Marcelo e as elites. Mas, que elites?

Quando o Presidente da República subiu ao palco do 10 de Junho para recordar que “foi o povo, a arraia-miúda, quem nos momentos de crise soube compreender os sacrifícios e privações em favor de um futuro mais digno e mais justo” ou para sublinhar que “foi o povo, sempre o povo, a lutar por Portugal”, não se estava certamente a referir à crise de 1383-1385. Quando apontou o dedo a “algumas elites” que “nos falharam, em troca de prebendas vantajosas, de títulos pomposos, meros ouropéis luzidios, de autocontemplações deslumbradas ou simplesmente tiveram medo de ver a realidade e de decidir com visão e sem preconceitos” não estava seguramente a falar de D. João I ou a pensar em Nuno Álvares Pereira. Para notória infelicidade do povo, Marcelo Rebelo de Sousa pode pegar nas histórias da Caixa Geral de Depósitos, no ilusionismo de José Sócrates, na fuga de Durão Barroso, na arrogância venal de Ricardo Salgado ou na incompetência premiada de Vítor Constâncio (o homem que travou o debate sobre o desequilíbrio externo nacional acabou, recorde-se, na vice-presidência do BCE) para dizer o que disse. 

O que o Presidente não disse, e nós gostaríamos muito de saber, é se acha que a nova elite que governa hoje o país é capaz ou não de “ver a realidade e decidir com visão e sem preconceitos”. Porque, definitivamente, estamos cansados de andar sempre às voltas com o passado e de ver como o país esperançoso de 1986 a 2000 acabou no limiar da bancarrota e no sufoco de escândalos sucessivos. Sim, já sabemos que uma parte da elite política portuguesa contemporânea é o exemplo acabado do fracasso e da venalidade.

É por isso ridículo que o PSD queira avançar com uma comissão parlamentar de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, porque todos e cada um dos seus deputados sabem o que todos e cada um dos portugueses conhecem: que a Caixa foi durante anos a fio um instrumento do tráfico de influências políticas, o lugar onde o Estado se deixou aprisionar em nome de uma rede de privilegiados sem o mínimo laivo de honra ou de sentimento de dever público. A questão é: e agora?

Se houve nos anos de chumbo da troika uma boa notícia foi a da varredela de uma certa elite que se instituiu com o alto patrocínio do Estado e dos nossos impostos. O fim do império do BES, a investigação judicial aos indícios que pairam sobre os negócios de José Sócrates ou de Armando Vara, a passagem à reserva (sejamos crédulos, ao menos por uns instantes) de Miguel Relvas ou a queda da Ongoing deixaram entrar algum ar fresco pela janela.

Mas, e o presente? Nada nos garante que debaixo dos escombros do ajustamento tenha nascido uma verdadeira elite política destinada a reformar o país e a expurgar o Estado das suas pústulas e dos seus vícios. Pelo contrário, podemos até suspeitar que nas negociatas da TAP ou nos arranjos com os estivadores esteja outra vez presente o instinto de sobrevivência de uma oligarquia política (a expressão feliz de Rui Ramos nas suas crónicas no Observador) que faz tudo para se perpetuar no poder.

Num livro lúcido e admiravelmente bem escrito que a Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou recentemente (Crime e Castigo, Os desequilíbrios e o resgate da economia portuguesa, de Fernando Alexandre, Luis Aguiar-Conraria e Pedro Bação) faz-se uma viagem pelos traumas do passado recente que nos conduz a uma actualidade não menos assustadora: os problemas que Portugal tinha no início da sua década e meia perdida (por volta do ano 2000) e que nos obrigaram a pedir um resgate à troika continuam presentes.

A dívida pública e privada é mais elevada do que no início desta fase da vida nacional e o crescimento económico continua a ser anémico. O défice, está bem, melhorou, mas permanecemos sentados em cima de um barril de pólvora. Portugal precisava de uma elite política que fosse capaz de ter coragem de assumir que a gravidade deste problema não se esgota nos artifícios fantasiosos do debate parlamentar actual. Que tivesse coragem de assumir que há reformas profundas a fazer, sejam as que se encaixam mais nos pergaminhos da direita ou as que reclamam a adopção de mecanismos de protecção social que se revêm mais facilmente nos programas da esquerda.

Infelizmente, mesmo que a elite actual recuse “prebendas vantajosas” ou “títulos pomposos”, ela continua a alimentar-se de “autocontemplações deslumbradas” sem que se digne encarar de frente o problema. Nas semanas em que assistimos à cada vez mais provável saída da União Europeia do Reino Unido, o nosso mais antigo aliado estratégico, nos dias em que as notícias do desempenho económico vão de mal a pior, o país enleva-se com celebrações gloriosas no Terreiro do Paço ou em Paris e embevece-se com o patrioteirismo por vezes alarve dos diagnósticos sobre a forma de Ronaldo. A elite assobia para o lado, como fez quando constatou que o país caíra num pântano ou quando ficara de tanga.

Bem sabemos que tristezas não pagam dúvidas, que o “tempo novo” também se faz de confiança e optimismo, que o país precisava de respirar depois de quase cinco anos de sufoco da troika e da “austeridade”. É verdade que, ao contrário do que se previra, o balanço do poder para os lados da esquerda radical não produziu nenhuma hecatombe. Mas, ainda assim, é impossível não ouvir o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa e perguntar: “E vai daí, senhor Presidente?” Mesmo que não seja venal, o que está a fazer a elite que nos resta para quebrar as correntes que impedem um país com produção de ciência de ponta, com universidades de nível internacional, com novas gerações qualificadas e competentes de dar o salto que deseja? Pois é, não nos parece que esteja a fazer grande coisa. E tanto nós como Marcelo Rebelo de Sousa sabemos porquê: porque a elite continua a ter “medo de ver a realidade e de decidir com visão e sem preconceitos”. O “saber durar”, a arte que o historiador Fernando Rosas identifica em Salazar, tornou-se a única preocupação da política nacional. 

Claro que a política é a arte do possível e basta olhar para o lado, para Espanha, e perceber que é melhor termos uma receita de poder conservadora, medrosa e paralisante do que vivermos em permanente clima de crise ou de instabilidade. Mas se pegarmos na dialéctica do Presidente, podemos constatar que o povo que “ganha sempre” continua à espera de uma elite política que se lhe compare.

Por isso, este romance de cavalaria entre Belém e São Bento começa a cansar. Porque é uma mistificação e uma perversidade. O Presidente existe para moderar ou para arbitrar o jogo democrático. Faz parte das suas incumbências introduzir-lhe perguntas, dúvidas e tensão. Está na hora de pegar nas suas observações argutas e nas suas constatações sábias e de exigir que não se extingam na espuma dos dias. O país precisa de elites que, como disse o Presidente e nunca é demais lembrá-lo, não tenham “medo de ver a realidade e de decidir com visão e sem preconceitos”. Há que estimulá-las e não deixá-las a marinar na irrealidade de um país agonizante que se desdobra em festas como se tudo estivesse bem.