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Carlo Allegri/Reuters
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Arianismo (do Irão) e outros problemas mentais da extrema-direita que acabam em massacres

Até quando vamos continuar a alimentar a espiral de ódio xenófobo e nacionalista, cavando a vala comum das civilizações?

O termo “ariano” foi apropriado pela propaganda nazi e ficou associado a estes no imaginário popular moderno. Mas o povo Arya vem do Planalto do Irão e espalhou-se pela Ásia e Europa. Um dos delírios de Hitler foi achar que (alguns) alemães pertenciam a uma raça com origens extra-terrestres e poderes super-humanos. As leis de Nuremberga abstinham, por isso, do extermínio todos os persas, irmãos de sangue ariano.

Sem esta contextualização, os títulos dos jornais que repetem até à exaustão as raízes iranianas do terrorista de Munique apenas desinformam. E ainda mais quando não explicam que o Irão (xiita) é o principal inimigo do Estado Islâmico (sunita). A polícia alemã bem frisou que este atentado acontece no 5º aniversário do ataque neo-nazi de Breivic na Noruega, bem como os supostos problemas mentais, partilhados por ambos.

O falhanço da civilização ocidental

Tal como o terrorista de Orlando, o de Nice não frequentava mesquitas, não jejuava no Ramadão e ambos degustavam carne suína. Em Munique, um vídeo amador captou o atirador a declarar-se alemão, em resposta ao xenófobo que o filmava acusando-o de “escumalha turca”. Em todos estes casos há uma coisa em comum: os perpetradores eram de extrema-direita. Como a maioria dos apoiantes de Trump ou Le Pen, pertenciam a classes segregadas, cuja civilização ocidental não sabe nem quer integrar. Pobres que culpam outros pobres da sua desgraça e que, por isso, votam nas elites populistas de direita que são a verdadeira razão da sua pobreza (económica, educativa e de espírito), mas que habilmente usam o medo para aprofundar divisões e ódios.

Extrema-direita é igual, seja aqui ou no médio-oriente

Conheci um refugiado palestiniano que fugiu do genocídio que a extrema-direita israelita lá vem fazendo. Viveu na Síria até entrar em guerra. E novamente teve que fugir, vivendo agora na Suécia. Explicou-me algo que agora me parece óbvio mas no qual nunca tinha pensado. No médio-oriente, quando dizem “extrema-direita” referem-se aos fundamentalistas islâmicos. Os ultra-conservadores e ultra-nacionalistas lá do sítio são, claro, o Daesh, a Irmandade Muçulmana, a Al-Qaeda... E eu junto agora à lista o Erdogan.

Estamos habituados a ver neo-nazis de várias nacionalidades a degladiar-se nos estádios de futebol. Mas raramente nos lembramos que nas altas esferas da política e da guerra o mesmo acontece. Só que com proporções catastróficas. E agora há uma nova moda, impulsionada pela vaga fascizante que corre o mundo: indivíduos com os mesmos ou mais problemas mentais do que os seus fanáticos líderes (formais ou inspiracionais) que decidem vingar-se das suas vidas miseráveis massacrando quem lhes aparece à frente. Os maluquinhos têm tendência a empoderar-se quando a sociedade à sua volta parece também mais louca e quando outros maluquinhos têm espaço para discursar nos telejornais. Sentem-se legitimados. E atacam.

Até quando vamos continuar a alimentar a espiral de ódio xenófobo e nacionalista, cavando a vala comum das civilizações?