Opinião

Este Governo deve corresponder a uma exigência ética acrescida

Que Assunção Cristas pretenda armar-se em consciência da República compreende-se, mas é ridículo.

No domínio da comunicação institucional há uma área a que se costuma chamar “gestão de crises e controlo de danos”. Há especialistas pagos a peso de ouro que são contratados in extremis por indivíduos e organizações quando estes se vêm envolvidos em escândalos ou, por qualquer razão, quando a sua imagem pública sofreu, ou corre o risco de sofrer, um grave dano – seja uma cadeia de restauração responsável por uma intoxicação alimentar ou um deputado envolvido num escândalo sexual.

Estes especialistas têm má reputação. Uma das técnicas que usam consiste em criar manobras de diversão para desviar as atenções de um escândalo, criando ou inventando outros, e o seu trabalho é em geral descrito como resumindo-se a truques e aldrabices. É um facto que alguns destes profissionais usam práticas pouco escrupulosas – como acontece na política, no jornalismo ou noutra área qualquer  – mas existem formas de abordar estas situações que são irrepreensíveis do ponto de vista ético e eficazes na reparação da imagem das entidades afectadas. O recurso a estas abordagens é a marca das pessoas e das organizações genuinamente preocupadas em agir da forma correcta. Aquelas que têm de facto uma reputação a defender.

Curiosamente, não é difícil fazer isto. A regra de ouro, nestes casos, é, simplesmente, dizer toda a verdade. Toda a verdade sobre os factos e sobre a apreciação que se faz desses factos.

O caso dos convites feitos pela Galp a vários governantes e deputados para irem assistir a jogos do europeu de futebol em França oferece matéria para estudo. É evidente que, em particular, o caso do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Rocha Andrade, causou mal-estar no Governo, no PS e na maioria parlamentar que o apoia. É evidente, em particular, que o caso causou mal-estar ao próprio Rocha Andrade, que se deu conta, tarde demais, do erro que cometeu. Mas o governo, em vez de reagir como devia, reconhecendo o erro, não escondendo o mal-estar causado pelo erro e reparando de forma cabal esse erro, decidiu, envergonhadamente, tentar minimizar o incidente, pela voz de Rocha Andrade, primeiro, e de Augusto Santos Silva, depois. Chama-se a isto tentar reparar um erro cometendo outro. E, como sempre, é o segundo que dá dimensão ao primeiro. O que deveria ter feito o Governo? Declarar simplesmente: “Foi um erro. Não se repetirá.”

Essa era a declaração que esperávamos. Ficaríamos a saber que este governo tem a mesma escala de valores que nós – e não a de Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque, Miguel Relvas, Paulo Portas e companhia. As pueris tentativas de minimização do caso (“não há conflito de interesses”, “o litígio com a Galp está na mão dos tribunais e não do Governo”) só agravam o caso porque nos deixam a impressão de que talvez o Governo não distinga o que está certo do que está errado e isso é altamente perturbador. Mais perturbador, e politicamente mais relevante, que o pouco discernimento revelado por Rocha Andrade ao aceitar os convites da Galp.

Quero dizer com isto que todo este caso se resume a “um problema de comunicação”? Não. É mais grave do que isso. Significa que o Governo (ou parte do Governo) ainda não percebeu aquilo que Catarina Martins explicou de uma forma claríssima: o facto de “este Governo estar sujeito a uma expectativa e a uma exigência sobre a sua conduta ética muito superior aos governos que o antecederam”. Neste Governo, estas falhas são inadmissíveis.

Não estamos a falar do Portas dos submarinos nem do Passos Coelho da Tecnoforma, de quem se esperava apenas que não escarrassem na mesa para manter as aparências, na impossibilidade de uma conduta eticamente exemplar. Hoje é-nos permitido esperar bastante mais. E é esperado dos governantes que respondam a essa exigência superior.

Que Assunção Cristas, esquecendo os seus anos como majorette de Paulo Portas, pretenda armar-se em consciência da República, compreende-se (o CDS precisa de inventar alguma coisa para dizer), mas é ridículo. E é ridículo porque uma pose moralista como a que Cristas se arroga, apostando na amnésia geral, não pode ser adoptada por quem quer, mas apenas por quem é reconhecido como possuindo estatuto moral para o fazer. O CDS não se qualifica. Como menos ainda se qualifica o PSD, o partido cujas estruturas e dirigentes mais estreitamente se entrelaçam com as práticas mais reprováveis na sociedade portuguesa.

Rocha Andrade deve demitir-se? Sim. Não pelo convite que aceitou, mas por não ter reconhecido o seu erro quando ele lhe foi posto à frente dos olhos. Era difícil fazê-lo individualmente? Deveria ter sido o Governo a fazê-lo? Sim, mas o resultado é o mesmo. Foi aliás o primeiro-ministro em exercício, Augusto Santos Silva, o primeiro a considerar que o seu secretário de Estado Jorge Costa Oliveira, outro convidado da Galp, tinha agora uma capacidade diminuída. O mesmo acontece com os outros secretários de Estado e a Galp é demasiado grande para que três SE possam ficar impedidos de despachar seja o que for que tenha a ver com a sua actividade.

E os deputados do PSD? Basta-me que não escarrem na mesa. Não seria lícito esperar mais deles.

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