Crítica

Ser ou não ser o exótico de serviço

Faustin Linyekula é acima de tudo um contador de histórias de pessoas verdadeiras, num país real. Dupla passagem pelo Alkantara Festival do Artista na Cidade 2016.

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Faustin Linyekula em Sur les traces de Dinozord AGATHE POUPENEY

Há algo das tradições orais africanas a misturar-se a uma contemporaneidade ocidental nas peças de Faustin Lineykula. O coreógrafo-intérprete congolês (ex-Zaire,1974) é, antes de tudo, um contador de histórias. Histórias de pessoas verdadeiras, num país real, dos mais pobres do mundo; de sonhos naufragados no pós-independência colonial (1960), entre a ditadura de Mobutu e a da “dinastia” Kabila, em anos dilacerantes de guerra civil, a mais sangrenta desde a Segunda Guerra Mundial.

Sur les traces de Dinozord (2012) é mais um capítulo de uma narrativa cujos antecedentes conhecemos em Dialogue Series III. Dinozord (2006; Alkantara Festival, 2008); celebra a liberdade do autor e actor Antoine Vumilia, exilado na Suécia após espectacular fuga da prisão em Kinshasa (da qual veremos imagens clandestinamente registadas por telemóvel), após dez anos de prisão e condenação à morte por suspeita de envolvimento no assassinato de Laurent Kabila. Vumilia está agora no palco. Dactilografa, numa anacrónica máquina de escrever, cujo ritmo amplificado marca em fundo a atmosfera cénica; e a ele caberá uma das mais intensas prestações do serão (lugar a estrepitosa ovação espontânea) com a interpretação de um belíssimo texto, palavras a ombrear com as do falecido poeta Kabako, figura que sobrevive no  projecto artístico e social (Studios Kabako) que Faustin dirige em Kisangani, na República Democrática do Congo profunda. Sur les traces… fala-nos das histórias atribuladas de uma cúmplice comunidade artística e de afectos: quatro bailarinos, dois actores, e um sublime Serge Kakudji, improbabilíssimo contratenor que o destino trouxe do recôndito coração de África para o canto lírico europeu.  

A luminotecnia recorta, com eficácia, o percurso dos intérpretes num obscuro e envolvente espaço cénico, rompido por notas de cor (o baú vermelho, a transformar-se em sarcófago, contentor de milhares de paginas escritas, palanque de comício, ou banco onde se juntam os amigos). Imagens filmadas, uma participação por Skype, combinam-se a declamações repetidas até ao êxtase poético, e a interacções teatrais, articuladas (nem sempre com fluência) com ténues citações de danças ndombolo inscritas em movimentos em que o contemporâneo “ocidental” prevalece; tal como na paisagem sonora,  predominam Mozart, Arvo Pärt e Jimi Hendrix.

As vidas entrecruzadas de que Faustin nos fala dão-nos a ver o país ao fundo. Na linguagem transnacional de quem se reclama cidadão do mundo, e tenta pontes simbólicas entre Norte e Sul. São  trilhos armadilhados: como obviar suspeições, e dialogar com uns e outros? Como negociar não ser o exótico de serviço nem o portador do estandarte de etnicidade? Como falar das identidades mutantes em tempos de demografias móveis? Como é ter nascido num país que já não existe? No meio dos escombros, o que fica das relações humanas? O que é ter dentro de si vários mundos?

Se ouvimos dos vencidos de quem a história não reza, estas são histórias contadas por homens. Certa expectativa aguardava a voz de uma mulher, em Dialogue Series IV: Moya Michael, a bailarina-coreógrafa sul-africana há 15 anos radicada no meio da dança belga. Faustin, agora ausente, deixa aqui a sua presença pairar: face projectada num ecrã, ouvi-lo-emos em off, tal como serão convocados os cúmplices dos anteriores capítulos da série: Franco, o guitarrista, ou Dinozord, o jovem bailarino que um dia se lhe apresentou, insólito, dizendo: “Sou o último da minha raça”. Faustin dialoga com Moya acerca da mulher, bailarina e mestiça, no entre-lugar Bélgica/Africa do Sul. O testemunho tende, contudo, a apagar-se, ou a pouco acrescentar ao discurso (que conhecemos) de Lineykula. As suas qualidades interpretativas não salvam conexões dramatúrgicas pouco evidentes: o depoimento verbal, a alternar com as sequências dançadas de composição por vezes linear (amiúde previsíveis), tal como certos elementos cénicos (o saco de boxe, o repuxo de água no fim).

Se a Sur les traces… o tempo transcorrido conferiu espessura e profundidade dramática e política, o Dialogue de Moya requer amadurecimento. Um e outro lembram-nos, porém, dos novos paradoxos do mundo actual, e de que existe sempre gente de carne e osso por entre as ruínas; e de tais ecos num Portugal a reconstruir os laços com a sua própria africanidade.