“Se não tiverem bombas ou balas…, atropelem-no com o vosso carro…”

Não há registo de que Mohamed Lahouaiej Bouhlel, francês nascido nos subúrbios da cidade tunisina de Sousse há 31 anos, alguma vez tenha pensado em viajar até à Síria ou ao Iraque.

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Os países europeus correram a rever medidas de segurança e alertas de ameaças Francois Lenoir/Reuters

Para um grupo que se alimenta da hipermediatização e se tornou conhecido para os ocidentais graças a vídeos de encenadas decapitações de jornalistas e trabalhadores de ONG europeus e norte-americanos, muito depois de o seu nome ser sinónimo de terror e massacre entre os sírios, é estranho que o ataque de quinta-feira em Nice não tenha sido reivindicado pelo Daesh.

Este tem sido o ano em que a organização que se autodenomina Estado Islâmico – e mata centenas ou milhares de seguidores do islão em países muçulmanos entre cada atentado que inspira ou ordena na Europa – tem apostado nas tácticas tornadas comuns pela sua antecessora, Al-Qaeda.

Defender território implica sofrer baixas, principalmente quando os ataques vêm por terra mas são sempre apoiados por bombardeamentos (da coligação liderada pelos Estados Unidos, que inclui a França; da Rússia que apoia Bashar al-Assad…). É mais pragmático recuar (para Raqqa, na Síria; Mossul, no Iraque) e poupar forças, ao mesmo tempo que se lançam mortíferos atentados bombistas contra centros urbanos: em Bagdad, no dia 3 de Julho, foram mortas 290 pessoas quando uma carrinha armadilhada explodiu em frente da gelataria mais popular e antiga da cidade, poucas horas depois do fim do jejum num dos últimos dias do Ramadão.

Atentados destes funcionam como prova de vida e poder. Mas foi justamente quando não precisava de provar nada, meses depois de irromper pelo Iraque e conquistar sem resistência Falluja ou Ramadi, mas também a gigantesca Mossul, segunda maior cidade do país, que o Daesh apelou aos potenciais simpatizantes para atacarem onde estivessem e com o que tivessem à mão. Estavam os combatentes do grupo às portas de Bagdad e o seu porta-voz explicava a quem o quisesse ouvir que a escolha de uma arma é determinada pelo que se pode obter. Um “terrorista de oportunidade” com a sua “arma de oportunidade”, e pouco importa a identidade do suposto inimigo descrito, “infiel”.

“Se não forem capazes de encontrar uma bomba ou uma bala, então esmaguem a sua cabeça com uma pedra, apunhalem-no com uma faca, atropelem-no com o vosso carro, atirem-no de uma falésia, estrangulem-no, envenenem-no…”, dizia em Setembro de 2014 o principal porta-voz do Daesh, Abu Muhammad al-Adnani. “Se não forem capazes de o fazer, então queimem a sua casa, carro, loja. Ou destruam as suas colheitas. Se não puderem, então cuspam-lhe na cara.”

Não há registo de que Mohamed Lahouaiej Bouhlel, francês nascido nos subúrbios da cidade tunisina de Sousse há 31 anos, alguma vez tenha pensado em viajar até à Síria ou ao Iraque. Não tinha ficha nos serviços secretos, não se lhe conhece um passado de radicalização. O Presidente François Hollande foi rápido a falar do “carácter terrorista deste ataque”, no mesmo discurso da madrugada em que se disse determinado a “reforçar ainda mais a acção no Iraque e na Síria”.

Transformar aviões em arma foi o que a Al-Qaeda fez há quase 15 anos, matando perto de 3000 pessoas em Nova Iorque e Washington. Transformar um camião em arma, sem explosivos, com a dimensão com que o fez Mohamed Bouhlel, nunca tinha sido feito.

Já houve gente a atirar com viaturas para cima de civis, incluindo depois de não ter conseguido accionar bombas (aconteceu há nove anos no aeroporto de Glasgow, por exemplo), mesmo em França (Dijon e Nantes, com um dia de intervalo, em Dezembro de 2014, em dois incidentes que as autoridades decidiram não descrever como ataques terroristas por envolverem pessoas com perturbações mentais diagnosticadas). Mas é Israel o principal cenário de ataques letais com recurso a carros: o método tornou-se tão banal que a vaga de violência mais recente nos Territórios Ocupados foi rotulada de “intifada dos atropelamentos”.

Bombas, militares, polícia

Sabe-se que Mohamed Bouhlel era divorciado (na lista dos chamados delitos menores registados pela política francesa nos últimos anos inclui-se o crime de violência doméstica) e que a sua última condenação se prendia com uma discussão de trânsito em que se tornou violento. Não se sabe se seguia qualquer dos sites que difundem a propaganda dos radicais, se era crente sequer. Tinha três filhos, trabalhava como motorista de uma empresa de entregas, e decidiu, há dias, alugar o camião com que transformou em campo de batalha uma marginal em festa, com famílias de todas as nacionalidades e muitas crianças acordadas para assistir ao fogo-de-artifício no 14 de Julho francês.

Os países europeus correram a rever medidas de segurança e alertas de ameaças, e os dirigentes desdobram-se em reuniões de Estado e marcaram (já para segunda-feira, em Washington) uma cimeira de ministros da Defesa onde irão ficar definidos “os reforços de meios militares na operação” internacional contra o Daesh na Síria e no Iraque. Bombas largadas noutros países, mais militares e polícia nas ruas. Um camião.  

“É um terrorista, sem dúvida ligado ao islamismo radical, de uma maneira ou de outra”, insistia, quase 24 horas depois do massacre o primeiro-ministro francês, Manuel Valls. François Molins, procurador de Paris (e chefe da investigação judicial antiterrorista em todo o país), preferia dizer que o modo de operação “corresponde aos apelos” de grupos jihadistas. “Temos um indivíduo que não era conhecido dos serviços secretos por actividades ligadas ao islão radical”, confirmava o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve. Na emissora TF1, um jornalista pressionava-o a dizer se a motivação do atacante da capital da Riviera estava ligada ao jihadismo. “Não”, respondeu.

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