Seixal quer conquistar um lugar de referência no rio Tejo

No próximo dia 29 de Junho, o rebocador Baía do Seixal é lançado ao mar e com ele nasce um novo fôlego da indústria naval no Tejo. E já se sonha com a instalação de um Porto de Recreio no Seixal.

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O primeiro rebocador-empurrador construído no Tejo em 26 anos Miguel Manso

Ainda cheira a tinta perto das margens do rio Tejo. Nas oficinas da Navaltagus, no Seixal, dão-se os últimos retoques ao novo rebocador-empurrador português. Desde 1990 que não se construíam este tipo de embarcações no estuário do rio. O investimento de 2 milhões de euros foi feito pelo grupo ETE e a embarcação será lançado à água no dia 29 de Junho.

“Era um sonho do ETE de construir as suas próprias embarcações”. O administrador, Miguel Figueiredo, fala numa oportunidade que surgiu depois da crise de 2008, quando o grupo exportou para a Colômbia duas embarcações, sendo uma delas um rebocador. Em 2014, face aos únicos dois rebocadores existentes em Lisboa, cada vez mais velhos e desactualizados, decidiu-se apostar na renovação. Miguel Trovão, director da Navaltagus, vai mais longe: “Acabou por ser uma necessidade e um investimento.” Da necessidade à assinatura do contrato passou um ano. E em Outubro de 2015 quebrou-se o jejum de 26 anos e começou a construção do rebocador-empurrador.

Ao todo, foram investidos 2 milhões de euros e utilizadas 100 toneladas de aço, 700 metros de tubo, 1100 litros de tinta e 1000 metros de cabo eléctrico. Miguel Trovão assume que era um investimento “complicado”, mas que o conseguiu inteiramente através do grupo ETE sem necessidade de recorrer à banca. Durante o período de construção apostou-se na indústria portuguesa, com excepções: “Houve alguns equipamentos que tivemos de comprar no exterior, como os motores principais. Não há fabricante nenhum português que os faça.”

É entre papelões e plásticos no chão da embarcação que ainda circulam os trabalhadores que construíram o rebocador. Concluem-se os últimos retoques numa obra que envolveu 60 operários.

“Creio que um empurrador com estas características seja único em Portugal”, salienta o director da Navaltagus. A inovação está no baixo calado, com 2,38 metros, o que proporciona mais potência e força na navegação. Também o comprimento reduzido, de 16,50 metros, faz com que seja possível que a embarcação passe em zonas estreitas e sinuosas do rio. A questão ambiental não foi deixada de lado e está preparado para navegar a gás natural.

A embarcação poderá operar desde Lisboa à Valada do Ribatejo, mas não só. Foi pensado para que também possa vir a desenvolver actividade no Rio Douro. “Quando o projectámos, já o fizemos a pensar nesses constrangimentos. Daí as suas dimensões”, esclarece Miguel Trovão. O responsável do estaleiro assume que já perspectiva que atrás deste investimento, surjam outros.

Chamar-se-á Baía do Seixal numa homenagem ao município, assume Luís Figueiredo, do grupo ETE. Joaquim Santos, presidente da Câmara Municipal do Seixal, reforça as palavras de Luís Figueiredo acrescentando que o contributo do Seixal para a construção naval vem desde os Descobrimentos e é para se manter. O autarca aproveita ainda para anunciar que, também na próxima quarta-feira, será assinado um estudo de viabilidade para a instalação de um Porto de Recreio no Seixal.

Um estudo para perceber o que o Seixal tem para dar

“Face à nossa tradição na construção naval e do facto do município ter uma baía e um porto de abrigo natural, penso que estamos muito bem posicionados para desenvolver um projecto com características de apoio às embarcações, mas também de reparação, assim como um centro de desportos náuticos”, afirma Joaquim Santos. A zona em causa envolve as instalações da Navaltagus e a área que pertence ao município.  

“É uma oferta que não existe no Tejo”, aponta o autarca sobre as duas vertentes do porto de recreio. Para isso, salienta que a intenção é “torná-lo numa referência”. O presidente refere que há 200 lugares para embarcações na baía, mas nem todos na marina, e é necessário organizar um espaço dedicado a isso. “No ano passado tivemos cerca de 500 embarcações a entrar no Seixal e 3500 tripulantes, o que demonstra uma boa procura”, constata. De acordo com o autarca, este pode ser um investimento que pode alavancar o desenvolvimento da economia local e a rentabilização do turismo fluvial. “O Tejo, além de ser importante por causa dos transportes de cargas e passageiros, tem uma componente de lazer que não está aproveitada”, acrescenta.

Com este estudo, alvo de um protocolo entre a Câmara do Seixal, o Porto de Lisboa, o grupo ETE e a Libertas, pretende-se perceber a procura do mercado. “Queremos criar um projecto com sustentabilidade”, considera. Depois, terá de se compreender como é possível responder à procura para que futuros parceiros possam surgir e investir. “Gostaríamos de até ao final do ano ter o estudo e apresentá-lo”, anuncia Joaquim Santos.

O município tem vindo a apostar nos investimentos na zona ribeirinha e na baía. Joaquim Santos destaca que o mais importante foi a parceria que se fez com municípios da margem sul e da margem norte para o tratamento dos esgotos. “Foi fundamental para termos uma água com mais qualidade”, afirma.

Seixal como complemento ao turismo de Lisboa?

O turismo é outra das frentes em que o município do Seixal quer actuar. “Temos potencial turístico que pode ser um complemento a Lisboa. Não queremos substituir a capital, achamos é que somos uma componente interessante”, esclarece o presidente da câmara, Joaquim Santos. Para tal, um dos conceitos pensados é o Seixal Vila Hotel. A ideia é potenciar o alojamento local junto ao rio e no núcleo histórico da cidade de forma a que o visitante se sinta no ambiente de uma vila piscatória antiga. “Esta é uma oferta diferente, não só porque se está numa vila ribeirinha em frente a Lisboa, mas porque depois é possível ir para a capital de barco”, explica. Agora, a missão é encontrar parceiros para que este conceito tenha pernas para andar. Para isso, a câmara está a requalificar espaços para que seja possível receber serviços, como a restauração.

Até ao momento, há já um hostel num dos terrenos da câmara. “Ainda não abriu, mas está apra breve”, afirma. Para incentivar à exploração do hostel, a câmara atribuiu um “valor de requalificação” a quem o alugou. “Estamos disponíveis para que o valor do investimento seja partilhado pelo município”, revela. Dos 1500 euros de renda mensal no final do ano, o valor será reduzido para 90% no primeiro ano, no segundo ano para 70% e assim consecutivamente durante cinco anos. O objectivo é reaver o valor de investimento. “O município assume as questões de rentabilização do património do ponto de vista financeiro para que seja este depois seja rentabilizado do ponto de vista social e económico”, explica.

Além do alojamento, o município quer assumir-se também como um ponto de referência museológico nacional e internacional.  Face ao Ecomuseu Municipal do Seixal, a Oficina de Artes Manuel Cargaleiro ou o moinho de maré de Corroios, o presidente sublinha: “Temos muito potencial, o que nos falta é que concretizar uma gestão integrada entre as várias estruturas.”

Há também uma preocupação com o núcleo urbano antigo do Seixal. A intervenção vai ser feita em seis hectares com um investimento de 2 milhões de euros. A requalificação já se iniciou com a obra de prolongamento do passeio ribeirinho do Seixal, onde se pretende acrescentar novos espaços pedonais, prolongar o passeio ou melhorar pavimentos e acessos. “Uma coisa é estar numa rua antiga com buracos, outra coisa é estar numa rua antiga mas ter um piso requalificado e moderno”, diz Joaquim Santos. De acordo com o presidente, esta intervenção tem funcionado como contágio para a população. “A partir do momento em que começámos, já seis ou sete particulares começaram a requalificar imóveis”, diz.

Joaquim Santos revela que a autarquia tem tentado perceber quais os anseios da população. Para isso, têm-se feito estudos de opinião. O turismo surge logo atrás da saúde e do emprego nos tópicos que os habitantes do Seixal acham mais determinantes na economia do município. “Há aqui a noção que o Seixal pode ter um papel muito importante no turismo de Lisboa e há a disposição para dinamizar este processo”. Para isso, a câmara municipal está a preparar também um caderno de orientação para o investimento, que vai desde grandes fábricas a pequenos quiosques. “A câmara não quer dinheiro, a câmara quer desenvolvimento”, remata.

Texto editado por Ana Fernandes