Opinião

A vontade de poder no islão

Olhar o islão pelas lentes progressistas do multiculturalismo é um equívoco. O islão é universalista.

1. A vontade de poder é uma constante na história da humanidade. Atravessa civilizações, religiões, nações e épocas históricas. No Ocidente, Friedrich Nietzsche foi o filósofo que mais perscrutou essa intrínseca ambição do ser humano. “O mundo visto por dentro, definido e designado pelo seu ‘carácter inteligível’ — seria, precisamente ‘vontade de poder’, e nada mais.” (Para Além de Bem e Mal, pgs. 36). Uma outra obra sua, reunindo escritos diversos e notas, publicada postumamente, tem mesmo esse nome: A vontade de poder. Islão não há uma reflexão filosófica secular equivalente. Seria importante que existisse uma crítica a partir de dentro. A religião, no seu melhor, é uma forma de transcendência do ser humano, de dar dignidade e sentido ao vazio da existência. No seu pior, torna-se um disfarce para a vontade de poder do próprio ser humano. Se o Ocidente tem, talvez, excesso de autocrítica, o islão tem, ao que tudo indica, falta dela. São escassas, e mal recebidas, as reflexões críticas feitas a partir do seu interior, em interacção com as suas próprias raízes culturais e religiosas. Ainda assim, vale a pena olhar para história do islão, a partir do exterior, para tentar perceber como este se vê a si próprio, em comparação com o cristianismo/Ocidente. Ajuda a compreender a forma como os partidos islamistas o usam na sua ambição de poder.

2. No seu primeiro século de existência, o islão tornou-se a religião de um imenso império árabe, do Médio Oriente à Península Ibérica. Neste sentido, é intrinsecamente uma religião de Estado e de poder. O seu percurso contrasta com o do cristianismo, que só mais de trezentos anos após o seu nascimento começou a tornar-se religião de Estado. Quanto a este último, o ponto de viragem iniciou-se na fase final do Império Romano, com o Imperador Constantino, já no século IV da era cristã. Até aí era uma religião minoritária, de camadas inferiores da população e frequentemente perseguida. Acabou por se desvirtuar pelo seu fascínio com o poder do Estado. O bispo de Roma — o Papa — quis ser o líder espiritual e temporal de toda cristandade, acima de imperadores e monarcas. Quanto ao islão, os muçulmanos foram, desde o início, senhores do seu próprio Estado. O califa, o sucessor do Profeta Maomé, assegurava o comando da comunidade dos crentes. Os conquistadores árabes venceram as potências da época — o Império Bizantino e o Império Persa Sassânida. Este facto histórico usado no proselitismo religioso muçulmano é explorado politicamente pela propaganda islamista. As extraordinárias vitórias militares só podiam dever-se a uma coisa: a graça de Alá.

3. Tal como no cristianismo, as divisões teológicas do islão estão intricadamente ligadas a lutas de poder. Os persas / iranianos rejeitaram o islão sunita por razões teológicas, mas também para afastarem o poder de árabes e turcos. O xiismo de Estado do Irão não surgiu no século VII, nas lutas fratricidas que levaram à morte de Ali. O processo de transformação do Irão num Estado xiita é tardio. Encerra um paralelismo com a Reforma Protestante dos séculos XVI e XVII. Na Europa, monarcas como Henrique VIII de Inglaterra, ou Gustavo I da Suécia, viram nas querelas teológicas um pretexto conveniente para afirmação do seu poder. Afastaram, por essa via, o Papa e as suas ambições de domínio religioso e político sobre estes. No início século XVI o Xá Ismail — que fundou a dinastia dos Safávidas do Império Persa — levou a que a população iraniana se transformasse, na quase totalidade, em xiita. As pretensões de poder universal dos sultões turcos otomanos, detentores do título de califa desde o século XVI, foram deitadas por terra. A analogia com as lutas entre católicos e protestantes é significativa. Mostra como a vontade de poder atravessa religiões e civilizações.

4. Em contexto de islão sunita, a Arábia Saudita é um caso a reter. A tribo dos Saud — a origem da família reinante —, trata a população como uma espécie de património a juntar à imensa riqueza que advém do petróleo. Não são cidadãos no sentido europeu da palavra. Usa, a seu favor, o facto de os principais lugares santos do islão, Meca e Medina, estarem no seu território. Pretende apresentar-se com o melhor islão. Na realidade, o poder saudita usa-o para se legitimar. É bem humano e terreno. Peça fundamental é a aliança, datada do século XVIII, entre a tribo de Muhammad bin Saud e o pregador Muhammad ibn Abd al-Wahhab, em proveito de ambos. No século XX, após a I Guerra Mundial, a abolição do califado por Atatürk, em 1924, convenceu os sauditas de estarem predestinados a ser o farol do islão. Após a II Guerra Mundial, os imensos recursos petrolíferos fizeram o resto. A partir dos anos 1990, a Internet foi também posta ao serviço do seu proselitismo e vontade de poder, amplificando a sua versão do Islão. O wahhabismo saudita é um dos maiores inimigos de um islão privado e espiritual, compatível com os valores europeus.

5. “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mateus, 22:21). Este é o fundamento teológico para um Estado secular em sociedades cristãs. Apesar dos pontos de contacto entre as três religiões — sobretudo pela via do Antigo Testamento —, não tem equivalente no islão. Mesmo com a ideia inscrita no Novo Testamento, a história da Europa e do cristianismo mostra como os textos religiosos permitem múltiplas interpretações. Mostra, também, no passado mais distante, como as tentações de invadir a esfera política e secular foram grandes. Mas onde a mente secular europeia vê uma teocracia retrógrada, ou totalitarismo, pode ver-se, na óptica de um crente muçulmano, um todo perfeito, expressão da vontade divina. Esse é um argumento central dos islamistas contra o secularismo. Atacam o secularismo europeu como o culminar das crenças desviantes de cristãos e judeus. Por isso, não pode ser aceite por um muçulmano. Rejeitam um islão assente numa crença mais individual e privada, acusando os muçulmanos defendem essa via de importarem soluções destrutivas. Na prática, o argumento da superioridade da sharia face à lei humana tem consequências bem terrenas. Aumenta o poder dos que medeiam entre o crente e Deus, especialmente nos islamistas, configurando a sociedade e o Estado a seu favor.

6. Os europeus estão mal apetrechados para lidar com o islão em toda a sua complexidade. Alguns vêm-no, de forma redutora, por lentes e estereótipos do passado. Têm gravado na memória um islão conquistador militarmente. Primeiro, dos impérios árabes — que invadiram e dominaram grande parte do Sul da Europa, da Sicília à Península Ibérica, durante o período medieval. Mais tarde, do Império Otomano — que conquistou e dominou o Sudeste europeu, do século XV ao século XIX. Levada ao extremo, esta visão gera um sentimento de islamofobia, pelo receio de repetição da história. Outros vêem-no pelas lentes seculares do homo economicus, que se julga uma espécie de “último homem”. Acha que humanidade evoluirá como ele, que todo o ser humano está destinado a colocar o económico acima de tudo. O islão são mercados. Representa oportunidades de exportação e de negócio. Tem algumas especificidades culturais. Só isso. Esquecem que se há coisa que o crente islâmico não quer — e rejeita frontalmente — é ser reduzido a uma faceta de consumidor e produtor. A finança islâmica, a alimentação halal, são exemplos claros disso. Onde o olhar do homo economicus europeu vê, apenas, oportunidades de negócio, o olhar do crente muçulmano, sobretudo quando instrumentalizado pelos islamistas, vê, também, a possibilidade de islamizar o social e o político.

7. Por último, olhar o islão pelas lentes progressistas do multiculturalismo é um equívoco. O islão é universalista. O multiculturalismo — no sentido de um ideal de convivência de culturas, todas com mesmo valor — é um mal menor para os islamistas na Europa. Em minoria, o multiculturalismo é útil para expandir islão. Quanto ao actual relativismo europeu, não é partilhado pelo crente muçulmano. Pelo contrário, aceitá-lo seria negar o próprio islão. Não é surpreendente. Quando os europeus acreditavam profundamente nos seus valores religiosos e / ou seculares também pensavam assim. Esse sentimento de uma missão universal é hoje explorado pelos islamistas, que o politizam e radicalizam. Prometem um futuro radioso, onde o islão chegará a toda a humanidade. Prosseguirá a sua missão, interrompida pelos europeus, desde os descobrimentos do século XV até à colonização do século XX. Naturalmente que nem todos os muçulmanos pensam assim. Apenas um notável exemplo. O escritor argelino, de língua francesa, Boualem Sansal, em Gouverner au nom d’Allah. Islamisation et soif de pouvoir dans le monde arabe (Gallimard, 2013), faz uma intrépida denúncia dos islamistas e da vontade de poder no mundo árabe. Vê mais longe e mais profundo do que muitos europeus, amarrados a estereótipos do passado, ou iludidos pela visão redutora do homo economicus e um multiculturalismo ingénuo.

Investigador