São Jorge, de Marco Martins, compete na secção Orizzonti do Festival de Veneza

É o regresso de uma parceria: Martins e o actor Nuno Lopes, no papel de um boxeur desempregado. Na competição principal estão Kusturica, Brizé, Diaz, Konchalovsky, Malick, Ozon ou Wenders.

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Nuno Lopes, boxeur
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Depois de Alice, uma parceria entre o realizador e o actor Nuno Lopes
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São Jorge centra-se na história de um boxeur, desempregado de longa duração que aceita um emprego numa empresa de cobranças difíceis para poder pagar as suas próprias dívidas
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La La Land, musical de Damien Chazelle, abre a 73ª edição
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Monica Bellucci e Emir Kusturica em On the Milky Road
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Natalie Portman como Jackie Kennedy no filme de Pablo Larraín

Acaba de ser anunciado o programa da 73.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza (31 de Agosto a 10 de Setembro): São Jorge, de Marco Martins, foi seleccionado para a competição na secção paralela Orrizonti, que dá atenção às novas correntes do cinema mundial. Segundo informação da produtora Filmes do Tejo, o filme - depois de Alice, outra colaboração entre o realizador e o actor Nuno Lopes - "é um olhar sobre os anos de intervenção da troika em Portugal e a crise financeira que recentemente atingiu o nosso país cruzando a ficção com o documentário (fazendo uso de um vasto elenco de actores não profissionais)". Centra-se na história de um boxeur, desempregado de longa duração que aceita um emprego numa empresa de cobranças difíceis para poder pagar as suas próprias dívidas. Marco Martins esteve em Veneza em 2006, na competição de curtas-metragens com Um Ano Mais Longo, escrita em parceria com Tonino Guerra.

Emir Kusturica, Stéphane Brizé, Lav Diaz, Amat Escalante, Tom Ford, Andrei Konchalovsky, Pablo Larraín, Terrence Malick (o documentário Voyage of Time), François Ozon ou Wim Wenders desfilam, por seu lado, na competição principal, Veneza 73. Concorrem ao Leão de Ouro. O júri desta competição é presidido por Sam Mendes e dele fazem parte a cantora e artista visual Laurie Anderson, as actrizes Gemma Arterton, Nina Hoss, Chiara Mastroianni e Zhao Wei, os realizadores Joshua Oppenheimer, Lorenzo Vigas, e o argumentista Giancarlo De Cataldo.

E é de forma ribombante que o director do festival, Albert Barbera, fala da abertura, um filme que também está em concurso: La La Land, musical de Damien Chazelle (Whiplash), com Ryan Gosling e Ema Stone, ele um músico de jazz, ela uma aspirante a actriz, as complicações da vidas profissional a complicarem tudo. “La La Land não é apenas um filme que reiventa o género musical, coloca-o num novo ponto de partida", disse Barbera. “Se Whiplash revelou um novo cineasta, La La Land é a sua definitiva, mesmo que precoce, consagração no novo firmamento dos realizadores de Hollywood." Declarações arriscadas, não isentas de algum delírio, mas depois da abertura, no ano passado, com Everest, o festival precisa mesmo que se construa a expectativa de acontecimento.

Há outras hipóteses, outras expectativas que se podem começar a construir, no entanto: Kusturica, por exemplo, que há muito andava afastado, envia a Veneza um filme que ficou fora de Cannes, o que levou, na altura, o realizador a acusar a Croisette de um preconceito político: terá sido o seu apoio ao Presidente russo Vladimir Putin a razão para a organização do festival francês não ter seleccionado On The Milky Road (filme com Monica Bellucci).

O que esperar, ainda, de Wim Wenders? Les Beaux Jours d'Aranjuez é o reencontro com Peter Handke, primeira longa-metragem em francês do cineasta alemão, a terceira em 3D, depois de Pina (2011) e de Every Thing Will Be Fine (2015).

Ainda o lugar aos veteranos e a confirmação de que há mais vidas para uma vida: Andrei Konchalovsky, cuja carreira parecia ter terminado, fez de The Postman’s White Nights um dos grandes títulos da edição de Veneza 2014. Ei-lo de novo em concurso: Paradise.

Sete anos depois de A Single Man, uma celebrada passagem do mundo da moda para o cinema, Tom Ford junta Jake Gyllenhaal e Amy Adams no thriller Nocturnal Animals. Ainda o par e as suas complicações: Derek Cianfrance (Blue Valentine, com Ryan Gosling, Michelle Williams) junta Michael Fassbender e Alicia Vikander, e coloca Rachel Weisz a importunar a felicidade do casal em The Light Between Oceans. Os americanos mostram-se em força, em concurso e fora dele, mas não é só com eles que se faz a festa. Vejamos: depois de um filme sobre a nossa época, e um dos grandes filmes sobre a nossa época, A Lei do Mercado (prémio de interpretação em Cannes a Vincent Lindon), Stéphane Brizé realiza um filme de época, adaptando Guy de Maupassant, Une vie. O mexicano Amat Escalante parecia vindo do nada quando em 2013 recebeu o prémio de melhor realizador em Cannes, por Heli. Agora é La Región Salvaje, descrito como uma fábula sobre “machismo, homofobia e repressão de mulheres”, inspirado pela história verídica do afogamento de um enfermeiro. Pablo Larraín não pára: depois de Neruda, apresentado em Maio na Quinzena dos Realizadores de Cannes, leva Jackie Kennedy - nos seus dias a seguir ao assassinato de JFK - ao concurso de Veneza (Jackie, com Natalie Portman). E aqui confirma-se o que Neruda indiciava: o chileno está já a filmar para um público global.

Completam o line up The Bad Batch, de Ana Lily Amirpour - o segundo filme da cineasta americana de origem iraniana, depois de A Girl Walks Home Alone at Night, descrito como uma "história de amor canibal passada num Texas pós-apocalíptico"; El Ciudadano Ilustre, de Mariano Cohn e Gastón Duprat; Spira Mirabilis, de Massimo D'Anolfi e Martina Parenti; The Woman Who Left, de Lav Diaz; Piuma, de Roan Johnson; Brimstone, de Martin Koolhoven; El Cristo Ciego, de Christopger Murray; Frantz, de François Ozon; Questi Giorni, de Giuseppe Piccioni; e Arrival, de Denis Villeneuve.

Mais ficções fora de concurso: Hacksaw Ridge, de Mel Gibson, A jamais, de Benoit Jacquot; The Magnificent Seven, de Antoine Fuqua (filme de encerramento); ou Monte, de Amir Naderi. Sergei Loznitsa e Ulrich Seidl apresentarão documentários, Austerlitz e Safari, respectivamente.

O actor francês Jean-Paul Belmondo e o cineasta polaco Jerzy Skolimowski (um dos acontecimentos da edição de 2015 foi da sua responsabilidade: 11 Minutos) receberão um Leão de Ouro para as respectivas carreiras.