Crítica

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A Companhia de Teatro de Almada, encenada pela espanhola Ana Zamora, dá vida a figuras que Gil Vicente inventou há 500 anos.

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RUI MATEUS
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As figuras desta Tragicomédia da Nau d’Amores, inventada por Gil Vicente há quase 500 anos, são uma Princesa, que se transfigura em Cidade de Lisboa, e se dirige ao rei e à rainha, presentes na representação; um Pagem de um príncipe de Normandia; o mesmo Príncipe; mais quatro Fidalgos seus, que montam a nau; o próprio deus Amor, capitão da alegórica embarcação; e, por passageiros, um “Frade doudo”; um “Pastor castelhano”, um “Negro de Beni”; um “Velho”; dois “Fidalgos portugueses”; e um Parvo. Só por esta lista já se imagina o escopo da fantasia vicentina. Mas a representação tinha os pés bem assentes na terra. A peça foi criada para o regresso a Portugal, em 1527, de D. João III e Catarina de Áustria, casados em 1525. O texto é polvilhado de referências a figuras da corte joanina, que certamente estariam na assistência ou seriam conhecidas de todos. Figuras fictícias e figuras reais, figuras típicas e figuras alegóricas coexistem no universo criado por Gil Vicente sobre as venturas e desventuras amorosas.

Os actores desta produção da Companhia de Teatro de Almada, com encenação da espanhola Ana Zamora (que deu à sua companhia o nome desta peça de Gil Vicente), dão vida a estas figuras, e tomam o público pela corte, monarcas incluídos na forma de espectadores anónimos, demonstrando a continuidade dos nossos tempos com o século XVI e a continuidade de umas nações com as outras, no espaço cultural ibérico. Para isso, sublinham o que há de comum e universal nas acções humanas. O tema, claro, ajuda. Quem nunca se sentiu naufragar numa barca dos amantes? O rigor historiográfico não sacrifica a realização cénica, antes pelo contrário: é no prazer de executar com brio os versos e os jogos vicentinos que se encontra boa parte da teatralidade deste espectáculo. A música e as brincadeiras com os instrumentistas, a desconstrução e construção do cenário, e as interpelações directas à plateia fazem o resto.

Quem quiser saber mais sobre o texto original, pode consultar a Internet, que lá vai encontrar tudo. Aqui, no palco, encontrará as loucuras de amor encarnadas pelos quatro actores e pelos três músicos. Ana Zamora não faz por menos: põe em cena o espírito chocarreiro dos carnavais ibéricos e das festas dos rapazes, do Norte da península, que vão dos caretos transmontanos aos mascarados de Castela e Leão, para dar cor à festa. Afinal, o casal que patrocinava a actuação original representava a união ibérica. Nas trocas e nos desenganos amorosos, a anarquia do desejo é o traço peninsular mais recorrente. Isso, pelo menos, dá boa cara tanto a espanhóis como a portugueses. Se esta nau aportar num terminal de cruzeiros perto de si, não deixe de embarcar nela.   <_o3a_p>