Torne-se perito

Pode o atentado em Istambul alterar a relação entre Erdogan e o Estado Islâmico?

Morreram 41 pessoas e outras 239 ficaram feridas num ataque complexo ao aeroporto de Istambul, com traços dos atentados em Paris e Bruxelas. Mas o Estado Islâmico não o reivindicou, como, aliás, quase nunca faz quando ataca a Turquia.

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Mãe de uma das vítimas, carpindo BULENT KILIC/AFP

O grande atentado da noite de terça-feira contra o aeroporto internacional Ataturk não foi apenas um dos mais mortíferos na vasta série de ataques lançados contra a Turquia nos últimos dois anos. Foi também um dos mais sofisticados, com traços dos atentados em Paris e Bruxelas, ambos conduzidos pelo Estado Islâmico, que poucos duvidam ser a organização por detrás deste ataque que matou 41 pessoas e fez 239 feridos, mesmo que não o tenha ainda reivindicado.

A operação de terça-feira está pejada de déjà-vu. Os três atacantes chegaram de táxi ao aeroporto de Ataturk tencionando morrer com explosões suicidas — como em Bruxelas. Dois abriram fogo no terminal das chegadas, o terceiro fê-lo no hall das partidas, diante o primeiro dispositivo de segurança. Causaram o pânico e a fuga desordenada de dezenas de pessoas, antes de detonarem os seus coletes explosivos, aproveitando a confusão — como em Paris.

Desconhece-se quantas das 130 pessoas ainda hospitalizadas estão em estado crítico. Sabe-se, por uma nota publicada pelo município de Istambul, que existem para já 13 estrangeiros confirmados entre as vítimas, entre sauditas, iraquianos, um chinês, cidadãos do leste europeu e do sul asiático. “Em Istambul usaram uma combinação dos métodos executados em Paris e Bruxelas”, argumenta Suleyman Ozeren, especialista em terrorismo no Global Policy and Strategy Institute. “Planearam homicídios que maximizassem o medo e a perda de vida.”

O atentado contra o aeroporto Ataturk — o maior e mais movimentado no país, terceiro na Europa — dá-se num momento em que a Turquia tenta remendar a sua indústria de turismo, crucial para a riqueza do país, mas mutilada pela vaga de ataques terroristas nos últimos dois anos. Só Istambul sofreu cinco atentados bombistas desde Janeiro, dois dirigidos contra turistas e atribuídos ao Estado Islâmico, de quem não se espera uma nota de reivindicação pelo atentado contra o aeroporto, caso se mantenha a regra nos ataques contra a Turquia.

Em Janeiro, por exemplo, um bombista suicida do grupo radical fez-se explodir junto de um grupo de turistas alemães, no coração de Istambul. Morreram 12 pessoas e as consequências foram quase imediatas: desde então, o número de visitas de alemães à Turquia caiu na ordem de um terço. A queda foi ainda mais abrupta com os turistas russos, atingidos pelas sanções que se seguiram ao abate de um caça por aviões turcos. Contaram-se menos 90% de turistas russos desde o final do último ano, um duro golpe numa indústria que vale 30 mil milhões de euros.

A reivindicação que não o é

“Este ataque não tenta alcançar qualquer reivindicação, tenta produzir propaganda contra o nosso país, usando o sangue e a dor de pessoas inocentes”, afirmou o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, dedicado por estes dias a restaurar alguns dos laços diplomáticos degradados e reavivar uma economia dependente do turismo. Esta semana conseguiu fazê-lo com Israel e tenta agora remendar as relações com a Rússia — Erdogan já se desculpou pelo abate do caça russo e esta quarta-feira falou ao telefone com Vladimir Putin.

Remendar os danos à indústria do turismo turca pode ser impossível para Erdogan. Já muitos hotéis e resorts decidiram não abrir nesta época balnear, assustados com a queda de 35% no número de visitantes estrangeiros até ao mês de Maio. Mas é possível que a envergadura do ataque em Istambul mude a forma como o Governo turco tem lidado com o Estado Islâmico, que opera com relativa liberdade nas suas fronteiras e — existem indícios disso — em conluio com alguns soldados de Ancara, que fecham os olhos ao tráfico de petróleo e armas.

A Turquia vive hoje numa espécie de guerra fria com o Estado Islâmico. Faz parte da coligação aérea internacional que o bombardeia, mas acredita também que os jihadistas jogam a seu favor na luta contra os grupos armados curdos (sejam eles turcos ou sírios) ou como forma de pressão ao regime de Bashar al-Assad. Já o Estado Islâmico dá mostras de não querer entrar numa guerra aberta com a Turquia, que odeia por fazer parte da NATO e não aplicar a sua versão do islão, mas que lhe garante facilidades na fronteira e combatentes turcos.

Esta é uma explicação possível para o facto de o Estado Islâmico quase nunca reivindicar atentados na Turquia, salvo os que lança contra alvos inimigos — como em Suruç, por exemplo, onde matou 33 jovens activistas curdos com um bombista suicida. Mas os cálculos de Erdogan podem alterar-se com um atentado tão emblemático como o desta terça-feira em Istambul. Segundo disse o Presidente esta quarta-feira, aliás, este ataque “deve provocar um ponto de viragem na luta contra o terrorismo em todo o mundo, especialmente em países ocidentais.”

Terror e confusão   

Os relatos de testemunhas do atentado no aeroporto somavam-se esta quarta-feira aos vídeos capturados pelo sistema de vigilância em Ataturk, que ao longo da noite verteram para jornais e televisões. Um deles mostra o momento em que um polícia turco abate um dos bombistas, que perde a sua arma e se faz explodir mais tarde, sozinho no chão, aparentemente sem causar outros feridos ou mortos. Os registos da videovigilância dão sobretudo conta do pânico que os três atacantes conseguiram provocar antes das explosões.

No relato ao Guardian de Laurence Cameron, jornalista britânico, que chegava ao aeroporto por um dos túneis de acesso no momento do ataque. “À medida que chegava à ponte para o aeroporto, ouvi o som de pânico. Continuei na mesma, na verdade não estava a pensar, e, à medida que faço a esquina para o túnel principal, vejo uma onda de pessoas em correria na minha direcção, em terror completo: bebés que choravam, um homem idoso numa cadeira de rodas, abandonado no meio da multidão. Perdera os seus amigos.”

Os investigadores estão ainda a montar as peças do ataque, mas há indicações de que os atacantes forçaram entrada pelas barreiras de segurança do aeroporto, um dos mais seguros em todo o mundo. Pelo menos um bombista conseguiu cruzar essa barreira, que, segundo Cameron, se tornou depois um obstáculo para que as vítimas conseguissem fugir. “As pessoas gritavam ‘bomba, bomba’, ‘fujam, fujam’, mas não havia para onde fugir excepto para os portões de onde viemos, por isso as pessoas foram-se afunilando em direcção aos aviões”, contou ao Guardian.

Um outro testemunho detalhado, este de Paul Roos, sul-africano de 77 anos que contou à Reuters ter assistido ao comportamento de um dos atiradores que abriu fogo no átrio das partidas, num ponto longínquo, a cerca de 50 metros de distância. “Estava completamente de preto, [mas] a sua cara não estava coberta. Escondemo-nos atrás de um dos balcões, mas eu levantei-me para o ver. Ouviram-se duas explosões pouco depois, uma atrás da outra. Por aquela altura ele já parara de disparar.”

“Voltou-se e começou a caminhar na nossa direcção”, conta Roos, que parece descrever o atacante que se fez explodir depois de ter sido atingido por um polícia. “Estava com a arma dentro do casaco. Olhou à volta ansiosamente para ver se alguém o vinha travar e depois desceu pelas escadas rolantes. Ouvimos mais alguns tiros e mais uma explosão. E depois terminou.”

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