasil avançou para os quartos-de-final, onde foi batido pela Croácia (cinco dos 13 jogadores da selecção croata estiveram no título olímpico de 2012, com Rudic). “Estávamos a viver num estado de euforia depois da vitória contra a Sérvia. Foi como se, no basquetebol, uma equipa tivesse vencido os EUA. Era uma coisa anormal”, lamentou Rudic. A selecção brasileira defronta quinta-feira a Hungria, na chave para a atribuição dos lugares entre o quinto e o oitavo.

Do outro lado estiveram vários ex-jogadores seus. “O Ratko conhece-nos e nós conhecemo-lo a ele. Sabíamos o que esperar, preparámo-nos para isso. Mas os oito anos que passámos juntos deixaram marcas em todos nós, como nele também. Cumprimentámo-nos e continuamos amigos – fora da piscina, claro”, destacou Maro Jokovic ao PÚBLICO. “Lembro-me de jogar contra o Brasil, em 2012, e de lhes termos ganhado facilmente, não me lembro por quantos golos. Dá para ver que a mentalidade mudou completamente desde que o Ratko veio treiná-los”, acrescentou.

Houve um longo caminho percorrido até aqui. “Foi um trabalho duro. Cheguei no início de 2014 e encontrei uma situação complicada, com muitos aspectos a corrigir. Se tivéssemos tido mais tempo, seria diferente. Mesmo assim, não há exemplo na história do pólo aquático de uma equipa que, em dois anos, tenha feito o tipo de progressos que conseguimos aqui”, notou o técnico, em conversa com o PÚBLICO. “Havia grandes problemas em todo o lado, não havia uma coisa que estivesse bem”, acrescentou com uma gargalhada, sem querer alongar-se. “Os jogadores não tinham a preparação adequada, estava tudo errado.”

Mas os resultados não demoraram a surgir. Pela primeira vez, o Brasil venceu a Croácia, na Liga mundial de 2015, onde terminou com a medalha de bronze. Obteve a melhor classificação de sempre no Mundial, ao ser décimo em Kazan. E fez sonhar os brasileiros com uma medalha olímpica. “Eu não sei quanto o pólo aquático brasileiro aprendeu com ele. Mas ele foi quem veio para mudar as coisas. Ele é o líder que muda”, apontou Felipe Silva, um dos capitães da selecção brasileira.

Tudo começara num convite arrojado do presidente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, Coaracy Nunes. “Eu já tinha conversado com ele. Estivemos juntos na Europa e tive de jogar aquela ‘conversa de carioca’ para ele aceitar. Perguntei-lhe: ‘Ratko, qual é a chance que nós temos de ter você como técnico?’ e ele falou: ‘Toda. Você pode-me mandar o contrato porque eu tenho interesse em dirigir o Brasil: para mim é um desafio’”, contou ao PÚBLICO o dirigente. A ousadia resultou e o reputado treinador assumiu o cargo. “Ele, para mim, é o máximo do máximo. É o número um do mundo. Fomos fazer treinos na Europa, só com os conhecimentos dele. Ninguém lhe diz não”, acrescentou Coaracy Nunes. No final da partida com a Croácia, Ratko Rudic deixou em dúvida a sua continuidade como treinador do Brasil.

Hora de abraçar um novo desafio? Talvez: a carreira de Rudic tem sido feita de escolhas improváveis. Ainda jogador, pela Jugoslávia (ao serviço da qual disputou 297 partidas) foi vice-campeão olímpico, em 1980, atrás da União Soviética. Tornou-se treinador e não demorou até conquistar os primeiros títulos. Nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, quatro anos depois, guiou a ex-Jugoslávia à glória. Um título que renovou em Seul 1988. E, passados mais quatro anos, em Barcelona, voltou a subir ao lugar mais alto do pódio – desta vez ao comando da selecção italiana. Em Atlanta 1996, ainda com a Itália, teve de contentar-se com o bronze.

Nos Jogos Olímpicos de 2000, Rudic continuava a orientar os italianos. Mas a derrota contra a Hungria nos quartos-de-final foi o início do fim da relação. O técnico reagiu intempestivamente, queixando-se de uma conspiração dos árbitros, e foi suspenso por um ano pela federação internacional de natação, por trazer “descrédito” à modalidade. Radicou-se nos EUA, onde assumiu o comando da selecção. Em 2005 regressou ao seu país e tornou-se técnico da equipa croata, que levou ao título olímpico em 2012.

“É um treinador muito exigente, mas que produz resultados. Com ele ganhámos tudo o que havia para ganhar. Elevou o pólo aquático brasileiro a outro nível”, frisou Maro Jokovic. Nos EUA também há quem ainda se lembre dele, particularmente pelos seus métodos. É descrito como um dos poucos treinadores que continua a aplicar o que é descrito como “sistema jugoslavo de treino”: Layne Beaubien, que foi treinado por ele nos EUA, contou um dia que quando Rudic chegou os treinos transformara-se. Antes eram 3000 metros na piscina, mas com o croata passou a ser uma hora de ginásio, seguida de três horas e meia a nadar; à tarde uma sessão teórica e mais duas horas e meia na piscina. Enquanto antes percorriam 3000 metros num treino, passaram a ter sessões de 8000, depois 12.000, e um dia chegaram a fazer 18.000.

O objectivo é levar os jogadores ao limite, física e mentalmente. “Se um jogador fraqueja num treino, eventualmente fraquejará num jogo”, repete Ratko Rudic. Mas no dia em que o Brasil viu partir João Havelange, ex-presidente da FIFA e atleta olímpico de pólo aquático nos Jogos de Helsínquia, em 1952 (até 2007 o campeonato brasileiro da modalidade chamava-se Troféu João Havelange), o sonho de ser campeão em casa ficou adiado.