França indignada com nomeação de Durão Barroso para o Goldman Sachs

"Conflito de interesses", uma "indecência" e um "manguito à Europa" são algumas das críticas. Eurodeputados socialistas de França querem novas regras para evitar recrutamento dos ex-comissários. No Expresso , Durão responde que se é “criticado por ter cão e por não ter”.

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso
Foto
O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso REUTERS/Francois Lenoir

“Barroso na Goldman Sachs, um manguito à Europa”, é o título no jornal francês Libération. O diário de esquerda talvez seja o mais atrevido mas não é o único na imprensa francesa que faz eco do coro de críticas e da polémica que se instalou após o anúncio sobre a nomeação do ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, para a presidência do maior banco de investimento do mundo, a Goldman Sachs International, como chairman (presidente não executivo). Vários líderes políticos franceses criticaram este sábado a nomeação de Durão Barroso para presidente não-executivo do banco norte-americano, considerando que há “conflito de interesses” e que é uma “indecência”.

“Servir os cidadãos para se servir da Goldman Sachs: Barroso representante indecente de uma velha Europa que a nossa geração vai mudar”, escreveu no Twitter o secretário de Estado do Comércio Externo francês, Matthias Fekl. 

Tal como o responsável governamental socialista francês, os eurodeputados do PS de França consideraram que há um “escandaloso conflito de interesses”. “Exigimos a revisão das regras para evitar o recrutamento de antigos comissários europeus”, referiram, em comunicado, aqueles eurodeputados.

A presidente do partido de extrema-direita Frente Nacional, Marine Le Pen, também usou a rede social do Twitter para declarar que esta nomeação "não tem nada de surpreendente para quem sabe que a UE não serve os povos, mas a alta finança".

Segundo a imprensa francesa, o banco de Wall Street é dos que vendeu os produtos financeiros mais complexos – hipotecas de alto risco – que estiveram na origem da crise em 2008. “O Goldman Sachs é também o banco que ajudou os gregos a mexer nas suas contas no início de 2000”, acrescenta o semanário francês Obs, sublinhando que a União Europeia “não precisa disto”.

“Este é o pior momento, um símbolo desastroso para a União Europeia e uma bênção para os ‘eurofóbicos’”, acrescentou o diário francês Liberation.

“Criticado por ter cão e por não ter”

Em declarações ao semanário Expresso deste sábado, Durão Barroso afirmou que se é “criticado por ter cão e por não ter”. “Se se fica na vida política é porque se vive à conta do Estado, se se vai para a vida privada é porque se está a aproveitar a experiência adquirida na política”, acrescentou o antigo primeiro-ministro ao semanário. 

O ex-presidente da Comissão Europeia nota ainda que por causa da crise de 2008 teve de lidar com um programa de reformas vasto e ambicioso e que possui grande experiência e independência na área financeira. Durão Barroso refere ainda que aceitou este convite pelo desafio e que o considera um reconhecimento das suas competências. O PS português já veio lembrar que o ex-primeiro-ministro social-democrata presidiu à Comissão Europeia nos piores anos.

As reacções em Portugal à polémica nomeação surgiram mal a notícia se soube, com a esquerda a criticar, a direita remetida ao silêncio e o Presidente da República a elogiar. O Presidente da República considerou que Durão Barroso atingiu "o topo da vida empresarial" ao ser nomeado presidente não executivo da Goldman Sachs International e disse gostar "de ver portugueses reconhecidos em lugar cimeiros". 

Em declarações à AFP, um porta-voz da Comissão Europeia defende ainda que os ex-comissários têm o direito de prosseguir a sua carreira profissional ou política e conclui: "É legítimo que as pessoas dotadas de uma grande experiência e qualificações continuem a ter papéis de destaque no sector público ou privado".