Saldo da purga turca já ultrapassa os 13 mil detidos

Com milhares de juízes e procuradores saneados, e ainda mais detidos para ouvir e interrogar, tribunais estão à beira do caos. Há denúncias de tortura e maus-tratos contra soldados.

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Erdogan dirige-se, via videoconferência a partir do palácio presidencial de Ancara, aos seus apoiantes concentrados em Istambul AFP/YASIN BULBUL

Desde o fracasso do golpe para o derrubar, sempre que o Presidente turco fala os seus discursos são transmitidos em directo através de ecrãs montados nas praças centrais das principais cidades da Turquia. A cada anúncio, há aplausos. Foi assim com a declaração do estado de emergência, na quarta-feira à noite, assim foi com o balanço das detenções, este domingo.

Já se sabia que o número de detidos, demitidos ou investigados por alegadas ligações ao movimento de Fethullah Gülen, o imã que o Governo do AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento, no poder desde 2002) acusa de inspirar o golpe de Estado tentado por parte das Forças Armadas, ultrapassa os 60 mil. Destes, 13.165 pessoas estão mesmo detidas.

“Entre os detidos, 8838 são soldados, 2101 são juízes e procuradores, 1585 são polícias, 52 são autoridades da administração local e 689 são civis”, anunciou Recep Tayyip Erdogan, para gáudio dos seus apoiantes e preocupação dos que se lhe opõem e defendem que a reacção à tentativa de golpe já ultrapassou em muito o razoável e se tornou numa perseguição aos críticos. Segundo o chefe de Estado, há 123 generais na prisão e 282 oficiais da polícia. “Os interrogatórios dos restantes continuam.”

Pelo menos 1200 soldados rasos inicialmente detidos foram entretanto libertados, depois de confirmada sua inocência, fez saber o procurador de Ancara.

A última baixa é a guarda presidencial de elite, que vai ser dissolvida, anunciou o primeiro-ministro, Binali Yildirim. Depois de 283 membros do regimento de 2500 soldados terem sido detidos, o Governo concluiu que “a sua existência não se justifica”.

Denúncias de tortura

Há relatos de caos nos tribunais, onde quem escapa à “limpeza” ordenada pelo Governo não consegue, simplesmente, dar conta do recado. Para além dos detidos, pelo menos 2745 juízes foram suspensos. Os funcionários destacados pelos tribunais para os interrogatórios estão a trabalhar noite e dia e há audiências a começar com horas de atraso.

Tribunais à beira do colapso e esquadras onde alguns soldados são espancados, maltratados ou sujeitos a tortura, denunciam diferentes organizações de direitos humanos, turcas e internacionais. Oficialmente, o Governo assegura que o Estado de direito é quem mais ordena, e o primeiro-ministro apela a que se evitem vinganças contra os autores ou suspeitos da tentativa de golpe que fez 265 mortos. “Não cedam a nenhuma provocação!”, pediu Yildirim.

Um académico crítico do AKP sugere que os abusos são difíceis de controlar e não representam, necessariamente, uma opção das chefias ou do Governo. “Muitos agentes perderam camaradas na noite de 15 de Julho [há pelo menos 62 polícias entre os mortos], viram jovens polícias morrer debaixo de bombas lançadas por turcos como eles, que tinham jurado proteger o Estado.”

Enquanto Washington exige provas do envolvimento de Gülen, ex-aliado de Erdogan que em 1999, antes ainda da primeira vitória eleitoral do AKP, decidiu mudar-se para a Pensilvânia, as autoridades turcas já detiveram um dos seus principais colaboradores – que terá aterrado na Turquia dois dias antes da conspiração – e um dos seus sobrinhos.

Hails Hanci, que os investigadores dizem ser o “braço direito” de Gülen, responsável pelas transferências de fundos para o pregador, foi detido na província de Trabzon, no mar Negro. Muhammet Sait Gülen, um dos seus sobrinhos, foi detido em Erzurum, uma região do Leste do país onde estarão muitos dos mais importantes apoiantes e membros do Hizmet (serviço), o movimento religioso e social fundado por Gülen no final dos anos 1970.