Carlo Allegri/Reuters
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Megafone

Islamofobia: não em nosso nome

A população LGBT não pode, estou certo que não irá, deixar que o seu sofrimento, o seu medo e o seu luto sejam instrumentalizados em nome de um inexistente confronto civilizacional

Desde o massacre homofóbico de Orlando que várias são as vozes, por vezes as mais insuspeitas, que esgrimem o argumento do “choque” entre “Islão" e “Ocidente”, como se ambas palavras designassem matérias indistintas, essencialistas e homogéneas, algures entre a civilização e a profissão de fé, e o atiram à parede a ver se cola, se convence, se explica algo que seja sobre o ataque em questão. Ora, o problema é que explica muito pouco e é por isso que quando Alberto Gonçalves me dirige, a mim, estudante com aspas (vá-se lá saber porquê), na sua recente crónica “Os islamófilos”, acusações de “oportunismo velhaco” e de ser “pela força que representar a maior ameaça ao Ocidente”, não poderia ficar sem resposta.

A resposta, contudo, não se dirige exclusivamente a ele, pouca expectativa teria sobre uma das únicas vozes que tomou o partido de Pedro Arroja, notório machista esganiçado. A resposta procurará explorar este fenómeno curioso: a instrumentalização de mulheres, cristãos, judeus, pessoas LGBT, entre outros grupos sociais, na fabricação de um senso comum em torno da dicotomia do “nós contra eles”, os “civilizados" contra os “subjugados ao Islão" (Gonçalves dixit), legitimação suprema e antiga das mais violentas guerras com objectivos muito pouco civilizadores e que, ironia ou nem por isso, acabaram sempre por massacrar mais “subjugados” que subjugadores.

O fenómeno não é novo; Israel e os respectivos líderes são provavelmente os seus mais célebres protagonistas, nos dias que correm. Neste caso específico, vulgarizou-se o termo pinkwashing, como o descreve, por exemplo, Joseph Massad, palestino, cristão, docente na Universidade de Columbia, em Nova Iorque . Corresponde a uma agenda xenófoba que atribui à religião x ou y - e a reboque, um conjunto enorme de populações que, tal como nós, europeus ou norte-americanos, são incrivelmente diversas nas suas crenças - o monopólio da ignorância, do ódio e da violência, enquanto se constrói uma imagem de respeito pelos direitos humanos; neste caso, uma imagem cor de rosa, que procura desviar as atenções das grandes atrocidades cometidas contra os próprios direitos humanos mais básicos e essenciais.

Voltemos ao ataque em Orlando, Flórida, Estados Unidos; um país onde, só em 2015, foram assassinadas mais de 20 pessoas transgénero (quase todas mulheres “de cor") e a lei, ao contrário do que diz Gonçalves, (que afirma que a lei americana persegue quem comete crimes desta natureza), foi incapaz de declarar qualquer um dos casos como crime de ódio (não são todos os estados que têm esse enquadramento legal no que toca a pessoas trans), ou seja, justiça inteira ficou por fazer. Este é um país onde o acesso a armas é o que se sabe e onde há cerca de um ferido por dia em tiroteios, desde que o ano começou; um país cuja história é tudo menos alheia a grupos, personalidades, até mesmo candidatos presidenciais, que capitalizam descontentamento social e o direcionam a minorias étnicas ou religiosas; um país onde cresce vertiginosamente o ódio a muçulmanos. As condições férteis para a ocorrência de ataques desta natureza são várias.

Omar Mateen era muçulmano, tinha uma costela afegã, nascido e criado nos Estados Unidos da América. Omar Mateen era homofóbico e, ao que parece, homossexual, o que é menos contraditório do que parece. O pai de Omar Mateen trabalhou para os serviços secretos americanos, no período em que os EUA alimentaram o extremismo dos Talibãs, para fazer frente à União Soviética, em plena Guerra Fria. Omar Mateen era funcionário da G4S, uma empresa de segurança multinacional, segunda maior empregadora privada do mundo, que presta serviços militaristas, frequentemente contratada por aparelhos securitários de grandes empresas e dos governos americano e britânico. Escolheu atacar um bar LGBT, numa noite dedicada à comunidade latina, essa é a natureza do crime: crime de ódio (conforme previsto na lei): homofobia e racismo. Omar Mateen declarou ter agido em nome do Islão. Anders Breivik, fundamentalista cristão, ao matar 77 pessoas do Partido Trabalhista norueguês, há uns anos atrás, disse ter agido em nome da preservação do seu país e da sua cultura, para travar a política trabalhista de acolhimento de imigrantes muçulmanos. Acrescentou, no julgamento, após ter sido declarado mentalmente são por uma equipa de psiquiatras, que cometeria o crime, novamente.

Se Mateen declara agir pelo Islão e daí se depreende que aquilo que lhe motivou o ódio foi a sua profissão de fé, a qual seria meio caminho andado para ser terrorista, então a declaração de ter agido em nome da Noruega levar-nos-ia a concluir que ser norueguês é meio caminho andado para se ser racista e achar que o seu país só se preserva mantendo fora os imigrantes. Ambas as conclusões estão erradas, obviamente. Mateen é um ser cultural. Como todos e todas nós, é em parte um produto do enquadramento cultural (e profissional) em que viveu e se formou e esse enquadramento terá despertado em si um ódio que se expressou de forma violentíssima. A religião, portanto, não é o seu único traço cultural identitário; reduzi-lo a isso e assim responsabilizar milhões de pessoas sobre as quais nada sabemos, por professarem a mesma fé é, isso sim, oportunismo.

A população LGBT não pode, estou certo que não irá, deixar que o seu sofrimento, o seu medo e o seu luto sejam instrumentalizados em nome de um inexistente confronto civilizacional. É por isso que sim, saio de uma marcha LGBT e marcho pelos direitos do povo da Palestina, contra a ocupação que sofre há demasiados anos, com a complacência da comunidade internacional. O único confronto que aqui existe é entre quem alimenta ódios a religiões, a identidades culturais, sexuais ou de género, entre outras, e quem recusa todas as formas de ódio e luta por sociedades de gente livre e emancipada.

PS: O estudante não leva aspas e o estudante assinou o seu texto. Se Alberto Gonçalves quiser dirigir-se ao estudante, por favor refira o seu nome; certamente não é a sua intenção, mas não o fazer deixa um rasto sobranceiro e paternalista que não fica bem a ninguém.